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Universidade Federal do Rio Grande do SulInstituto de Filosofia e Ciências HumanasPrograma de Pós-Graduação em Antropologia SocialAntropologia e EstéticaProf. Caleb Faria Alves
“Meu caro amigo Teixeirinha”
O cinema popular de Vitor Mateus Teixeirapela ótica de seus fãs nos anos 60 e 70.
Nicole Isabel dos ReisPorto Alegre, 12 de Março de 2007.
 
Introdução
Desde 2005 tenho pesquisado a trajetória e as obras do artista gaúcho VitorMateus Teixeira, o Teixeirinha, falecido há mais de 20 anos e indubitavelmenteuma das figuras mais importantes no campo artístico do estado do Rio Grande doSul no século XX, tanto pelo tamanho de sua obra (mais de 80 discos, 1200composições, 12 filmes de longa-metragem) como pela sua permanência na mídiae no imaginário das pessoas (o que pode ser constatado pelo grande número deprogramas de rádio em vários lugares do Brasil dedicados exclusivamente a suamúsica, e à mobilização popular nas datas importantes de sua trajetória, como seuaniversário, seu falecimento e no dia de Finados).Dentre a grande quantidade de material que tenho usado na pesquisa,escolhi para esta monografia as cartas dos fãs de Teixeirinha, cedidas a mim pelaFundação Vitor Mateus Teixeira, uma instituição criada pela família que tem comoobjetivo justamente a preservação da memória do artista e a difusão de seutrabalho. No auge de seu sucesso, nas décadas de 60 e 70, Teixeirinhacostumava receber entre 9 e 10 mil cartas por mês, e tinha duas secretárias quetrabalhavam exclusivamente para respondê-las e selecionar as que seriam lidasem seus programas de rádio. Dessa quantidade imensa de cartas, restaram cercade 5 mil ao todo, com datas entre 1965 e 1985. Das 800 cartas analisadas pormim até agora, encontrei 28 que mencionavam filmes de Teixeirinha. Na suatotalidade, são extremamente positivas em relação aos filmes, contrastandoenormemente com as críticas sobre os mesmos que saiam nos jornais da época.Além de elogios aos filmes, relatos sobre semelhanças entre a própria vida e ahistória encarnada nas telas pelo ídolo Teixeirinha e desejos de sucesso para aspelículas recém-lançadas, muitos fãs se ofereciam (alguns até imploravam) paraparticipar nos filmes futuros.A veemência com que os filmes eram aprovados pelo público nestas cartas(com o uso de adjetivos como maravilhoso, magnífico, espetacular), faz umaoposição significativa à maneira como eles eram referidos pela crítica (usando os
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adjetivos ruim, mau-gosto, mau-feito, entre outros). Mais do que revelar o fato deque Teixeirinha tinha muitos fãs e seguidores que aprovariam qualquer coisa queele fizesse, esse contraste, a meu ver, revela a grande discrepância entre o“cinema popular” segundo seu público-alvo, o povo, e o “cinema popular”conforme a crítica desejava que este fosse. Esta é a questão com a qual desejotrabalhar nesta monografia. Comparando essas duas visões a respeito de umcinema praticamente “marginal”, se tomarmos uma leitura oficial da história docinema feito no Brasil nas décadas de 60 a 80 – que simplesmente ignora aprodução de Teixeirinha na maior parte das vezes – pretendo explorar essadiferença de significados e valores que são atribuídos aos seus filmes,relacionando o gosto popular pelo melodrama, gênero dominante no cinema deTeixeirinha, com toda uma tradição latino-americana de “cinema de lágrimas” feitopara as massas desde a década de 30.A idéia, portanto, é, em suma, exercer um olhar sociológico sobre a crítica,evitando a armadilha de fazer qualquer julgamento sobre os filmes – nem defendê-los, nem defenestrá-los.Mas para compreender o cinema de Teixeirinha, é preciso,fundamentalmente, conhecer as especificidades de sua trajetória e de suaascensão como ídolo de massas. Iniciamos neste ponto.
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Foto da capa: exibição do filme Ela Tornou-se Freira, em 5/3/2007, no Projeto Teixeirinha MemóriaNacional em Passo Fundo, RS.
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