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112 - Comércio e Integração Regional 
A ABERTURA COMERCIAL BRASILEIRA
Rubens Ricupero
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Evandro Didonet
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NOTA INTRODUTÓRIA
Até o último minuto estive tentado adescumprir o compromisso de tratar destetema. Quando aceitara a tarefa, ascircunstâncias eram não só diversas masde sentido quase oposto. O convite paraescrever o artigo foi, creio, de outubro de1994, quando parecia haver unanimidadeem favor da liberalização comercial. Desdeentão, a crise mexicana, o reaparecimentodos déficits comerciais e as medidas decontenção das importações fizeram ir pelosares o frágil quase-consenso. O terrenoficou semeado de tantas minas que oshomens prudentes fariam bem em só pisá-lo muito de leve.Havia, além disso, a minha posiçãopessoal a considerar. No Ministério daFazenda, ou antes, como representante junto ao GATT durante a Rodada Uruguai,como embaixador em Washington depois,sempre defendi de público, em artigos econferências, a abertura da economia. Se já era, assim, difícil manter a isenção numaatmosfera de relativa serenidade, o quedizer, sem correr o risco de ser malcompreendido ou destorcido, quando acontrovérsia voltava a se acender?Teria, portanto, me resignado aarquivar mais este projeto, não fosse ainiciativa e competência do meu colegaEvandro Didonet. Com ele discutifrancamente em Roma os prós e os contrasdo dilema e chegamos à conclusão de quenão se podia fugir ao debate. Eucontinuava a hesitar, no entanto, e, semesperar, Didonet apresentou-me umtrabalho onde havia logrado dar forma fiel eobjetiva às idéias que ele e eu partilhamose discutimos. Diante do resultado, que meparecia identificar, com equilíbriodesapaixonado, o caminho correto a seguirem questão de tamanha complexidade,superei as dúvidas sobre a utilidade doexercício. Contribuí com um ou outroretoque ao quadro dos argumentos e dasconclusões. Deixo constância do créditoque corresponde ao julgamentoamadurecido e aos conhecimentos segurosde Evandro Didonet. Esperamos, ele e eu,que os fatos e as razões aqui expostosdemonstrem ser possível tratar de temavital para o futuro econômico do Brasil semdeixar-se contaminar por ideologias,preconceitos ou interesses políticostransitórios.
(Rubens Ricupero - Roma, maio de 1995)
Os déficits registrados na balançacomercial brasileira a partir de novembrode 1994 provocaram o reaparecimento dodebate sobre o processo de aberturainiciado no final dos anos 80. A
 
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preocupação com a evolução da balançacomercial brasileira acentuou-se com aeclosão, no final de 1994, da crise cambialmexicana. O atual momento se presta,portanto, a uma reflexão sobre o processode abertura comercial.O presente texto terá a seguinteestrutura:I. breve descrição da abertura comercialbrasileira, bem como de suasmotivações e de seus resultadosiniciais;II. impacto inicial da abertura comercialsobre o nível de importações;III. a abertura comercial, o Plano Real e acrise mexicana;IV. conclusões.
I.
BREVE DESCRIÇÃO DA ABERTURA COMERCIALBRASILEIRA
Não caberia num trabalho limitadocomo este um histórico mais amplo sobre aproblemática do comércio exteriorbrasileiro. As discussões entre defensoresdo protecionismo e do livre-cambismo já noConselho de Estado do Império de meadosdo século passado ou a oposição, a partirdos anos 30, entre os partidários daproteção à indústria nacional, comoRoberto Simonsen e Euvaldo Lodi, de umlado, e de outro os advogados de umcomércio sem barreiras, como EugênioGudin e Valentim Bouças, figurariammelhor num estudo com maiorescredenciais de rigor acadêmico.Para os nossos objetivos, bastariadizer que, desde os anos 50 até o final dosanos 80, o Brasil seguiu uma política desubstituição de importações, com o objetivoprincipal de incentivar o desenvolvimentoda indústria nacional. Um julgamentoequilibrado sobre os efeitos dessa políticadeve incluir o reconhecimento de que, emalguma medida, e em determinadoscampos da atividade econômica, contribuiupara o dinamismo da economia brasileiraaté o final dos anos 70.A partir dos anos 80, contudo, omodelo de substituição de importaçõespassou a apresentar sinais deesgotamento. Se, no passado, o rígidocontrole das importações havia sido -aindaque nem sempre de forma estruturada ecoerente - um elemento de políticaindustrial, pelo menos a partir da crise dadívida externa a substituição deimportações passou a constituir umexpediente para a administração dosproblemas cambiais. O fechamento daeconomia se tornara um fator de crescentedefasagem tecnológica da indústriabrasileira, e de incentivo à manutenção de"cartórios" para empresas ineficientes.O primeiro esboço de liberalizaçãocomercial havia ocorrido no período emque Roberto Campos e Octávio Gouveia deBulhões, após o trabalho de saneamento eestabilização de 1964-65, tentam eliminar oviés anti-exportador das políticas e práticasde então, e imprimir à economia umimpulso alimentado em parte pelas
 
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exportações. Não deixa de ser umacuriosidade histórica especular sobre o que"poderia ter sido e não foi", caso o Brasiltivesse perseverado em tentar um modelomais aberto, no justo momento em quepaíses como a Coréia do Sul ensaiavamseus primeiros passos nesse caminho até aépoca pouco explorado. A partir dos anos70, as mudanças de política econômica eas conseqüências tiradas dos choques dopetróleo levarão a um retrocesso e à morteprecoce desse primeiro intuito de reformacomercial.A abertura comercial brasileira só vaiter início efetivo no final dos anos 80. Aconstatação do esgotamento do modelo desubstituição de importações reflete-se nofato de que a passagem a uma política demaior exposição da economia brasileira àcompetição internacional se deu semtraumas, e sem contestação relevante porparte dos diferentes setores da sociedadebrasileira. Ainda que não se possa falar emconsenso, registrou-se, desde o final dosanos 80, amplo grau de apoio interno aoprocesso de abertura comercial, que tevecontinuidade ao longo dos governos JoséSarney, Fernando Collor, Itamar Franco e,agora, Fernando Henrique Cardoso. Seriaincorreto, assim, identificar a aberturacomercial - como muitas vezes o fazem osseus críticos - a um projeto de inspiraçãoneoliberal.De uma forma simplificada, osobjetivos mais imediatos da aberturacomercial poderiam ser resumidos nosseguintes aspectos:a) submeter a economia brasileira a um"choque de competitividade", levandonossas empresas a buscar formas maiseficientes de produção - em benefício,inclusive, de sua capacidade deexportação;b) facilitar a importação de bens de capitale de tecnologias essenciais para amodernização do parque industrial;c) introduzir maior grau de competição emsetores oligopolizados da economiabrasileira, em benefício dosconsumidores e, também, como fatorde contribuição aos esforços decontrole da inflação.O fato de o Brasil abrir sua economiadeveria ser visto, ademais, como parte deuma nova política de desenvolvimento, emque o comércio internacional - importaçõese, também, exportações - passaria adesempenhar papel mais importante.Buscava-se, na expressão já um tantodesgastada pelo uso, uma "maior inserçãodo Brasil na economia internacional".A experiência do aceleradocrescimento das economias dinâmicas daÁsia contribuiu para ressaltar, a partir dosanos 80, a importância do comércio exteriorcomo alavanca para o processo dedesenvolvimento. Não se pretende afirmarque a abertura ao exterior é, por si só,elemento suficiente para explicar o "salto"daquele grupo de economias. Ao contrário,
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