Welcome to Scribd, the world's digital library. Read, publish, and share books and documents. See more
Download
Standard view
Full view
of .
Look up keyword
Like this
1Activity
0 of .
Results for:
No results containing your search query
P. 1
Monografia Morte e Morrer

Monografia Morte e Morrer

Ratings: (0)|Views: 25 |Likes:
Published by chico1977

More info:

Published by: chico1977 on Apr 10, 2013
Copyright:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as DOC, PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

04/03/2014

pdf

text

original

 
1.MORTE E MORRER
 A morte é um fenómeno nem sempre previsível mas certo… Desde onascimento, a única certeza que nos acompanha a todos ao longo do ciclo devida. Pacheco (2002) descreve-a como um fenómeno extremamente complexo,uma vez que está sempre presente ao longo da nossa vida, mas por outro,parece manter-se radicalmente ausente enquanto vivemos, pelo que, a morteé-nos simultaneamente próxima e distante. A morte surge nos dias de hojecomo um acontecimento medonho, pavoroso, um medo universal, continuandoa ser associada a um acontecimento negativo adjectivado como algo trágico,sinistro, e/ou terrível. Esta tragédia, espelha-se no habitual comentário quetantas e tantas vezes fazemos face à notícia de morte: morreu!?... de quê?...constituido-se como um verdadeiro tabu nos dias de hoje (KUBLER-ROSS,1991). Procuramos quase sempre uma razão, uma explicação, um motivo, uma justificação, recusando desta forma o princípio de que a morte é parteintegrante da vida (HENNEZEL e LELOUP, 1998). Ao encararmos a mortecomo um revés ou uma contrariedade, promovemos um comportamento tipoem que se a evita, a ignora, a oculta, ou a sonega de toda e quaisquer maneiras. De forma consciente ou inconsciente envolvemo-la num manto demistério e misticismo conferindo-lhe uma “natureza metafísica” (ARIÈS, 1989,p.10), promovendo uma “conspiração silenciosa” em redor da morte (KUBLER-ROSS, 1991, p.19). Ao reduzi-la a um mero facto banalizamo-la, aoescamoteá-la insistentemente “esterilizamo-la”, e assim contribuímos directa eindirectamente para a sua desumanização. Paradoxalmente, “quanto maisavançamos na ciência, mais parece que tememos e negamos a realidade damorte” (KUBLER-ROSS, 1991, p.19).Torna-se então vital procurar entendê-la como algo natural, conhecer comoreage o doente e família, indagar sobre como os profissionais de saúde reagemà morte, de forma a promover uma nova humanização do cuidar. Torna-senecessário reinventar uma nova ars moriendi, de forma a que o Homemenfrente a sua própria morte e a do outro, de um modo mais consciente esalutar. Este é um domínio em que o profissional de saúde deve cada vez maiscumprir o seu propósito, procurando o se desenvolver enquanto
 
profissional e enquanto pessoa. Deste modo, permitirá aceitar o irracional,entender o óbvio e explanar com a clareza e a lucidez que lhe é permitida, ossegredos que a morte envolve, preenchendo as lacunas e os hiatosremanescentes, de forma a cuidar de forma digna e humana.
1.1 A morte através dos tempos
Desde os primórdios dos tempos o Homem debateu-se com a morte e omistério da sua finitude. Embora aparentemente imóvel, a morte e o morrer enfrentaram profundas alterações na sua natureza, provocando modificaçõeslentas e graduais nas atitudes do Homem perante a mesma (ARIÈS, 1989).Na antiguidade, a morte era na sua maioria, excepto causas acidentais, algo deesperado e por isso algo anunciado pelo que “não se morria sem se ter tidotempo de saber que se vai morrer” (ARIÈS, 1989, p.19). Avisada através de“sinais naturais” e/ ou “conviões íntimas” que conduziam o Homem aoreconhecimento espontâneo da sua finitude, a morte surgia como um sinónimode um acontecimento quer social quer comunitário. Sendo-lhe conferido o graude cerimónia pública, o indivíduo aguardava pela sua morte no seu ambientedostico e acolhedor, rodeada de falia e amigos , “fechavam-se aspersianas do quarto do agonizante, acendiam-se velas, usava-se água benta; acasa enchia-se de vizinhos, parentes, de amigos rios e outros quecochichavam” (ARIÈS, 1988, p.309). Era uma morte acompanhada, onde apessoa era “dona e senhor absoluto da sua morte e das circunstâncias domorrer”( ARIÈS, 1989, p.24). Os rituais cerimoniais que envolviam a morteeram caracterizados pela simplicidade, sendo isentos de dramatismos e/ouemoções excessivas, em que “o maior terror era morrer repentinamente sem ashomenagens cabidas” (KOVÀCS, 1992, p.33). A morte era assim aceite eencarada com naturalidade, pelo que se morria em paz e de forma digna(KUBLER-ROSS, 1991).Em meados do século XIX, com o desenvolvimento industrial e o avançotécnico-científico da medicina, a visão da morte começa a modificar-se. Deforma progressiva, o Homem começa a desenvolver uma crescente intolerânciaface aos mortos e a tudo o que à morte concerne, “sublinham-se mesmo osseus aspectos desgostantes” (ARIÈS, 1988, p.319), revela-se um “espectáculo
 
nauseabundo” (ARIÈS, 1988, p.320). A morte perde a sua conotaçãodostica e torna-se invertida (ARIÈS,1988). O desenvolvimento docapitalismo transforma o corpo humano num mero instrumento de produção, noqual adoecer significa necessariamente inactividade parar de produzir sendo que neste contexto tanto a doença como a morte devem ser ocultadasdo mundo social, dessocializadas (SAPETA e LOPES, 2007). Paralelamenteemergem questões pioneiras de Saúde Pública, onde emanações pestilentas,odores infectos e multidões invadindo o quarto de moribundos se torna algoinconcebível, e como tal, um comportamento a erradicar. A família e acomunidade, em tempos tão atenciosa face ao moribundo, sob o pretexto de opoupar a um maior sofrimento, inicia um processo de silenciamento daverdade, escondendo a gravidade do seu estado de saúde, de modo a evitar oincómodo e a emoção (ao próprio e aos outros) causados pela notícia de morte(ARIÈS, 1988).Este culto da ignorância – hermetização do doente – privando o Homem dosseus mais básicos direitos, promoveu uma rápida e galopante desumanizaçãoda morte, pelo que, não se ousa pronunciar o seu nome “conspiração dosilêncio” (KUBLER-ROSS, 1991, p.19), e falar sobre a mesma é mórbido,tornando-se “objecto de um interdito” (ARIÈS, 1989, p.55).Hoje em dia, a morte é sinónimo de tabu e basta nomeá-la para promover umatensão emocional (KUBLER-ROSS, 1991). Este pudor emergente que a mortepassou a inspirar, tornou-a não só inconveniente como também indecente,“algo vergonhoso” (ARIÈS, 1989, p.55).Torna-se assim impróprio e incómodo morrer em casa, pelo que se verifica umdeslocar da morte para a instituição hospitalar. Inverte-se desta forma umaconcepção milenar, uma vez que “a morte recuou e trocou a casa pelo hospital:esausente do mundo familiar do dia-a-dia. O Homem de hoje, emconseqncia de o a ver suficientes vezes e de perto, esqueceu-a(KUBLER-ROSS, 1991, p.182). Segundo Kubler-Ross (1991), trocou-se aquietude e o sossego do lar pela azáfama e o corrupio dos hospitais, e destaforma, a morte perde o seu carácter cerimonial, resumindo-se hoje apenas aum fenómeno meramente técnico…Institucionalizou-se a morte!

You're Reading a Free Preview

Download
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->