Por que repetes, misterioso irmão,O menor movimento de minha mão?Por que na sombra o súbito reflexo?És o outro eu sobre o qual fala o gregoE desde sempre espreitas. Na bruniduraDa água incerta ou do cristal que duraMe buscas e é inútil estar cego.O fato de não te ver e saber-teTe agrega horror, coisa de magia que ousasMultiplicar a cifra dessas coisasQue somos e que abarcam nossa sorte.Quando eu estiver morto, copiarás outroE depois outro, e outro, e outro, e outro...Jorge Luiz Borges, O espelho. Do livro de poesias “O Ouro dos Tigres” (tradução de Josely ViannaBaptista), incluído em “Jorge Luis Borges - ObrasCompletas II”, São Paulo, Editora Globo, 2000,pág. 550.Sobre as cadeiras, dispostas em círculo, em número idêntico aos dosparticipantes, coloque cópias do texto A Nova Flauta ou, no momentooportuno, solicite a leitura do texto no Manual da Oficina Aprender a Aprender.
A NOVA FLAUTA
Um deus pode fazê-lo. Mas como umhomem pode penetrar as cordas da lira?
RANIER MARIA RILKE
Uma nova flauta foi inventada na China. Descobrindo a sutil beleza de suasonoridade, um professor de música japonês levou-a para o seu país,onde dava concertos por toda parte. Uma noite, tocou com umacomunidade de músicos e amantes da música que viviam numa certacidade. No final do concerto, seu nome foi anunciado. Ele pegou a novaflauta e tocou uma peça. Quando terminou, fez-se silêncio na sala por umlongo momento. Então, a voz do homem mais velho da comunidade sefez ouvir do fundo da sala: "Como um deus!"No dia seguinte, quando o mestre se preparava para partir, os músicos oprocuraram e lhe perguntaram quanto tempo um músico habilidosolevaria para aprender a tocar a nova flauta. "Anos", ele respondeu. Eleslhe perguntaram se aceitaria um aluno, ele concordou. Depois que omestre partiu, os homens se reuniram e decidiram enviar-lhe um jovem etalentoso flautista, um rapaz sensível à beleza, dedicado e digno deconfiança. Deram-lhe dinheiro para custear suas despesas e as lições demúsica, e o enviaram à capital, onde o mestre vivia.O aluno chegou e foi aceito pelo professor, que lhe ensinou uma única esimples melodia. No início, recebeu uma instrução sistemática, mas logodominava todos os problemas técnicos. Agora, chegava para a sua auladiária, sentava-se e tocava a sua melodia - e tudo o que o professor lhedizia era: "Falta alguma coisa". O aluno se esforçava o mais que podia,
Leave a Comment