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Eugênio Lara - Da Terminologia à Atualização

Eugênio Lara - Da Terminologia à Atualização

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Published by Roger Victor Souza
Artigo de Eugênio Lara sobre a atualização da terminologia espírita
Artigo de Eugênio Lara sobre a atualização da terminologia espírita

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(Jornal Abertura - Maio de 2003)
Da Terminologia à Atualização
Eugênio Lara*
 Quando Allan Kardec estruturou o Espiritismo, dando-lhe uma feição de ciência filosófica, foiobrigado a criar uma série de palavras para que os novos conceitos fossem assimilados de formaadequada, sem que houvesse confusão com as teorias do espiritualismo em geral. A própria palavraEspiritismo foi criada por ele a fim de diferenciá-lo do Spiritualism, um movimento religiososurgido nos Estados Unidos e disseminado em alguns países da Europa, de características religiosas,onde a mediunidade, ou melhor, o mediunismo desempenhava importante papel.Toda ciência que se preze possui a sua terminologia. Aliás, trata-se de um dos vários critériosepistemológicos para que determinada forma de conhecimento possa ser considerada uma ciência.Se por conta deste e outros fatores, o Espiritismo é ou não é ciência, não cabe aqui discutir. Oobjetivo deste artigo é bem outro.As ciências médicas possuem um corpo de termos, de palavras com acepção bem específica, a fimde que os médicos não se confundam nos diagnósticos, nas análises anatômicas, enfim, no exercícioda medicina. Há um consenso terminológico, aprovado em congressos mundiais, com o objetivo deordenar o uso de palavras específicas nos mais diversos idiomas. Os médicos agem como umaverdadeira corporação e não permitem que qualquer gaiato ou novidadeiro venha a utilizar termosque não se enquadrem dentro dos critérios aprovados nos congressos médicos.Isso demonstra não somente espírito de corpo, mas sobretudo seriedade, critério científico,metodológico, senão vira bagunça. O que deveria ser uma ciência acaba virando um mercado persa,a "casa de Mãe Joana", uma feira livre, onde qualquer um dá o seu palpite e tenta enfiar pela goelado freguês idéias e conceitos nem sempre condizentes com o consenso universal, ao menos aqueleaprovado em congressos sérios e altamente qualificados.O mesmo critério usado pela Medicina e outras ciências deveria ser utilizado no Espiritismo. Nãoque o fundador não tenha previsto a realização de congressos e projetado uma forma de gestãoadministrativa para a organização e divulgação do Espiritismo. Isso ele o fez no
Projeto 1868
,publicado na
 Revista Espírita
e em
Obras Póstumas
. No entanto, sempre foi ignorado.Os primeiros congressos internacionais realizados no final do século retrasado e início do séculopassado chegaram perto do que Allan Kardec imaginou. Todavia, em função da má orientação domovimento espírita, logo após o desencarne da esposa de Kardec, Amélie Boudet, os espíritastiveram de disputar o poder com segmentos do espiritualismo estranhos ao Espiritismo, como osadeptos da Teosofia, do Esoterismo, da Rosacruz. Não fosse a atuação destacada de Léon Denis, jásenil, em um desses congressos, o Espiritismo se dispersaria em meio às correntes espiritualistasque disputavam com ele uma hegemonia absurda, já que cada uma dessas doutrinas nada em raiaprópria e atua em segmentos diferenciados do conhecimento espiritualista.Após a II Guerra Mundial o movimento espírita praticamente desapareceu da Europa e tornou-seuma potência em países da América Latina, notadamente no Brasil. Por aqui o processo dedesenvolvimento do pensamento espírita desandou, por fatores históricos, antropológicos esociológicos, mas sobretudo, pela ignorância em relação aos fundamentos do Espiritismo. Só parase ter uma idéia disso, somente a partir dos anos 80 é que a Revista Espírita se popularizou com olançamento de uma edição popular, sem ser encadernada. E mesmo assim, não é todo mundo quetem recursos para adquirir doze volumes de uma só vez. Cabe lembrar que a Federação EspíritaBrasileira nunca lançou essa obra fundamental do fundador do Espiritismo por considerá-ladispensável e sem importância, sonegando dos espíritas brasileiros essa informação básica para oentendimento doutrinário.
 
E aí foram surgindo as novidades. Enumeraremos três ocorrências que foram incorporadas ao dia-a-dia do movimento espírita sem que houvesse um questionamento mais aprofundado, sem quehouvesse um consenso resultante da realização de congressos, seminários, colóquios ou qualqueroutra forma de reunião que envolvesse os espíritas brasileiros e estrangeiros numa assembléia, emum processo de discussão democrática. Nada disso ocorreu e o prejuízo para o progresso dopensamento espírita foi enorme, incalculável, pernicioso
Ciência-Filosofia-Religião...
A Federação Espírita Brasileira veio com essa novidade, Emmanuel em
O Consolado
r ajudou apopularizá-la e intelectuais espíritas influentes como Carlos Imbassahy e J. Herculano Piresadotaram a idéia, já corrente entre os espíritas. Durante muito tempo não se discutia isso. Algunspensadores espíritas como Afonso Angeli Torteroli, Eusínio Lavigne, o Movimento UniversitárioEspírita nos anos 60, dentre outros, assumiram uma concepção mais kardecista, bem distante dofalso tríplice aspecto, que chegou inclusive a ser nome de uma chapa da situação, a fim de se oporaos chamados não-religiosos, nas eleições da União das Sociedades Espíritas do Estado de SãoPaulo (USE), em 1986.A verdade límpida e cristalina é que Allan Kardec jamais afirmou que o Espiritismo é ciência,filosofia e religião. Esse tal do tríplice aspecto é uma invencionice, um Cavalo de Tróia, que trazembutida a idéia de culto e o vírus nocivo do religiosismo. O uso da palavra religião para definir oEspiritismo foi veementemente rechaçada por Kardec em passagens cruciais de sua obra (em
O queé o Espiritismo
e na
 Revista Espírita
).A partir dos anos 80, com o trabalho de esclarecimento sistemático do escritor Krishnamurti deCarvalho Dias (1930-2001), a questão veio à tona. O movimento de espiritização, sob a liderança deJaci Regis, encampou a idéia, dando origem à chamada questão religiosa, que persiste até hoje. Foiaí que muitos integrantes do movimento espírita perceberam que Kardec nunca havia chamado oEspiritismo de religião. E o tal de tríplice aspecto foi o que se poderia chamar de uma camisa deforça intelectual."Doutrina filosófica e moral", apenas isso, foi a definição de Kardec no
 Discurso de Abertura
, porocasião da comemoração do Dia de Finados (
 Revista Espírita
- outubro 1868). É mais do quesuficiente, não causa dúvidas, não compromete e nem oferece perigo de qualquer tipo dedesentendimento doutrinário
O Passe
Muitos círculos de magnetismo, após o advento do Espiritismo, transformaram-se em sociedadesespíritas. Allan Kardec era um estudioso do magnetismo, adepto do vitalismo, desde a juventude.Todavia, apesar disso, não há registros históricos de que alguma instituição espírita do séculoretrasado tenha incorporado a prática do chamado passe. Não há, na obra de Kardec, nenhumamenção a esse respeito.A cultura do passe se incorporou de tal maneira ao Espiritismo que um centro espírita que nãoaplica passe é visto com preconceito pelos dirigentes espíritas. Há quem diga que um centro quenão tem passe não merece ser chamado de espírita, ou de que se esteja praticando um Espiritismosem espíritos. Dois absurdos, fruto da ignorância e do preconceito.Uma das causas dessa prática, que se tornou corriqueira no movimento espírita, está na homeopatia.Os primeiros médicos homeopatas eram, em sua grande maioria, espíritas. O uso do magnetismocomo recurso terapêutico servia como um complemento no tratamento aos pacientes.Outro aspecto a ser considerado é a influência da Umbanda, um movimento espiritualista fruto dosincretismo entre o Kardecismo e o Candomblé. Os primeiros terreiros de Umbanda surgiram nofinal da década de 20 e início dos anos 30 do século passado, no Rio de Janeiro, e foram fundadospor espíritas kardecistas. A Umbanda é filha bastarda do Espiritismo, que no Brasil produziu muitosoutros filhos, como a LBV, o Santo Daime, o Racionalismo Cristão etc.
 
O passe desempenha, no terreiro, uma importância fundamental, seja ele aplicado por espíritos decaboclos (índios) ou de pretos-velhos, através do "cavalo" (o médium). É muito comum médiunsatuarem, tanto no centro "de mesa branca" como em tendas umbandistas. Há uma mútua influência.Até hoje é comum vermos nos centros kardecistas mal orientados médiuns que se utilizam datécnica umbandista: gestualidade meio circense, chiados, toque no paciente, preces e rezas ditasoralmente durante a aplicação do passe etc.. Da mesma forma, há terreiros de Umbanda queestudam obras espíritas e incorporam, do Kardecismo, determinados termos e conceitos, como
médium
,
mediunidade
,
espírito obsessor 
. A expressão
guia
, por exemplo, equivalente a
espírito protetor (
ou anjo de guarda
)
do kardecismo, é usada tanto no terreiro de Umbanda como no centroespírita.Outro fator é a influência do cristianismo. A imposição de mãos, atribuída a Jesus de Nazaré,instituída no cristianismo, notadamente no movimento pentecostal e no católico-carismático, tem nopasse espírita uma de suas maiores referências. O Jorê, o Do-in, Reike e tantas outras denominaçõesvêm se somar à transmissão ou transfusão de energias nos centros espíritas, o chamado passe.
O Plano Espiritual
O fundador do Espiritismo denominou de mundo espírita ou dos espíritos a dimensão onde os sereshumanos desprovidos de seu envoltório físico vivem, se relacionam consigo, entre si e conosco,através da mediunidade.A expressão mundo espírita mostrou-se, com o tempo, inadequada, apesar de ser, em nívelterminológico, a mais clara e precisa. Quem a ouve imagina se tratar de um mundo formado porespíritas, e não por espíritos. Daí que mundo dos espíritos deveria ser o termo mais adequado, osubstituto natural, opcional. No entanto, sem o menor critério, os espíritas passaram a se utilizar deoutras expressões, influenciados que foram pelos espíritos, notadamente os que passaram a secomunicar pelos médiuns Chico Xavier, Waldo Vieira e Yvonne Pereira.A mais usual e que se tornou padrão em quase todos os segmentos do movimento espírita é
 planoespiritual
. Muito utilizado pelos espíritos André Luiz e Emmanuel, esse termo ganhou status, veiopara ficar, sem o menor questionamento.Aparenta ser prático, preciso, no entanto, se formos analisar com mais cautela veremos que ele, aoinvés de expressar a realidade, confunde, causa desentendimento do que seja a erraticidadeenquanto habitat dos espíritos.Plano tem a ver com a tridimensionalidade, altura, largura, profundidade. Em Matemática, naGeometria Descritiva, é uma expressão muito usual. Plano x, plano y, dentro do sistema decoordenadas cartesianas, dos dois eixos horizontal e vertical (x e y, respectivamente), abscissas eordenadas. Aplica-se a um espaço de três dimensões, limitado, a uma determinada superfície.O mundo dos Espíritos – segundo o relato dos desencarnados a Kardec e as informações trazidaspelo espírito André Luiz através do médium Chico Xavier – não é um plano, pois não possui trêsdimensões. A palavra
 plano
é inadequada para definir esse hiper-espaço, que se estrutura a partir deuma materialidade tênue, energética, flexível e sujeita às injunções mentais; um mundoideoplástico, quatridimensional. Taí,
 mundo
, eis a palavra mais adequada ainda para classificar oque os espíritas chamam erroneamente de
 plano espiritual
.A aplicação do adjetivo
espiritual
, aqui está um segundo problema, não tão pior quanto o primeiro,o uso de
 plano
, mas que se mostra inadequado, inconveniente. Essa palavra foi pouco usada porKardec, a não ser em definições bem específicas, como no sinônimo de princípio inteligente(princípio espiritual) ou na classificação de fluidos, na interessante e profunda teorização contidaem
A Gênese
.O fundador da Doutrina fez restrições ao uso indiscriminado da expressão espiritual, não somentepara qualificar os fluidos, mas também o mundo dos espíritos, senão teria cunhado a expressão
mundo espiritual
de modo definitivo, e isso ele não fez, mesmo usando-a nesse trecho a seguir:

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