Aula 7 –
Apresentações e reuniões::
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No dorso instável de um tigre
O pânico de ser atriz vem da autoconsciência, do julgamento de si mesmo,da expectativa ou de qualquer ruído que lembre o quão inútil é a profissão.
Por FERNANDA TORRES
E
m fevereiro de 1995, pouco depois da estréia da peça
Cell Mates
, emque fazia um dos papéis principais, o ator inglês
Stephen Fry
acordou,foi para a garagem, ligou o carro e tentou se matar. Aí pensou na mãe, ficou com penadela e decidiu fugir. Pegou o carro e, de fininho, foi parar na Alemanha. Passou mesesdesaparecido. A peça saiu de cartaz.
Fry
também — segundo o próprio, para sempre. Masvoltou ao cinema, tendo feito o papel-título em
Wilde
. A razão de largar o teatro? Aquiloque, em inglês, se chama
stagefright
.Não existe uma boa tradução de
stagefright
para o português. “Pânico de palco” deixaa desejar. “Pânico da platéia”, idem. Talvez a melhor tradução seja “pânico de cena”, ou“medo da cena”. Afinal, não é propriamente do palco que o ator tem pavor, nem da platéia.É do todo: pavor de perder o próprio sentido da profissão. Qualquer ator se perguntaantes de entrar em cena: “Mas, afinal, por que fui inventar isso pra mim? Por que não souengenheiro ou médico? Que sentido há em fingir que sou outro?” (...)Pânico de cena seria um estado patológico no qual o ator, em bom português, travacom as quatro patas, empaca, amarela. No estrangeiro, os casos são inúmeros, gravese renomados. Laurence Olivier se livrava da pressão de ter que ser Olivier xingando opúblico na coxia, antes de começar o espetáculo. Depois que passou dos sessenta, o pavorera tamanho que ele pensou em desistir da profissão. (...)Marco Nanini define bem a questão: “O Olivier tem
stagefright
porque o Olivier pode.Eu também adoraria ter
stagefright
. Mas se eu começar a dar
piti
antes de entrar em cena,o público simplesmente desaparece”. Nanini é desses atores que correm atrás de umpersonagem como o jogador do Nelson Rodrigues corria atrás da bola: como se fosse umprato de comida. É um caso clássico de ator brasileiro que é empresário de si mesmo. Não temcomo chamar o produtor para dizer que não vai dar espetáculo. Ele é seu próprio patrão.Gosto da observação do Nanini. Até que ponto o medo de estar em cena pode serconsiderado uma patologia? Tenho certa implicância com essas nomenclaturas, coma classificação da angústia. Cada vez que inventam um novo nome para um desvio decomportamento, suspeito que algum laboratório na Suíça está ganhando muito dinheiro àscustas da neurose alheia. Encarar o pânico de cena como uma doença não ajuda em nadaa vida do ator. O medo de estar em cena é o motor primordial da profissão. Controlá-lo é aarte do negócio. (...)
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