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a metrópole e a vida mental

a metrópole e a vida mental

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Bibliografia básica pra muitos cursos que estudam modernidade/comportamento/contemporaneidade.
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MANA 11(2):577-591, 2005
AS GRANDES CIDADES E A VIDA DO ESPÍRITO(1903)
Georg Simmel
Os problemas mais profundos da vida moderna brotam da pretensão doindivíduo de preservar a autonomia e a peculiaridade de sua existênciafrente às superioridades da sociedade, da herança histórica, da culturaexterior e da técnica da vida — a última reconfiguração da luta com anatureza que o homem primitivo levou a cabo em favor de sua existência
corporal
. Se o século XVIII pode clamar pela libertação de todos os vín-culos que resultaram historicamente no estado e na religião, na moral ena economia, para que com isso a natureza originalmente boa, e que é amesma em todos os homens, pudesse se desenvolver sem empecilhos; seo século XIX reivindicou, ao lado da mera liberdade, a particularidadehumana e de suas realizações, dadas pela divisão do trabalho, que tornao singular incomparável e o mais indispensável possível, mas com isso oatrela mais estreitamente à complementação por todos os outros; seNietzsche vê a condição para o pleno desenvolvimento dos indivíduos naluta mais brutal dos singulares, ou o socialismo, precisamente na manu-tenção do nível mais baixo de toda concorrência — em tudo isto atua omesmo motivo fundamental: a resistência do sujeito a ser nivelado e con-sumido em um mecanismo técnico-social. Onde os produtos da vida es-pecificamente moderna são indagados acerca de sua interioridade; ondepor assim dizer o corpo da cultura é indagado acerca de sua alma —como me parece ser atualmente o caso no que diz respeito às nossasgrandes cidades —, a resposta precisa ser buscada na equalização pro-movida por tais formações entre os conteúdos individuais e supra-indivi-duais da vida, nas adaptações da personalidade, mediante as quais elase conforma com as potências que lhe são exteriores.O fundamento psicológico sobre o qual se eleva o tipo das individuali-dades da cidade grande é a
 intensificação da vida nervosa
, que resulta
*
 
AS GRANDES CIDADES E A VIDA DO ESPÍRITO
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da mudança rápida e ininterrupta de impressões interiores e exteriores.O homem é um ser que faz distinções, isto é, sua consciência é estimula-da mediante a distinção da impressão atual frente a que lhe precede. As im-pressões persistentes, a insignificância de suas diferenças, a regularida-de habitual de seu transcurso e de suas oposições exigem por assim dizer menos consciência do que a rápida concentração de imagens em mudan-ça, o intervalo ríspido no interior daquilo que se compreende com umolhar, o caráter inesperado das impressões que se impõem. Na medidaem que a cidade grande cria precisamente estas condições psicológicas— a cada saída à rua, com a velocidade e as variedades da vida econômica,profissional e social —, ela propicia, já nos fundamentos sensíveis davida anímica, no
quantum
da consciência que ela nos exige em virtudede nossa organização enquanto seres que operam distinções, uma oposi-ção profunda com relação à cidade pequena e à vida no campo, com ritmomais lento e mais habitual, que corre mais uniformemente de sua ima-gem sensível-espiritual de vida. Com isso se compreende sobretudo ocaráter intelectualista da vida anímica do habitante da cidade grande,frente ao habitante da cidade pequena, que é antes baseado no ânimo enas relações pautadas pelo sentimento. Pois estas lançam raízes nas ca-madas mais inconscientes da alma e crescem sobretudo na calma propor-ção de hábitos ininterruptos. Em contraposição a isto, o lugar do entendi-mento são as camadas mais superiores, conscientes e transparentes denossa alma; ele é, de nossas forças interiores, a mais capaz de adaptação.Ele não necessita, para acomodar-se com a mudança e oposição dos fenô-menos, das comoções e do revolver interior, sem os quais o
ânimo
maisconservador não saberia se conformar ao ritmo uniforme dos fenômenos. Assim, o tipo do habitante da cidade grande — que naturalmente é en-volto em milhares de modificações individuais — cria um órgão protetor contra o desenraizamento com o qual as correntes e discrepâncias de seumeio exterior o ameaçam: ele reage não com o ânimo, mas sobretudo como entendimento, para o que a intensificação da consciência, criada pelamesma causa, propicia a prerrogativa anímica. Com isso, a reação àque-les fenômenos é deslocada para o órgão psíquico menos sensível, queestá o mais distante possível das profundezas da personalidade. Essaatuação do entendimento, reconhecida portanto como um preservativo davida subjetiva frente às coações da cidade grande, ramifica-se em e commúltiplos fenômenos singulares. As grandes cidades sempre foram o lu-gar da economia monetária, porque a multiplicidade e concentração datroca econômica dão ao meio de troca uma importância que não existiriana escassez da troca no campo. Mas a economia monetária e o domínio
 
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do entendimento relacionam-se do modo mais profundo. É-lhes comum apura objetividade no tratamento de homens e coisas, na qual uma justiçaformal freqüentemente se junta com uma dureza brutal. O homem pauta-do puramente pelo entendimento é indiferente frente a tudo que é pro-priamente individual, pois do individual originam-se relações e reaçõesque não se deixam esgotar com o entendimento lógico — precisamentecomo no princípio monetário a individualidade dos fenômenos não temlugar. Pois o dinheiro indaga apenas por aquilo que é comum a todos, ovalor de troca, que nivela toda a qualidade e peculiaridade à questão domero “quanto”. Todas as relações de ânimo entre as pessoas fundamen-tam-se nas suas individualidades, enquanto que as relações de entendi-mento contam os homens como números, como elementos em si indife-rentes, que só possuem um interesse de acordo com suas capacidadesconsideráveis objetivamente — assim como o habitante da cidade grandeconta com seus fornecedores e fregueses, seus criados e mesmo freqüen-temente com as pessoas de seu trato de dever social, em contraposição aocaráter do círculo menor, onde o conhecimento inevitável das individua-lidades cria também inevitavelmente uma coloração plena de ânimo docomportamento, um estar para além da mera consideração das capacida-des e compensações. Aqui, o essencial no terreno da psicologia econômicaé que nas relações mais primitivas se produz para o cliente que enco-menda a mercadoria, de modo que produtor e freguês se conhecem mu-tuamente. A cidade grande moderna, contudo, alimenta-se quase quecompletamente da produção para o mercado, isto é, para fregueses com-pletamente desconhecidos, que nunca se encontrarão cara a cara com osverdadeiros produtores. Com isso, o interesse das duas partes ganhauma objetividade impiedosa, seus egoísmos econômicos, que calculamcom o entendimento, não têm a temer nenhuma dispersão devida aosimponderáveis das relações pessoais. E isso está, evidentemente, em umainteração tão estreita com a economia monetária — que domina nas gran-des cidades e desaloja os últimos restos da produção própria e da trocaimediata de mercadorias e que reduz dia a dia o trabalho para o cliente —,que ninguém saberia dizer se é inicialmente aquela constituição intelectualista,anímica, que impulsiona rumo à economia monetária, ou se é esta o fator determinante daquela. Seguro é apenas que a forma da vida na cidadegrande é o solo mais frutífero para essa interação, o que gostaria aindade comprovar com a palavra do mais importante dos historiadores ingle-ses da constituição: no decurso de toda a história inglesa, Londres nuncafoi considerada o coração da Inglaterra, mas freqüentemente seu enten-dimento e sempre sua bolsa!

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