Página3O DESPERTAR DA PORCA EDIÇÃO 1 -DEZEMBRO 2006
O despertar dos livros
Dois Autores, Dois TítulosCarolly Erikson Gonçalo M. Tavares
ODiário Secreto de Jeru-salémMaria Antonieta
Na última quinzena do mês de Agosto entretive-me a ler um romance histórico, emforma diarística, cuja personagem protagonista, Maria Antonieta, Rainha de França,me impressionou como esboço de uma construção humana. Qualquer criança sonhou,nesse tempo de brincar, ser rei ou rainha como esta o faz logo nas primeiras páginasdo seu diário. O auto-retrato traçado por esta mulher, narradora da sua vida na épocaameaçadora da Revolução Francesa, completa-se num amplo quadro cujas persona-gens históricas (seu marido, o rei Luís XVI de Bourbon; seus filhos Luís José, Luís Car-los e Sofia Beatriz; Robespierre; etc.) e ficcionais (o seu primeiro amor, Eric; o seueterno amante, Axel ou as criadas de quarto Sofia, a confidente, e Amélia, a inimiga) vão interferindo, capítulo a capítulo, na reconstrução da imagem canónica de “Cabra Austríaca” que o povo francês paulatinamente lhe ditou.Maria Antonieta de Áustria, emergindo da sua relativização histórica, confessa osseus mais íntimos desejos, furores, receios e terrores através da escrita corajosa depáginas, por diversas vezes violadas, de um diário que a acompanha até ao dia da suaexecução na guilhotina, 16 de Outubro de 1793. Chocaram-me as realistas descriçõesda violência desta revolução. Uma revolução de que apenas lembramos a insígnia:liberdade, igualdade e fraternidade. Recuei a esse passado conturbado, ainda queapenas textualizado, não esquecendo a noção de Linda Hutcheon,
“ só podemos ima- ginar o passado, nunca experimentá-lo”
, e vivi esta revolução como leitora aristocrata.Frequentei uma corte luxuosa que acabou por se desmoronar num massacre de pala- vras ensanguentadas e consequentemente impressionante. Desta vez fiquei do ladodos absolutistas condenados à morte! A Literatura tornou-o mais do que possível: uminevitável posicionamento.Em suma, em Paris fui feliz com este livro aliciante, terminando-o sentada conforta- velmente num T.G.V., para escapar à guilhotina, ao invés da protagonista, passados213 anos e fugir quer dos factos rigorosamente históricos quer da diegese em plenaintriga.Mais recentemente reli
Jerusalém,
magnífico romance do panorama literário portu-guês actual, para o experimentar, desta vez, sem a pressa de chegar ao fim. Reconhe-ci, mais uma vez, por detrás da mesma minimalista capa negra, um narrador comexplícitas marcas surrealistas e dadaístas, que sugere, de igual modo, um discurso ao jeito de Kafka, cultivando uma linguagem directa, por vezes cortante, na constantefrieza dialogal, nos ilogismos narrativos ou na temática da morte, do tangível, doabsurdo e da loucura. Logo nas primeiras páginas passa a ideia da aflição humanaperante a decisão do momento seguinte. A morte sempre entre parênteses. Leia-se:
“Ernst Spengler estava sozinho no seu sótão, já com a janela aberta, preparado para seatirar quando, subitamente, o telefone tocou. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete,oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze, Ernest atendeu.”
Uma personagem louca,Mylia; um médico obcecado pelo estudo da estabilidade histórica do horror, que pas-sa o tempo a recolher documentos acerca dos campos de concentração; Hanna, umaprostituta ou Hinnerk, o homem que vive permanentemente em estado de medo, temi-do pelas crianças da vizinhança.Ler este livro torna-se uma experiência brutal, que chega quase a atacar o leitorcomo uma dor física, lançando-o num vazio que o leva a tocar no absurdo da vida. Nãoé verdade, Sr. Leitor, que “
De poeta e de louco todos temos um pouco
”
?
Patrícia FontinhaProfessora
“Lei” de Murphy –Uma “Lei” que não o é!...
A ideia de que “
se algo de mal pode acontecer, então acontece”
corresponde a umaconvicção que facilmente se instala no pensamento da maioria das pessoas. Por exem-plo, nós achamos que se saímos de casa com guarda-chuva, o mais certo é que nãochova, mas, se o esquecermos,então choverá com abundância;a fila em que nos posicionamosno supermercado andará maislentamente do que as outras;quanto mais pressa tivermos,mais semáforos encontramos no vermelho, etc. A afirmação de uma espéciede “fatalismo” em relação aacontecimentos indesejáveis éhabitualmente conhecida por“Lei de Murphy” e atribui-se oseu enunciado a Edward A.Murphy, um capitão engenheiroda Força Aérea dos EUA. A frase “Se algo de erradopode ser feito, então ele fá-lo-á” terá sido proferida por ele, em 1949, referindo-se aum técnico que errara na execução de uma tarefa que lhe fora destinada.Este enunciado tem-se prestado a variadas versões, muitas delas, até, com carácterhumorístico.Importa no entanto sublinhar que não se trata, de facto, de uma lei matemática, comoé fácil de perceber após o estudo das Leis Fundamentais do Cálculo de Probabilida-des.O conhecimento científico e um bom espírito crítico são a melhor defesa para as“armadilhas” criadas pelo senso comum.
Selecção de
in Infinito 12A –Parte 1; p.19; Jorge, A.; Alves, C.; Fonseca, G.; Barbedo, J.; Areal Editores; Porto; 2005
Ana BarreiraProfessora
O despertar da escrita
Os alunos do 10º ano experimentaramem oficina de escrita, no âmbito da dis-ciplina de Língua Portuguesa, variados
Exercícios de Estilo
retirados do livro doautor francês surrealista Raymond Que-neau. Tiveram como ponto de partida oseguinte texto:“
Era órfã de pai e mãe, e Orso era o seu tutor. Quando ela era criança o tutor prometeu-a em casamento a um seu parente chamado Arrigo. Mas quandoVanina chegou aos dezoito anos não quis casar com Arrigo porque o achava velho, feio e maçador. Então Orso fechou-a emcasa e nunca mais a deixou sair senãoem sua companhia, ao domingo para ir à missa.”
Sophia de Mello Breyner Andresen,
O Cavaleiro da Dinamarca
Variações do textooriginal
Estilo
Hesitante
Era órfã de mãe, se bem me lembro…ou de pai? Mas que confusão!... já nemsei o que é verdade! Isto tudo leva-me aconcluir que era órfã de ambos, ouestarei enganada?! Não… acho mesmoque é órfã de ambos…e o seu tutor eraOrso ou Urso?! Bem, se bem me lem-bro era Orso…Quando ela era criança ou seria ado-lescente? Não… era criança… o tutorprometeu-a em quê? Em casamento ouseria baptizado ou crisma? Bem, achoque era mesmo em casamento! Comquem? Nem sei, já estou outra vez hesi-tante. Ah! Com um vizinho, com umamigo, ou com um inimigo?! Mas quegrande confusão! Afinal era com umparente! E qual seria o nome? Seria Arrigo ou Abrigo? Não, definitivamenteera Arrigo. Quando Vanina chegou aosdezoito anos ou seriam vinte? Não, aostrinta. Estarei enganada? Que maçada! Já não entendo nada! E não é que eramesmo aos dezoito! Lembrei-me mes-mo agora. Ela dizia que o seu noivo eraseu marido ou não se quis casar comele? Afinal ela não se quis casar comele, porque ele era novo, ou velho?Bonito ou feio? Maçador, ou seria inte-ressante? Como é que era? Ah! Já melembro! Afinal ele era velho, feio emaçador… por isso ela não quis casar.Então Orso, que não era Urso fechou-a em casa ou deixou-a na rua? Não!!! Acho que foi numa gaiola! Bem, masque é isto? Lá surgem as minhas hesita-ções a estragar tudo! Foi mesmo emcasa, prendeu-a lá e não a deixava saira não ser na sua companhia, ao domin-go, para ir à missa, esperem lá, ou àtourada?? Pelo que me lembro eramesmo à missa.Fim, ou será o princípio de uma histo-ria sem fim?!...
Mara nº 11Sandra nº 17Vânia nº 2410º A
Estilo
Negatividades
Não era órfã de pai, nem de mãe,mas sim de ambos, o seu tutor não eraUlisses, mas sim Orso.Quando ela ainda não era jovem, ape-nas uma criança, o seu tutor prometeu-a em casamento ( o seu tio jamais a pro-meteria ) não a um vizinho, nem a umdesconhecido, mas sim a um parenteque nunca se chamou Tristão, mas Arri-go.Definitivamente Vanina não chegariaaos 100 anos, muito menos aos 150, masquando tinha 18 não quis casar com Arrigo, porque nunca o achou novo,bonito e divertido, pelo contrário elaachava-o velho, feio e maçador. JamaisOrso a fecharia no castelo abandonado,mas fechou-a em sua casa e nunca maisa deixou sair, nem com um amigo, nemcom um parente, só em sua companhia.Nunca saía aos dias de semana, apenasao domingo e nunca para passear, sópara ir à missa.
Daniela, nº 6 Yolanda, nº1310º A
Estilo
Arco-Íris
Era órfã negra de mãe chinesa e paiindiano, e Orso de faces rosadas era oseu avermelhado tutor. Quando ela erauma pálida criança, o vermelhote tutorprometeu-a em escuro casamento a umseu ferrugento parente chamado Arri-go, o Ferrugem. Mas quando a brilhan-te Vanina chegou aos dezoito clarosanos não quis casar com o alaranjado Arrigo, porque o achava um velhobolorento, feio, descolorado e maçadorcor de maçã. Então o escuro Orsofechou-a numa casa acinzentada e nun-ca mais a deixou sair da escuridãosenão em azul oceânico, na sua compa-nhia nevada, para ir, ao domingo, àdourada missa.
Andreia, nº 3Conceição, nº 12Sara, nº 1810ºB
Estilo
Interrogatório
-De quem era ela órfã?-Era órfã de pai e mãe.-Quem era o seu tutor?-O seu tutor era Orso.-O que lhe prometera o seu tutor quan-do era criança?-Prometera-lhe um casamento com umparente seu.-Como se chamava esse parente?-Esse parente chamava-se Arrigo.-Quantos anos tinha Vanina?-Vanina tinha 18 anos.-Ela queria casar com Arrigo?-Não.-Porquê?-Porque o achava velho, feio e maça-dor.-E Orso, como reagiu?-Orso fechou-a no palácio durante todoo dia.-E o que é que ela podia fazer?-Nada senão ir em sua companhia, aodomingo, à missa.
Andreia Carneiro, nº 2Caty Marcolino, nº 510ºB