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Rev. Katál. Florianópolis v. 11 n. 2 p. 225-236 jul./dez. 2008
uma categoria descritivo-qualificadora; ‘violência’, éum substantivo que tem uma função qualificadora eque passa nessa expressão por uma operação lin-güística deixando de ser uma qualificação, para tor-nar-se – no mesmo movimento – uma realidade subs-tantiva.Tal operação discursiva instaura para o pen-samento uma nova realidade que passa a ser descri-ta e qualificada como ‘violência conjugal’.Tal pro-cesso pode ser estendido a um vasto conjunto deexpressões em curso que operam justamente asubstantivação da ‘violência’.Evidentemente, a criação de tais categorias é fun-damental no jogo das estratégias políticas, e não énosso objetivo aqui questionar estratégias políticas,mas tão somente contribuir para a sua reflexão críti-ca. No caso da ‘violência conjugal’ ou ‘violência degênero’, sem discutir aqui as diferenças entre elas
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, parece que ambas operam segundo o mesmo princí- pio.A dimensão política neste caso é explícita e de-sejada pelos movimentos feministas, estando na baseda própria afirmação do caráter político das relaçõesde gênero. Correndo o risco de simplificar excessi-vamente a questão, para bem definir o aspecto aquidelineado, perguntaria se a centralidade da noção de‘violência conjugal’ não se teria tornado uma espéciede operador simbólico de catálise das formasassimétricas, hierárquicas e excludentes da desigual-dade de gênero?Afinal, ao longo dos anos 1980, a‘violência conjugal’ tornou-se uma espécie de íconedas lutas feministas. De fato, “[...] os movimentossociais que lutam contra a impunidade nos casos de‘violência de gênero’ são, ao mesmo tempo, movi-mentos locais e globais, cuja dimensão transversalrepresenta um desafio maior e coloca a necessidadede pesquisas comparativas entre ‘soluções locais’”(
RIFIOTIS
, 2004, p. 85). Enfatizo aqui, tratar-se deuma categoria internacionalizada (
SIMIÃO
, 2005), quetomou formas locais, é verdade, mas que geralmente – apesar das especificidades históricas e sociais –,caracteriza-se fundamentalmente por apelar a servi-ços de polícia e de um modo geral ao sistema judici-ário (
RIFIOTIS
, 2003, 2004). Nos últimos anos, outrasestratégias ganharam mais espaço, como referidomais adiante, sem que a categoria ‘violência conju-gal’ deixasse de ser um importante operador simbóli-co para garantir e ampliar o acesso ao sistema de justiça e reduzir a impunidade nos casos de ‘violên-cia contra as mulheres’. A prevalência de ‘soluçõeslocais’ articuladas a mecanismos jurídicos contribuiu para ampliação das áreas de litígio alcançadas pelosistema judiciário e, ao mesmo tempo, para a desva-lorização de outras formas de resolução de conflitos.Tal processo se estende para além deste campo es- pecífico e toma uma forma geral que chamamos de‘judiciarização das relações sociais’ (
RIFIOTIS
, 2003,2004, 2006a, 2007a, 2007b)
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. Em geral, ela se ex- pressa pela criminalização secundária, ou seja, semum tipo penal específico
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, e são desenvolvidas políti-cas específicas para os serviços de polícia, ou adap-tações de mecanismos jurídicos. No Brasil, foi típicadeste processo a criação, a partir de 1985, de umaorganização da polícia judiciária chamada DelegaciaEspecial de Proteção à Mulher, ou simplesmenteDelegacia da Mulher (DM).Estamos frente a uma expressão ‘local’ de umamplo e diversificado quadro de experiências sociaiscom caráter judiciarizante
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.Assim, a Delegacia daMulher (DM) deve ser pensada como estratégia de‘empoderamento’, ou seja, de facilitar mecanismosque aumentam o acesso a recursos e a oportunida-des para a ação pró-ativa de pessoas e gruposminoritários, seja pelo ganho de poder, legitimidade,autonomia, capacidade de ação pessoal e coletiva(
RAPPAPPORT
, 1987 a
pud
DAMANT
;
BELANGER
;
PAQUET
, 2000, p. 79-80). Foi exatamente sob este prisma que realizei uma pesquisa etnográfica sobreas práticas polícias no quotidiano da DM através daqual pude constatar que, via de regra, o tratamentodado às queixas não segue a tramitação típica do in-quérito policial, requerida por uma instituição de polí-cia judiciária como é a DM. De fato, como observa-do no trabalho de campo, as policiais que atuam nasDelegacias da Mulher entendem que estão ‘enxu-gando gelo’, dadas a repetição de casos e a falta deencaminhamento processual. Enquanto que as mu-lheres que utilizam os serviços não parecem enten-der positivamente a instauração do inquérito policial,seja porque elas mesmas em geral retiram a queixa,seja porque não desejam tal procedimento. Na reali-dade, pelo que se pôde observar, a instituição cum- pre um importante papel de acolha e processamento,servindo de apoio para as mulheres vitimadas. As-sim, pode-se afirmar que os serviços de polícia sãoressignificados. Fundamentalmente, observei um usoda queixa (Boletim de Ocorrência) como mecanis-mo de ameaça e renegociação de pactos conjugais;e da intimação, por sua vez, apropriada como meca-nismo para criar o ‘diálogo’ e o reconhecimento da‘culpa’, dar o ‘susto’ e colocar o companheiro no‘bom caminho’. Em síntese, a DM seria um espaçode recepção, acolha de queixas, de exercício de con-trovérsia apoiado na figura da autoridade policial(
RIFIOTIS
, 2003, 2004). Tais resultados são referen-dados por outros trabalhos desenvolvidos nos últimosanos sobre a Delegacia da Mulher em diferentescontextos no Brasil (
MUNIZ
, 1986;
SOARES
, 1999;
RIFIOTIS
, 2000;
RIFIOTIS
;
SANTOS
, 2002, 2005;
DEBERT
, 2002).Com a criação da Lei 9099 em 1995 (
BRASIL
, 2008),as causas relativas a penas menores de dois anos fo-ram deslocadas para os Juizados Especiais Criminais(JECRIM).A partir dessa lei, grande parte das causasrecebidas na DM passa a ter um encaminhamentoespecífico: um acordo no tribunal especial, visando
Judiciarização das relações sociais e estratégias de reconhecimento: repensando a ‘violência conjugal’ e a ...
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