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 Por José Ildo Swartele de Mello
1. Cuidado com fogo estranho no altar
1.1. Dualismo
A história da humanidade registra uma infinidade de guerras e na própria Bíblia temos o registro demuitas delas. Mas existe um tipo importante e especial de guerra que muitos desconhecem. Trata-seda guerra de natureza espiritual. O Apóstolo Paulo ensina que a nossa luta não é contra a carne esangue, mas é, de fato, contra os espíritos malignos que atuam numa esfera espiritual (Ef 6.12). ABíblia não apenas nos fala a respeito da existência desta guerra espiritual, mas também nos ensinacomo combater. Mas existem aqueles que não se atém ao puro ensino das Escrituras Sagradas e sedeixam levar por toda sorte de ventos de doutrinas pagãs. Quando se pensa em uma guerra do bemcontra o mal, dos anjos contra os demônios, do céu contra o inferno, de Cristo contra o anticristo eda Igreja contra as trevas, não podemos cair na tentação do dualismo, pois, como bons cristãos,devemos crer e confessar a existência de "um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e portodos e em todos" (Ef 4:6). Tal verdade por si só já bastaria para nos livrar de uma série de práticase rituais místicos que nada tem a ver com o cristianismo e que revelam muito mais o assombrodiante do maligno do que a paz e a alegria que são peculiares aqueles que confiam e esperam emDeus.Não devemos, portanto, em nossa guerra contra o mal, dar lugar ao medo e nem ficar paranóicos efissurados com os demônios e suas artimanhas, pois devemos saber em quem é que temos crido eestarmos bem certos e seguros de que Ele reina soberano sobre tudo (2 Tm 1.12; Jó 19.25). Aposição do crente é muito privilegiada, pois nesta guerra, ele é mais do que vencedor em CristoJesus (Rm 8.37), e já está assentado juntamente com Jesus acima de todo principado e potestade nasregiões celestiais (Ef. 2.6). Temos uma aliança com o Todo Poderoso Deus, aliança esta que foiselada com o sangue do próprio Senhor Jesus Cristo! "O Senhor é a minha luz e a minha salvação!A quem temerei (Sl 27)?!" E "se Deus é por nós, quem será contra nós?!" (Rm 8.31).O diabo tem uma certa liberdade de ação e influência sobre os homens, gerando um sistemacorrompido de valores. É neste sentido que a Bíblia afirma que Satanás é o Deus deste Mundo, que jaz no maligno (Mt 4:8, 2 Co 4:4; 1 Jo 5:19; cf. Jo 12:31; 14:30; Jo1:5; 12:46). Mas isto não querdizer que o Diabo seja Senhor da Terra, pois sabemos que, de fato, "do Senhor é a terra e a suaplenitude; o mundo e aqueles que nele habitam" (Sl 24:1e ver também 1 Co 10.26) e concordamoscom Jesus que declarou que todo o poder lhe foi dado sobre os céus e a terra (Mt 28.18). Portanto, odiabo não possui autonomia para agir como bem entende. Por exemplo, quando ele quis provar a Jó,precisou pedir o consentimento de Deus e foi o próprio Deus quem estabeleceu os limites destaprovação (Jó 1.12). Satanás também precisou solicitar autorização para poder peneirar a Pedro (Lc22.31). E, no episódio do espinho da carne de Paulo registrado em 2 Co 12, vemos como Deus, emsua soberania, pode se valer até mesmo dos demônios e das enfermidades visando um fimproveitoso e incomparavelmente superior a qualquer aflição. Deus se vale do diabo e do mundopara nos exercitar, experimentar, aperfeiçoar com vistas a extrair o melhor de nós para sua glória.Pense no livro de Jó.O livro de Jó nos ensina que o que está em jogo na guerra espiritual não é quem é maior e maispoderoso, se Deus ou o Diabo, pois está fora de questão o poder e a soberania de Deus sobre tudo e
 
todos, mas o que o diabo questiona é se Jó ama realmente a Deus sobre todas as coisas. O diabolevantas suspeitas sobre a integridade do amor de Jó por Deus. Ele insinua que ninguém seria capazde amar a Deus sem segundas intenções. É interessante notar que, mesmo diante de tantastribulações, Jó jamais se reporta ao diabo, mas vence a guerra espiritual falando com Deus econtando com a ajuda divina para permanecer ao lado de Deus mesmo diante da mais forteprovação. Penso que esta foi também a guerra espiritual vivida por Pedro quando o próprio Senhoro chamou e disse: "Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo. Eu,porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece osteus irmãos" (Lc. 22:31, 32). Note que quando Satanás pede para peneirar a Pedro, Jesus nãoresponde como muitos costumam fazer, dizendo: "tá amarrado". Pelo contrário, Jesus disse apenasque iria orar por ele para que sua fé não desfalecesse, pois Jesus sabia que era necessário que Pedropassasse pela peneira visando seu crescimento e maturidade espiritual, para que, depois de tudo,Pedro pudesse confessar seu amor a Jesus de todo o coração.Portanto, a batalha espiritual é uma questão que tem a ver com o grande mandamento de amar aDeus sobre todas as coisas (Mc 12.30) e não com a questão sobre quem é mais poderoso, pois odiabo não discute o poderio de Deus, mas lança dúvidas a respeito da integridade do amor doshomens por Deus. Mas quando falamos da soberania de Deus e de todo o seu poder, logo surge umaimportante questão: "se Deus é todo poderoso, por que é que permite o mal? Por que é que Ele nãopõe fim a toda espécie de guerra?" Pois, o Todo Poderoso poderia facilmente por fim a todainjustiça e sofrimento humano. Ele poderia até mesmo ter evitado o surgimento do mal no Mundo.Deus, com seu poder, poderia ter criado seres programados para obedecer à sua vontade; sim,poderia ter escolhido criar seres autômatos, algo assim como os robôs, que não tem liberdade deescolha. Mas, embora, um mundo de autômatos pudesse funcionar muito bem, sem guerras, seminjustiças e sem maldade, no final das contas, seria também um tanto sem graça, pois as própriasexpressões de amor, devoção e serviço não seriam livres e espontâneas, também teriam de serprogramadas, o que resultaria em algo artificial, algo sem graça e sem significado real. Ninguém,em sã consciência, se sentiria muito tocado em receber uma declaração de amor de um ser que foiprogramado para isto e que o pode dizer outra coisa a o ser aquilo que esna suaprogramação.Deus quis que seus filhos fossem livres, mesmo sabendo dos riscos derivados da liberdade humana.Ninguém pode ser livre apenas para dizer sim. Alguém que é livre pode também dizer não, pode serebelar e pode optar pelo mal. A história da humanidade revela as conseqüências do mau uso daliberdade, como o surgimento do pecado, egoísmo, inveja, ódio, crimes, doenças, injustiças,guerras, fomes, etc. Um alto preço tem sido pago para que possamos ter no mundo relacionamentosverdadeiramente significativos. Neste mundo temos muitas opções, somos livres para escolher,portanto, quando amamos a Deus e respondemos positivamente ao seu chamado, isto é cheio designificado. Este relacionamento entre Deus e o homem é cheio de afeto. É algo tremendo! Omesmo se pode dizer do relacionamento de amor e amizade entre os seres humanos. Alguém, certavez disse: "Amo a liberdade, por isso deixo livres todas as coisas que tenho. Se elas permaneceremcomigo será porque as conquistei, se partirem será porque, de fato, nunca as possuí". Mesmo tendocriado seres livres, Deus poderia ter se imposto aos homens pela força do seu poder. Mas não quisque fosse assim. Ele disse: “Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz oSENHOR” (Zacarias 4.6). Deus, como Pai, não quis se impor pela força, mas decidiu cativar peloamor! Manifestou-se ao mundo na pessoa de Jesus, que sendo o próprio Deus, esvaziou-se de suaglória para identificar-se com nossa fraqueza, revelou-se como servo sofredor, que carrega a suacruz e dá a vida pelos seus amados. Quando se apresentou como Rei em sua entrada em Jerusalémno Domingo de Ramos, não entrou montado num cavalo portentoso e cheio de pompa e nem estavaacompanhado de um forte e ameaçador exército, mas escolheu entrar de maneira humilde e mansamontado num jumentinho. O próprio estilo de liderança foi marcado pela cruz, pelo burrinho, pelaágua e a toalha, com que lavou os pés dos discípulos. Sendo Senhor, foi humilde e assumiu a
 
condição de servo. Não foi dominador e nem tirano, mas procurou cativar pelo exemplo. Nãoconstrangeu os seguidores pela força, pois seus seguidores sempre foram livres para escolher e atémesmo desistir. Não quis se impor pela força, antes escolheu o caminho da graça e do amor. Nacruz, Deus revelou seu grande amor ao mundo e atraiu muitos a si.Muitos crentes estão enchendo tanto a bola do diabo que acabam ficando com medo dele,esquecendo-se do ensino de Cristo: "não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma;temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo" (Mt 10.28).Devemos temer somente a Deus, sabendo que "dura coisa é cair nas mãos do Deus vivo" (Hb10.31). Os próprios crentes estão perdendo o devido temor a Deus. Tratam a Bíblia como um livroqualquer e vão à igreja como quem vai a uma reunião qualquer, sem expectativa de que Deus iráfalar com eles e sem estarem prontos para obedecerem a voz do Espírito de Cristo. Não estãoverdadeiramente conscientes de estarem na presença do Deus Vivo, daquele que é o único Senhordo Universo e que, por esta razão, detém em suas mãos todo o poder nos céus e na terra (Mt 28.18).É interessante notar que há poucas referências ao diabo no Antigo Testamento. Era de se esperarmuitas menções a ele no livro de Lamentações, por exemplo, pois o livro foi escrito após acalamitosa destruição do templo e da cidade de Jerusalém pelo exército de Nabucodonosor em 586a.C. No entanto, Jeremias não atribui ao diabo nenhuma destas atrocidades, mas, pelo contrário, eledeixa claro que elas vieram como juízo de Deus sobre o pecado do povo. Observe o capítulo 3, ondelemos: "Eu sou alguém que provou a miséria sob a vara da sua ira... Bom é para o homem suportaro jugo na sua mocidade. Que se assente ele, sozinho, e fique calado, porquanto Deus o pôs sobreele. Ponha a sua boca no pó; talvez ainda haja esperança. Dê a sua face ao que o fere; farte-se deafronta. Pois o Senhor não rejeitará para sempre. Embora entristeça a alguém, contudo terácompaixão segundo a grandeza da sua misericórdia. Porque não aflige nem entristece de bom gradoos filhos dos homens... Quem é aquele que manda, e assim acontece, sem que o Senhor o tenhaordenado? Não sai da boca do Altíssimo tanto o mal como o bem? Por que se queixaria o homemvivente, o varão por causa do castigo dos seus pecados? Esquadrinhemos os nossos caminhos,provemo-los, e voltemos para o Senhor" (Lm 3.1, 26-33, 37-40). Ainda neste sentido, é curiosotambém notar dois registros paralelos do mesmo fato, um em 2 Sm 24 e o outro em 1 Cr 21. Naprimeira descrição, lemos que foi Deus quem incitou Davi a levantar o censo. Na segunda, lemosque foi Satanás. Lembrando que Crônicas foi escrito bem depois do livro de Samuel, o que podeajudar a explicar o porquê da mudança, pois, entre os hebreus, o conceito de Satanás foi sendoformado com o tempo através de uma revelação progressiva, sendo que, a princípio, o que bastavapara eles era saber que Deus era soberano. Jó também diz que Deus é quem dá e quem tira (1.21),quem dá o bem e também o mal (2.10), e o v. 11 diz que "em tudo isto Jó não ofendeu a Deus compalavras". Em Lm 3, como vimos acima Jeremias afirma o mesmo. E, em 2 Cr 7.13, é o próprioDeus quem diz: "Quando eu fechar o céu de modo que não haja chuva, ou quando eu ordenar aosgafanhotos que consumam a terra, ou quando eu mandar a peste contra o meu povo". Veja que aquiquem manda a praga é Deus. Aí não dá para "amarrar" ou "declarar" nada. Aí o caminho para alibertação dessa calamidade é a humilhação de um coração verdadeiramente arrependido quesuplica por misericórdia diante de Deus, como vemos no versículo seguinte: "Se o meu povo, que sechama pelo meu nome, se humilhar e orar e se arrepender dos seus maus caminhos, então, euouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra" (2Cr 7.14).A Bíblia está repleta de registros dos juízos de Deus sobre a terra, povos, famílias, indivíduos e atémesmo sobre os crentes, pois o juízo começa pela casa de Deus (1Pe 4.17). Tais juízos incluempragas, enfermidades, destruição e morte. E realmente, não dá para anular tais coisas com frases dotipo "tá amarrado" ou "eu rejeito", mas é somente através do arrependimento e da contrição decoração num retorno para Deus (2 Cr 7.14). Notar aqui que a oração de arrependimento é coletiva enão individual: "Se o meu povo...". O que não significa dizer que não tenha nada a ver com oindivíduo, mas que Deus está tratando com o povo e não apenas com indivíduos. Vivemos numasociedade muito individualista que tende a se esquecer de que estamos enraizados na sociedade e de
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