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O HISTORIADOR O HISTORIADOR 
ELIZABETH KOSTOVA
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Tradução de M. L. N. SILVEIRACírculo de Leitores Título original: THE HISTORIAN2005As citações de Drácula, de Bram Stoker foram extraídas da edição de 1972 daEditorial Minerva, com tradução de Mário Gonçalves.Digitalização e correção: Fátima TomásPara o meu pai, que primeiro me contou algumas destas histórias.
Nota ao Leitor
Nunca tive a inteão de passar para o papel a história que se segue.Recentemente, contudo, um inesperado conjunto de circunstâncias forçou-me arelembrar os episódios mais perturbadores da minha vida e das vidas das pessoasque mais amei. Esta é a história de como, aos dezesseis anos, parti em busca domeu pai e do seu passado, e de como ele próprio partiu em busca do seu amadomentor e da história desse mentor, e de como todos nós nos encontramos numadas mais sombrias encruzilhadas da história. É a história de quem sobreviveu aessa busca e de quem não sobreviveu, e porquê. Como historiadora que sou,aprendi que, na realidade, nem todos os que se voltam para a história do passadoconseguem sobreviver-lhe. E não é só voltarmo-nos para trás que nos põe emperigo; às vezes, a própria história estende inexoravelmente para nós a sua garratenebrosa, procurando alcançar-nos.Nos trinta e seis anos que se seguiram à revelação desses acontecimentos, aminha vida decorreu de maneira relativamente tranqüila. Dediquei o meu tempoa trabalhos acadêmicos e a viagens de rotina, aos meus alunos e aos meusamigos, a escrever livros de natureza histórica e sobretudo impessoal, e aosassuntos da universidade na qual acabei por procurar abrigo. Ao fazer estarevisão do passado, foi uma sorte ter tido acesso à maioria dos documentospessoais em questão, pois já estavam na minha posse há muitos anos. Quando julguei necessário, liguei-os para formar uma narrativa contínua, que de vez emquando tive de completar com as minhas próprias reminiscências. Embora tenhaapresentado as primeiras histórias que o meu pai me contou da maneira comoforam narradas de viva voz, também me apoiei profusamente nas suas cartas,algumas das quais repetiam essas narrativas orais.Além de reproduzir essas fontes quase na totalidade, aventurei-me por todos oscaminhos possíveis de recolha e pesquisa, revisitando por vezes um lugar pararefrescar passagens mais adormecidas da minha memória. Um dos maioresprazeres deste empreendimento foram as entrevistas em alguns casos, acorrespondência com os poucos estudiosos ainda vivos que estiveram envolvidosnos fatos aqui relatados. As suas memórias acrescentaram um 12 complementoinestimável às minhas outras fontes. O meu texto também beneficiou com ascontribuições de jovens especialistas de diversas áreas.Houve um recurso final de que lancei mão quando necessário a imaginação. Fi-locom rigoroso cuidado, imaginando para o meu leitor apenas o que já sei sermuito provável e, assim mesmo, apenas quando uma especulação razoávelajudar a inserir esses documentos no seu devido contexto. Nas ocasiões em quenão fui capaz de explicar acontecimentos ou motivos, deixei-os sem explicação,respeitando as suas realidades ocultas A história mais distante dentro destahistória foi pesquisada com o mesmo cuidado que usaria para qualquer textoacadêmico. Ao leitor moderno, vão parecer dolorosamente familiares vislumbres
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de conflitos religiosos e territoriais entre um Oriente islâmico e um Ocidente judaico-cristão.Ser-me-ia difícil agradecer de modo adequado a todos aqueles que me ajudaramneste projeto, mas gostaria de citar pelo menos alguns. A minha profundagratidão aos que se seguem, entre muitos outros- doutor Radu Georgescu doMuseu Arqueológico da Universidade de Bucareste, doutora Ivanka Lazarova daAcademia lgara de Ciências, doutor Petar Stoichev da Universidade deMichigan, a incansável equipa da Biblioteca Britânica, os bibliotecários do MuseuLiterio e Biblioteca Rutherford de Filalfia, o padre Vasil do MosteiroZographou no monte Athos e o doutor Turgut Bora da Universidade de Istambul.A minha grande esperança ao tornar pública esta história é que seja possívelencontrar pelo menos um leitor que a compreenda pelo que de fato é: um cri decoeur. A você, leitor capaz, confio a minha história.Oxford, Inglaterra15 de Janeiro, 2005
Parte I
Compreender-se-á claramente, pela leitura destes apontamentos, a razão por queforam colocados na ordem que apresentam. Eliminaram-se as coisasdesnecessárias, de modo a que surgisse como fato verdadeiro uma história quaseem completo desacordo com as crenças habituais.Não há nenhuns pormenores em que a memória corresse perigo de se enganar,pois tudo foi anotado dia a dia e por aqueles que o podiam testemunhar.Bram Stoker, DRÁCULA, 1897
Capítulo 1
Em 1972 eu tinha dezesseis anos demasiado jovem, dizia o meu pai, para viajarcom ele nas suas missões diplomáticas. Ele preferia saber que eu estava sentadaa seguir atentamente as aulas na Escola Internacional de Amesterdã; naquelaépoca, a sede da fundação do meu pai era em Amesterdã, onde eu morava há játanto tempo que quase esquecera a nossa vida anterior nos Estados Unidos.Hoje, acho estranho ter sido tão obediente na minha adolescência, enquanto aminha geração experimentava drogas e protestava contra a guerra imperialistano Vietnam, mas fui criada num ambiente tão resguardado que fez a minha vidaadulta e acadêmica parecer decididamente aventurosa. Para começar, era órfã demãe, e os cuidados que o meu pai tinha comigo foram aumentados por umadupla noção de responsabilidade, de modo que ele me protegia mais do que se ascircunstâncias fossem outras. A minha mãe morreu quando eu era bebê, antes deo meu pai fundar o Centro para a Paz e a Democracia. O meu pai nunca falavadela e esquivava-se discretamente sempre que eu fazia perguntas; muito cedocompreendi que era demasiado doloroso para ele tocar nesse assunto. Emcontrapartida, cuidava muito bem de mim com a ajuda de diversas preceptoras egovernantas que contratou com esse fim o dinheiro não era obstáculo quando setratava da minha educação, apesar de vivermos com simplicidade no dia-a-dia.A última dessas governantas foi Mrs. Clay, que tomava conta da nossa casaholandesa do século dezessete perto do Raamgracht, um canal no centro históricoda cidade. Mrs. Clay abria-me a porta todos os dias quando eu chegava da escolae era uma espécie de parente quando o meu pai viajava, o que acontecia comfreqüência. Era inglesa, mais velha do que a minha mãe teria sido, hábil com umespanador de pó e desajeitada com adolescentes; às vezes, olhando para o rostodela durante o jantar e vendo a sua expressão de pena exagerada e os dentesdemasiado compridos, tinha a impressão de que ela pensava na minha mãe edetestava-a por causa disso. Quando o meu pai estava fora, a linda casa ecoavacomo se estivesse vazia. Não havia ninguém para me ajudar com os problemas
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