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 A verdade da Sombra
Com certeza já reparou que quando a luz do sol incide sobre o corpo humano,este projecta uma sombra, a qual é escura. Quanto mais intensa for a luz do sol,mais escura será a sombra projectada. Da mesma maneira, todos nós temos umaparte da nossa personalidade que se encontra escondida, na penumbra. Quantomais luz possuirmos mais escura será essa parte de nós. E se não prestarmosatenção a esta parte escura de nós ela irá ficar esfomeada, sedenta, enraivecida. Eirá aproveitar um momento de distracção para se mostrar.Pessoalmente passei por uma fase de tristeza enorme. Foi esta tristeza que medespertou. Ouvia uma voz que me dizia que se queria sentir‐me melhor teriaprimeiro que abraçar a minha tristeza. A solução da minha tristeza encontrava‐se na minha escuridão, na minha sombra.A nossa cultura ocidental ensina‐nos a ser bi‐polares. Desde a infância que nos éensinado a criar uma dupla personalidade. Luz e sombra, bom e mau, bonito efeio.A tradição gnóstica diz que nós não inventamos nada, simplesmente noslimitamos a recordar. Acredito que isso é real quando falo da sombra. Vejamoscomo a nossa sombra individual é criada.Quando tínhamos um ou dois anos de idade possuíamos aquilo a que poderemoschamar de uma personalidade de 360º. A nossa energia irradiava de todas aspartes do nosso corpo e da nossa mente. Uma criança a correr é uma bola deenergia viva. Tínhamos em nós uma gigantesca bola de energia. Mas um diaapercebemo‐nos que os nossos pais não gostavam de certas partes da nossa bola.Diziam coisas como “Não podias ficar sossegado?” ou “Não é bonito querermagoar o teu irmão!”Às nossas costas temos um saco invisível e, as partes de nós que os nossos paisnão gostavam, íamos enfiando lá dentro. Isto para conseguirmos o amor deles.Quando chega a idade de ir para a escola o nosso saco já começa a pesarbastante. Depois surgem os professores, a ensinar a guardar mais aspectos dequem somos dentro do saco. “Os meninos bonitos não se zangam!” ou “Quemgrita é feio!”. E assim pegamos na nossa raiva e guardamo‐la no nosso saco.Quando tinha doze anos já possuía um saco com mais de 2 quilómetros decomprimento e algumas toneladas de peso. Depois vamos para o liceu. E aqui jánão são os adultos a pedir‐nos para guardar aspectos de quem somos dentro dosaco. Aqui somos nós, uns aos outros. Apontamos o dedo aos que não são comonós. Queremos ser iguais aos outros. e o saco vai crescendo. Quando chegamosaos vinte anos, de uma gigantesca bola de energia ficamos com uma pequenafatia.Imagine agora um homem de, digamos, 24 anos, com uma pequena fatia deenergia (o resto está no saco) e vamos imaginar que conhece uma mulher.Imaginemos que ambos têm 24 anos, e ela possui uma pequena e elegante fatiade energia também. Unem‐se numa cerimónia, e esta união de duas fatias deenergia é rotulada de casamento. Mesmo os dois juntos não fazem uma sópessoa, tão pouca é a energia disponível. Um casamento, quando o saco ás costasé grande e pesado, significa uma vida de solidão que tem início na lua‐de‐mel. É
 
 claro que todos mentimos sobre isso. Perguntam‐nos “Então que tal foi a tua lua‐de‐mel?” e sem sequer pensar na pergunta respondemos “Maravilhosa!”Culturas distintas enchem o seu saco com qualidades distintas. Nas culturascristãs a primeira coisa a ir para dentro do saco é a sexualidade. Uma estudiosada sombra, Marie Louise von Franz, avisa‐nos contudo para o facto de que atéculturas ancestrais, onde impera o shamanismo por exemplo, também possuemas suas qualidades a enfiar no saco. Por exemplo, há culturas que colocam nosaco a individualidade e a criatividade. Nós rotulamos essas culturas de tribais,ou comunidades místicas. Soa bem ao ouvido mas pode significar que osmembros individuais sabem todos exactamente as mesmas coisas e ninguémsabe nada novo. É possível que o saco de todos os seres humanos sejaexactamente igual em termos de tamanho.Passamos a nossa vida, até por volta dos 20 anos, a decidir que partes de nósdevemos enfiar dentro do nosso saco, e depois passamos o resto das nossasvidas a tentar tirá‐las para fora do saco. Muitas vezes ficamos com a sensação deque é impossível abrir o nosso saco.O nosso lado simpático vai tornando‐se mais e mais simpático, na nossa culturaidealística. O homem ocidental pode ser um bom médico, que pensa sempre nobem‐estar dos seus pacientes e possui uma moral maravilhosa. Mas a substânciadentro do saco possui uma personalidade muito própria. E não gosta de serignorada. Esta substância ignorada irá saltar do saco no momento maisinoportuno. Ela sentirá a raiva de ser ignorada.Quando guardamos muito bem uma parte de nós no saco, essa parte iráregressar mais cedo ou mais tarde. E regressa com um aspecto bárbaro. Imagineum jovem que fecha o seu saco aos 20 anos e espera mais 15 ou 20 para o abrirnovamente. O que irá ele encontrar no seu saco? Infelizmente, a sexualidade, oinstinto animal, os impulsos incontrolados, a raiva e a liberdade que lá meteuantes, mas com uma carga negativa assustadora. Não são apenas aspectosprimitivos em termos emocionais, são hostis à pessoa que abra o saco. O homemque abra o seu saco aos 45 anos de idade, ou a mulher, irá sentir medo. Ela iráabrir o saco e ver um monstro. Qualquer pessoa fica assustada ao ver ummonstro.Podemos afirmar que qualquer homem na nossa cultura coloca no seu saco o seulado feminino, a mulher que há nele. Quando este homem começa a abrir o seusaco, por volta dos 35 ou 40 anos, para voltar a entrar em contacto com o seulado feminino, este aspecto pode ser verdadeiramente hostil ao homem. Aomesmo tempo, este homem, poderá experienciar uma enorme hostilidade porparte das mulheres no mundo exterior. A regra é a mesma: o exterior é sempreigual ao interior.Se uma mulher, que necessita de se sentir aceite pela sua feminilidade, esconde oseu aspecto masculino no saco, poderá descobrir, 20 anos mais tarde, que omasculino se tornou hostil a ela mesma. Mais ainda, este masculino pode serdesprovido de sentimentos e brutal nas suas criticas. Encontrar um homemhostil com quem viver irá dar a esta mulher alguém a quem culpar, e aliviar apressão no seu saco, apesar de não resolver o problema dentro do saco.Entretanto, é provável que ela sinta uma rejeição dupla, do homem dentro dela edo homem fora dela. Há muita mágoa nestas situações.
 
 Cada um dos aspectos da nossa personalidade que não amamos irá tornar‐sehostil a nós próprios. Poderíamos ainda acrescentar que estes aspectos podemafastar‐se para lugares distantes e começar a orquestrar uma revolta secretacontra nós.A raiva que um homem mete no seu saco aos 8 anos de idade, pode aparecer naface da sua esposa aos 40 anos. Depois de 15 ou 20 anos de um casamentoaparentemente feliz, a face da raiva mostra‐se e o homem comete uma loucura.Quantas vezes ouvimos falar do homem que apanha a mulher com um amante nacama? Ou do homem cuja mulher se torna violenta, alcoólica ou deprimida efrígida?A raiva que a mulher esconde no seu saco aos 5 anos de idade pode aparecer naface do seu marido aos 45 anos. E o herói, bom pai, honesto trabalhador,transforma‐se no vilão que saqueou a empresa, ou violou a filha da vizinha.Há algum tempo atrás sentia uma enorme revolta por gente que trabalhava emtelevisão. Não suportava essas pessoas! Uma noite dei por mim, em frente aoespelho, a pensar nessas pessoas. A pergunta que me ocorreu foi “que tipo depessoa é capaz de trabalhar em televisão?” e, vendo‐me ao espelho, sem sequerpensar, respondi: “pessoas honestas que acreditam que podem fazer umadiferença no mundo.”... E foi com assombro que dei por mim a falar de mim, dealgo que sentia estar em mim! Decidi continuar este o processo. Que tipo depessoa é arrogante? Eu sempre odiara a arrogância nas pessoas. A pessoa que sesente insegura. Esta doeu! Quantas vezes me senti inseguro! Que tipo de pessoa écapaz de matar outro ser humano? A pessoa completamente perdida e semesperança. Sim, já tive momentos em que me senti completamente perdido e semesperança. Afinal, todos os aspectos que não suportava nos outros estavam já emmim! E tinha que os resgatar, caso contrário continuaria a atrair outros para memostrar esses aspectos há tanto tempo escondidos. Agora olho para alguémarrogante e penso “sim, este sou eu!”Mas adiante.A projecção é algo maravilhoso. A psicóloga Marie Louise von Franz afirmou“Porque motivo assumimos que a projecção é sempre algo mau? Muitas vezes aprojecção pode ser útil.” Esta afirmação é muito sábia mesmo. O conhecimentodos nossos aspectos sombrios não pode deslocar‐se do subconsciente para amente consciente assim tão rapidamente. Se eu não projectasse, nuncaconseguiria conectar‐me com o mundo exterior.As mulheres queixam‐se que os homens pegam no seu aspecto feminino eprojectam‐no nas mulheres. Mas se o homem não fizesse isto, como poderia elealguma vez sair de casa da mãe? O problema não é a projecção que fazemos, maspor quanto tempo mantemos essa projecção. A projecção sem o contacto pessoal,sem a nossa consciência, é perigosa.Veja‐se um caso emblemático: Marilyn Monroe. Milhões de homens projectarama sua feminilidade nesta mulher. Se milhões de homens fazem isto, e não mudam,o mais provável é que esta mulher morra. As projecções sem o nosso contactopessoal, sem a nossa consciência de que o fazemos, irão danificar a pessoa queprojecta. Podemos ainda adiantar que a Marilyn Monroe chamou a si estasprojecções como parte da sua sede de poder. E os seus distúrbios podem ter

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