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 A BARQUINHA: ESPAÇO SIMBÓLICO DE UMA COSMOLOGIA EMCONSTRUÇÃO
Wladimyr Sena Araújo
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 O objetivo deste texto será o de apresentar de forma resumida o espaçosimbólico de uma das religiões da Amazônia Ocidental designada de “Centro Espírita eCulto de Oração Casa de Jesus Fonte de Luz”, comumente chamada de Barquinhapelos seus praticantes. Este Centro foi criado no ano de 1945 por Daniel Pereira deMattos na zona rural de Rio Branco, capital do Estado do Acre, foi pouco estudada e ébasicamente restrita ao Estado do Acre. Através de pesquisa de campo realizada entre julho e dezembro de 1995, constatei neste local uma forte influência de práticasreligiosas tais como o catolicismo popular, o xamanismo indígena, religiões afro e dafilosofia do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento.É necessário destacar que o componente essencial da Barquinha, mas não oúnico, é o Daime. Através dele, os praticantes adquirem uma percepção diferenciadada realidade, entrando num estado alterado de consciência.
PRIMÓRDIOS
Daniel Pereira de Mattos, o fundador da missão, nasceu em São Luís doMaranhão e era filho de escravos. Ainda criança foi colocado em uma escola deaprendiz de marinheiro, onde adquiriu conhecimentos do mar. Entretanto, a suatrajetória de vida antes da chegada ao Acre ainda é bastante obscura. Sabe-se que omesmo chegou a região acreana em meados do século, onde se instalou no bairro 06de Agosto e, em seguida, na zona de prostituição por nome de Papôco, que ainda estásituada à margem do rio Acre.Era um senhor bastante habilidoso e conta-se que sabia desempenhar comqualidade doze tarefas: construtor naval, cozinheiro, músico, barbeiro, alfaiate,carpinteiro, marceneiro, artesão, poeta, pedreiro, sapateiro e padeiro.Extrememente sensível, era considerado um grande boêmio das noites de RioBranco. De suas mãos fluíam canções que falavam de amor, amizade e da mulherdesejada. Em uma de suas andanças boêmias, adormeceu sob uma forte chuva muitopróximo ao rio Acre. Ainda bêbado recebeu uma mensagem na qual dois anjosdesciam do céu com um livro para ser entregue a ele. Anos depois, recebeu a mesmamensagem ao cair enfermo e ser tratado pelo conterrâneo Raimundo Irineu Serra,fundador do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal (CICLU), um dos maioresresponsáveis pela difusão do chá para a zona urbana. Após a revelação, Daniel resolveu criar a sua própria linha doutrinária formandoassim a “Capelinha”, que atendia nos seus primórdios aos caçadores e suas famíliasque por lá passavam. Este espaço era rústico, assim como são as casas dosseringueiros da região Amazônica. Pouco a pouco, a “Capelinha” ou “Capelinha de SãoFrancisco” como assim era chamada, foi ganhando corpo e arrebanhando mais fiéisque passaram a fazer parte da doutrina. Hoje a Barquinha conta comaproximadamente 500 fiéis.
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Mestre em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e professor daSEC/SEMEC (AC).
 
SÍMBOLOS FUNDANTES
Uma das características marcantes do Centro criado por Daniel reside no fatode muitos dos símbolos da casa estarem relacionados ao mar. A história de vida destehomem reforçou estes elementos, os quais fazem referências a seres aquáticos e auma nau, chamada carinhosamente pelos adeptos de “Barquinha”. A barca para osseus integrantes tem dois significados. O primeiro é o de que ela representa a própriamissão deixada por Daniel e a segunda expressa a viagem de cada um. Esta barca é aviagem de suas vidas, em resumo, uma viagem dentro da grande viagem. Ainda assim, os praticantes acreditam que a embarcação da Igreja, local ondeeles se reúnem para realizar as sessões é a própria barca. É preciso considerar que abarca é comparada às embarcações típicas que constantemente cortam os rios destaregião. É dito ainda que o proprietário da Barquinha é Deus e esta é pilotada por SãoFrancisco das Chagas, Mártir São Sebastião, São José e Daniel Pereira de Mattos, quetem como missão conduzir a nau ao encontro de Jesus, tentando, juntamente com osfiéis, evitar grandes tormentas, ou seja, as profanações que ocorrem neste mundo.É uma barca que tem a designação de “barca Santa Cruz” e reflete um caráterescatológico. Por isso os fiéis recebem constantemente instruções de planos invisíveispara continuar a viagem mar a dentro. “A viagem nada mais é do que a provação, onde a água agitada reflete astentações do mundo de ordem mundana. A água se agita porque a sociedade humanaquebrou determinadas regras divinas. As águas marítimas exprimem o sentimentodescontrolado dos seres humanos e o desgosto do criador” (Araújo Neto, 1995: 13).De forma mais ampla, ela é considerada a missão deixada por Mestre Daniel evida de forma plena. Deus é o proprietário da barca, mas quem definirá o seu rumosão os fiéis através de suas atitudes. A barca viaja em três planos cosmológicos: o céu, a terra e o mar. Aqueles quefazem parte da grande barca são chamados de marinheiros do mar sagrado e recebemeste título no momento do “fardamento”.
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Fardados, eles desempenham tarefas paraalcançar um grau de luz mais elevado no momento da desencarnação (morte) de cadaum. Os adeptos afirmam que se houver uma boa preparação, os marinheiros passam aser chamados após de oficiais após a morte.Determinadas entidades também são chamadas de oficiais, como é o caso deDom Semião, que chefia parte dos trabalhos das Obras de Caridade. Estes oficiaisquando chegam para “trabalhar” usam determinados instrumentos referentes às forçasarmadas tais como lanças, espadas, algemas, cachorros, etc. Os registros destesinstrumentos são revelados nos salmos entoados pelos presentes.Essas forças armadas, compostas de entidades de luz, visam combaterentidades do mal. Há portanto, um duelo entre entidades de luz e entidades dastrevas; logo, a barca, juntamente com os marinheiros e oficiais, vem a ser umreceptáculo de conversão de entidades maléficas e entidades benéficas. Estaconversão se dá através de batalhas mar a dentro.O mar na qual esses marinheiros constantemente navegam é chamado de marsagrado, devido ao fato de o Daime ser considerado água sagrada. Viajam, portanto,nas ondas do Daime sobre o balanço do barco Santa Cruz.
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O fardamento representa a adesão do participante ao grupo na qual ele está participando. Na concepçãode Paskoali (1998), é também um renascimento, visto que, através dele, os indivíduos obedecem a certasregras de conduta para que possam ser reconhecidas realmente como adeptos da doutrina.
 
 
É destacado ainda enquanto luz. Ela (a luz), é associada ao conhecimento,logo, àqueles que experimentam o Daime, estão ingerindo a Santa Luz e adquirindonovos conhecimentos, enxergando a si mesmo, o outro e outros mundos. Além disso,o chá sagrado representa a renovação, a revitalização e cura. O homem ao “navegar” com ele nasce novamente e com isso se reintegra.Em duas das visões de Daniel, notamos a presença da água, isto porque omesmo encontrava-se deitado às margens de um rio ou à beira de um igarapé. Aprimeira sem o uso do Daime e a última sobre o efeito deste enteógeno. Estas visõesmostram uma passagem, a ligação com os tempos primordiais, com Deus e o início damissão.O Daime é considerado uma substância de poder. Todavia, esta água sagradanão é acessível a qualquer momento. O homem terá que passar por uma série deprovas, demonstrando assim que é digno dela. A bebida também é tida como um instrutor que ensina os participantes dosrituais que a utilizam. Estes ensinamentos estão presentes desde o momento em queMestre Daniel resolveu formar a missão através da visão do livro azul. O livro azulcompreende os ensinamentos e é onde os fiéis recebem sintetizadas as instruçõesprovenientes de planos sagrados elevados. Estas instruções são passadas através delindas melodias, ricas em símbolos, chamadas de salmos.
EIXOS SIMBÓLICOS E RITUAL
O repertório simbólico da Barquinha, que está expresso na arquitetura, podeser imaginado como uma colcha de retalhos, onde as partes se encaixam formando otodo. Designamos de costura a experiência ritual nos lugares da barca, porque é noritual que temos a tônica da expressão do lógico e do sensível. Não é minha intençãodiscutir toda a simbologia da Barquinha, mas sim alguns eixos, para compreendermelhor dentro da estrutura espacial, os trabalhos rituais apresentados/representadospelos marinheiros do mar sagrado e pelos oficiais do mar sagrado.
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De toda a extensapartitura simbólica, escolhi três símbolos principais da arquitetura: a mesa em formade cruz, o cruzeiro e o parque.1 - A mesa em forma de cruz está no centro de todo um conjunto de símbolos. A experiência sagrada demonstra a fundação do mundo e Mestre Daniel ao tomarcontato com o sagrado fundou a missão e revelou o real, distanciando-se do mundoprofano e de ilusão. Neste espaço está presente a mesa, o símbolo principal. Logo, amesa em forma de cruz se torna a fonte cristalina do jardim dos símbolos. Ao redor dela, existem seis cadeiras de um lado e seis do outro, representandoos 12 apóstolos de Cristo. É necessário destacar que há uma hierarquia para se chegaraté a mesa. Inicialmente, instruções são dadas a São Francisco das Chagas que asrepassa ao Presidente do espaço. A mesa é a peça principal de um grande origame, pois, de lá os rituais sãoabertos e também fechados. Nela, encontramos um livro azul aberto que expressam os10 mandamentos.
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Apresentação e representação caminham juntas, isto porque o praticante pode representar o sagradodurante uma performance ritual. Por outro lado, entidades podem apresentar-se nos rituais, inclusive,usando o corpo dos adeptos. A arquitetura, os gestos, as melodias representam outros planos e outrosseres, mas quando sentidos, tornam-se apresentados.
 
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