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Conferências - A Vocação da Mulher (Sobre o papel da mulher na sociedade), Gustavo Corção

Conferências - A Vocação da Mulher (Sobre o papel da mulher na sociedade), Gustavo Corção

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Published by Thiago Capanema
Transcrição parcial da conferência de mesmo nome incluída no volume "As Fronteiras da Técnica". Agir, 1955, republicada na Revista Permanência n° 150-151 Maio-Junho 1981
Transcrição parcial da conferência de mesmo nome incluída no volume "As Fronteiras da Técnica". Agir, 1955, republicada na Revista Permanência n° 150-151 Maio-Junho 1981

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Categories:Types, Speeches
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05/14/2014

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A Vocação da Mulher
Gustavo CorçãoNo meu tempo de rapaz houve uma época em que, cansado de estudar ascrateras da lua e os anéis de Saturno, passei a interessar-me pelaavicultura. E, como sempre misturei às coisas mais práticas um pouco deteoria, comecei por munir-me de um tratado. Ora, esse tratado que entãoadquiri, começava por essas inacreditáveis palavras: «
 A galinha e as avesdomésticas em geral, tanto podem ser cuidadas por um homem como por uma mulher 
».Naquele tempo o autor do tratado pareceu-me doido. Assentei comigomesmo que o era, e que não oferecia grande segurança nos finos problemasde alimentação, do choco e da gosma, um livro que começava com tãocolossal quão inútil distinção. Deixei o livro, e poucos meses depois deixeios ovos.Hoje, entretanto, não sei por que misterioso trabalho da memória, voltou-me aquela primeira frase do avicultor e de repente, descobri-lhe a sabedoriaque me escapara na mocidade. Ou então, usando da relatividade, eu diriaque o deslocamento de tempo, a modificação das idéias e costumes,acabaram por transformar em sábio o que naquele tempo era insano.Senão, vejamos. Dizia aquele autor que a galinha pode ser cuidada por umhomem ou por uma mulher. Ora, quem diz isto, é porque sabe, e deixasubentendido, que há outras coisas outras atividades, em que não éindiferente o sexo. Ainda mais, o que parece hoje digno de nota naqueletexto é o ar, digamos assim, de surpresa, de quase admiração com que oautor reconhece a existência de um gênero de atividade em que a mulher eo homem possam se desempenhar com igual proficiência. Em outraspalavras, o que ele dizia lá no tratado de avicultura, podia ser formuladoassim: «A mulher e o homem são terrivelmente diferentes; mas apesar distopodem ambos cuidar de galinhas».É claro que a sabedoria que existe naquele texto, ou que eu porventura lheempreste, está toda contida na primeira parte da proposição: a mulher e ohomem são de fato diferentes. Ambos podem fazer certas coisas, como porexemplo criar galinhas, mas vou agora mais longe que aquele sutilavicultor, e começo a pensar que, mesmo nessa simples atividade, ohomem e a mulher não terão o mesmo estilo em avicultura. Ao contrário, namenor das coisas que façam, ficará a marca dos dedos que a fizeram, e1
 
como a diferença do sexo vai até a ponta dos dedos, resulta que ficará nacoisa cuidada a marca de quem cuidou, homem ou mulher.O ponto onde quero chegar, com essas considerações que roçam pelodelírio, é o seguinte: devemos acentuar a diferença, ao menos como táticade argumentação, porque um dos vícios de nosso tempo consisteprecisamente em procurar a simplificação da uniformidade. A desordem denosso tempo consiste em tender para o amálgama, para o informe, para amassa, para a sociedade sem classe, para um mundo sem limites, para umavida sem regras, para uma humanidade sem discriminações.Ao contrário disto, a sociedade que desejamos construir é uma sociedadericamente diferenciada, e nitidamente hierarquizada. Só é possível pintarum belo quadro porque o vermelho é diferente do azul; só é possível tocaruma bela música porque há certa consonância nos acordes de quinta ecerta dissonância nos acordes de sétima. E só é possível uma bela e boasociedade de homens se as diferenças de natureza forem levadas até suasúltimas conseqüências: quando se admitir, por exemplo, no unânimeconsenso que a mulher e o homem são diferentes.A tendência moderna é de atenuar as diferenças. Imaginem o que seria denós se, por exemplo, os bombeiros hidráulicos resolvessem tornar-se, omais possível, semelhantes aos avicultores; ou reciprocamente, se osavicultores tentassem trazer para os galinheiros a técnica da solda e dodesentupimento. É claro que ao cabo de poucos meses não teríamos nemovos nem água. Uma sociedade humana não pode dispensar o bombeirohidráulico, nem o avicultor. Uma sociedade humana, passavelmenteorganizada, não pode sequer tolerar a idéia de que um cano de chumbo eum ovo sejam aproximadamente a mesma coisa.Há circunstâncias muito especiais em que todas as pessoas de uma certacomunidade são chamadas a tarefas semelhantes. Nessas circunstânciastriunfa uma certa uniformidade. Trata-se, por exemplo, de um incêndiogeneralizado? Todos devem acorrer com mangueiras, extintores, areia. Trata-se agora de uma devastadora epidemia? Todos devem trazer suacontribuição de emergência para debelar o flagelo. Trata-se enfim de umaguerra? Todos devem oferecer seus préstimos para a mais breve e decisivavitória.Quanto mais nítido e mais próximo é o fim, mais homogênea se torna anecessária contribuição de todos. Mas mesmo nesses casos de finspróximos e nítidos, mesmo na fome, na peste e na guerra, a cooperaçãoverdadeiramente eficaz tem o cunho de organicidade que se constitui pelaunidade na diversidade. O concerto dos atos humanos só tem verdadeira2
 
ordem e harmonia quando realiza a união de coisas diversas. Vejam naguerra como é bom que existam homens com aptidões diferentes. Vejam noincêndio que os bombeiros, apesar dos uniformes, não são uniformes. Seusgestos, suas atitudes, seus instrumentos, variam tanto como se aliestivessem representando um feérico e harmonioso bailado do fogo. Vejamtambém na peste que os homens se dividem, tratando estes dos vivosenquanto aqueles cuidam dos mortos.Ora, o funcionamento normal de uma sociedade, que inscreve todas asvidas e todos os problemas de todas as vidas, é mil vezes mais complexo doque o incêndio, a peste e a guerra, a normalidade é mais rica e mais difícildo que a anormalidade; e o problema social, nas mais intrincadas situações,deve ser tratado com os métodos, os resguardos, as atenções, a harmoniaque a normalidade exige. Por isso, mais do que nas situações anômalas, oproblema social dos tumultuosos tempos de paz devem ser conduzidosdentro do concerto das aptidões diferentes. E, quanto mais infantil for acriança, e quanto mais mulheril a mulher, e quanto mais varonil o homem,tanto melhor realizaremos em cada situação concreta a ordem, cambiantemas verdadeira, que é o fundamento da felicidade dos povos. O bem, aperfeição da sociedade, está na infantilidade da infância, na feminilidade damulher, na masculinidade do homem.O concurso que as mulheres têm trazido ultimamente, lamento dizê-lo, temmais a marca da uniformidade do que o cunho autêntico da organicidade.Elas vieram ao nosso encontro. A última guerra viu mãos femininas nostornos mecânicos e no controle dos aviões de bombardeio. E essa situaçãoainda continua. Elas vieram ao nosso encontro, mas o seu concurso temsido apenas numérico, quantitativo, mecânico. Vieram ao nosso encontrocomo pessoas, como braços, como cabeças, mas não vieram comomulheres. O coro das vozes engrossou, mas não se tornou mais harmonioso.O conjunto de gestos se multiplicou, mas não se tornou mais ordenado.Vieram ao nosso encontro para fazer as mesmas coisas. Com os mesmosgestos.E, se vieram fazer o que nós fazemos, é forçoso convir que se declararamderrotadas naquilo que as diferencia de nós. Se adotaram os nossos gestos,forçoso é convir que uma tal capitulação não merece, senão à custa de umaginástica verbal o nome de emancipação. Lembro aqui uma passagem deChesterton em que ele dizia que o tigre pode emancipar-se das barras da jaula, mas não pode emancipar-se das barras da sua pele tigrina.O mundo, com essa contribuição da mulher, arrisca-se ao mais terrível doscataclismas: a ficar reforçado na quantidade, e mutilado na qualidade.Imaginem que pobre música seria aquela em que as flautas andassem3

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