claro que todos mentimos sobre isso. Perguntam‐nos “Então que tal foi a tua lua‐de‐mel?” e sem sequer pensar na pergunta respondemos “Maravilhosa!”Culturas distintas enchem o seu saco com qualidades distintas. Nas culturascristãs a primeira coisa a ir para dentro do saco é a sexualidade. Uma estudiosada sombra, Marie Louise von Franz, avisa‐nos contudo para o facto de que atéculturas ancestrais, onde impera o shamanismo por exemplo, também possuemas suas qualidades a enfiar no saco. Por exemplo, há culturas que colocam nosaco a individualidade e a criatividade. Nós rotulamos essas culturas de tribais,ou comunidades místicas. Soa bem ao ouvido mas pode significar que osmembros individuais sabem todos exactamente as mesmas coisas e ninguémsabe nada novo. É possível que o saco de todos os seres humanos sejaexactamente igual em termos de tamanho.Passamos a nossa vida, até por volta dos 20 anos, a decidir que partes de nósdevemos enfiar dentro do nosso saco, e depois passamos o resto das nossasvidas a tentar tirá‐las para fora do saco. Muitas vezes ficamos com a sensação deque é impossível abrir o nosso saco.O nosso lado simpático vai tornando‐se mais e mais simpático, na nossa culturaidealística. O homem ocidental pode ser um bom médico, que pensa sempre nobem‐estar dos seus pacientes e possui uma moral maravilhosa. Mas a substânciadentro do saco possui uma personalidade muito própria. E não gosta de serignorada. Esta substância ignorada irá saltar do saco no momento maisinoportuno. Ela sentirá a raiva de ser ignorada.Quando guardamos muito bem uma parte de nós no saco, essa parte iráregressar mais cedo ou mais tarde. E regressa com um aspecto bárbaro. Imagineum jovem que fecha o seu saco aos 20 anos e espera mais 15 ou 20 para o abrirnovamente. O que irá ele encontrar no seu saco? Infelizmente, a sexualidade, oinstinto animal, os impulsos incontrolados, a raiva e a liberdade que lá meteuantes, mas com uma carga negativa assustadora. Não são apenas aspectosprimitivos em termos emocionais, são hostis à pessoa que abra o saco. O homemque abra o seu saco aos 45 anos de idade, ou a mulher, irá sentir medo. Ela iráabrir o saco e ver um monstro. Qualquer pessoa fica assustada ao ver ummonstro.Podemos afirmar que qualquer homem na nossa cultura coloca no seu saco o seulado feminino, a mulher que há nele. Quando este homem começa a abrir o seusaco, por volta dos 35 ou 40 anos, para voltar a entrar em contacto com o seulado feminino, este aspecto pode ser verdadeiramente hostil ao homem. Aomesmo tempo, este homem, poderá experienciar uma enorme hostilidade porparte das mulheres no mundo exterior. A regra é a mesma: o exterior é sempreigual ao interior.Se uma mulher, que necessita de se sentir aceite pela sua feminilidade, esconde oseu aspecto masculino no saco, poderá descobrir, 20 anos mais tarde, que omasculino se tornou hostil a ela mesma. Mais ainda, este masculino pode serdesprovido de sentimentos e brutal nas suas criticas. Encontrar um homemhostil com quem viver irá dar a esta mulher alguém a quem culpar, e aliviar apressão no seu saco, apesar de não resolver o problema dentro do saco.Entretanto, é provável que ela sinta uma rejeição dupla, do homem dentro dela edo homem fora dela. Há muita mágoa nestas situações.
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