Aula 5 –
Linguagem corporal e não-verbal::
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A
poetisa traz-nos seu primeiro livro, porém não o entrega logo.Fica estudando nossa expressão fisionômica antes de confiar-nos a suma de tantas vivências. Fala de coisas vagas, que se tornam maisvagas ainda pela indecisão da palavra. Certa amiga comum nos mandalembranças. Podemos fornecer o endereço de mestre Fulano? Parece queé difícil encontrá-lo em casa, qual a melhor hora? As informações são prestadas, enquanto, por nossa humilde vez, inspecionamos a poetisa. Usavestido elegante, sob a capa elegante. É alta, morena, jovem. Um adjetivoclareia, com espontaneidade de espelho: bonita. Parece que clareou emnosso olhar, pois ela baixa a cabeça e contempla uma formiguinha no linóleo,onde - é claro - não passa nenhuma formiguinha. O livro continua preso namão esquerda, sem que possamos desvendar-lhe o título: pudicamente, sóaparece a brancura da contracapa. Não que haja figura ou dizeres obscenosa ocultar. A poetisa oculta sua poesia, nesse primeiro contato com o exterior.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, 1994.
Tu não avisou que vinha – ela resmungou no seu velho jeito azedo, queantigamente ele não compreendia. Mas agora, tantos anos depois,aprendera a traduzir como que-saudade, seja-benvindo, que-bom-ver-vocêou qualquer coisa assim. Mais carinhosa, embora inábil. Abraçou-a, desajeitado. Não era um hábito, contatos, afagos. Afundou tonto,rápido, naquele cheiro conhecido - cigarro, cebola, cachorro, sabonete, creme debeleza e carne velha, sozinha há anos. Segurando-o pelas duas orelhas, como decostume, ela o beijou na testa. Depois foi puxando-o pela mão, para dentro.
CAIO FERNANDO ABREU, 2000.
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