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DIÁRIO DE VIAGEM...
Walter Dias Jr.
 
 Assim, todo acontecimento cognitivo necessitada conjugação de processos energéticos,químicos, fisiológicos, cerebrais, existenciais,psicológicos, culturais, lingüísticos, lógicos,ideais, individuais, coletivos, pessoais,transpessoais e impessoais, que se engrenamuns aos outros. O conhecimento é, portanto,um fenômeno multidimensional, no sentido emque é, de maneira inseparável, ao mesmotempo físico, biológico, cerebral, mental,psicológico, cultural, social
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Edgar Morin 
Eu estava viajando. Meu pensamento era claro e o raciocíniopreciso. Lembro-me que filosofava comigo mesmo sobre a vida..., oUniverso... E eu ali, sozinho e perdido naquele pasto, no centro da América do Sul, comecei a vomitar. Parecia que vomitava toda apodridão que havia no mundo. Toda a imundície das minhas vísceras. Foiaí que senti seus primeiros efeitos. Minha cabeça funcionavarapidamente. As cores das plantas e objetos se acenderam como luzes epareciam mover-se. Mas, não saíam do lugar. Era como se eu pudesseenxergar os movimentos de suas partículas. Tudo muito rápido. Estesmovimentos foram ficando mais claros e nítidos e eu comecei a sentirque minhas energias entravam em harmonia com o Cosmos. Foi quandome dei conta: estava "mirando"
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.Foi a primeira vez. A primeira vez, também, que eu me sentia tãoforte, apesar (e, talvez, por causa) da plena consciência da minhainsignificância frente à imensidão infinita do Universo. Como se, poralguns momentos, o mundo tivesse deixado de ser o "outro". Me sentireduzido a nada, à “pó-de-traque”, um zero à esquerda. Nesse instanteeu tive a compreensão que deixara de ser, apenas, aquele ser humanoque acreditava ser. Ao mesmo tempo, me dava conta da minha enormeinsignificância diante de todo o Universo e, exatamente por essa mesmarazão, pela primeira vez na vida eu me sentia como se fosse esse “Todo”. Onisciente em minhas visões. Pleno...Depois dessa experiência eu - que já estava com viagem de retornomarcada - não poderia mais voltar a São Paulo. Pelo menos, não antes
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O autor deste artigo é Mestre em Ciências Sociais pela PUC/SP desde 1992 e possui vários anos dedocência na própria PUC/SP e em diversas outras Faculdades da cidade de São Paulo. Atualmente, édocente da UNIP.
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"Mirando" (V. Mirar) - Termo integrante do “vocabulário daimista”, do latim
mirare
, por 
mirari
"admirar-se, contemplar, olhar" de mirus digno de admiração,estranho, maravilhoso. "Milagre" s.m., feito extraordinário que vai contra as leisda natureza maravilhosa. Miração - visão/revelação divina: ato ou efeito de mirar, propiciado pelo ritual doSanto Daime.
 
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de conhecer melhor aquilo que me parecia alguma coisa saída dos livrosde Castañeda. Vivia em Rio Branco há um ano e trabalhava em um desses Projetosde Assentamento Dirigido - PAD - do Incra. Era uma “vidinha” monótonade funcionário público em cidade pequena, com poucas opçõesprofissionais, culturais, de lazer e até de militância política.Lembro-me que a "inteligência de esquerda", na época, atuava emalguns espaços institucionais, como a Fufac (faculdade local), a CPI/Ac(Comissão Pró-índio/Ac), a Fetac (Federação de Teatro Amador/Ac) e os jornais "A Gazeta do Acre" e "Varadouro". Já não agüentava mais aqueleenfado e estava arrumando as malas para ir embora quando chegou umaamiga - a Francis - e me convidou para ir a uma "festa" na "Colônia 5mil". Era um trabalho em comemoração ao dia de N. Sra. da Conceição(08/12/1978).Corriam muitas histórias sobre a tal colônia na cidade. De tudo oque diziam, o que mais me atraía, era o fato de que lá vivia umacomunidade religiosa liderada por um velho de estilo “messiânico” - opadrinho Sebastião. Diziam, também, que lá eles tomavam o "Daime"(uma bebida enteógena de origem indígena) e entravam em contatodireto com Deus. Imaginem, sem intermediários! Claro que a IgrejaCatólica local não via com bons olhos aquele tipo de manifestaçãoreligiosa e, além de tudo, havia muito preconceito na cidade em tornodo assunto.O convite era irrecusável. Só se podia ir até a colônia comoconvidado de algum membro da doutrina. O convite poderia serinterpretado como um presente de amigo. Uma oferenda a alguém deconfiança. Era quase fim de tarde. Eu e Angela arrumamos a tralhanecessária e partimos sem vacilar. Juntamo-nos a um grupo grande eíamos em dois carros: a Angela, a Francis Mary, o Luís “Bona Notche”, o Valtair, a Concita, a Cilene, a Vera Fróes, eu ... Enfim, ao todo,deveríamos ser uns doze.Saímos da cidade por uma “estradinha” de lama e, com pouco maisde uma hora, havíamos caminhado bastante, mata à dentro. Entramosnum "ramal" à esquerda e deixamos os carros em um terreiro próximo auma casinha. Dali prá frente tivemos que seguir a pé porque as estradasda região se tornam impraticáveis nesse período do ano (outubro amarço) devido à época das chuvas. Penetramos na "boca da mata" porum varadouro. Escureceu.Era como se eu estivesse sendo atraído por fortes energias quevinham do "centro". Sentia uma estranha sensação de atração e repulsa.Era um sentimento de medo e curiosidade. Engolido pela mata, em plenanoite, sentia pavor. Pressentia todos os fantasmas: os meus e os damata. Cada ruído tinha um significado. Ali a diferença entre a vida e amorte era tênue: a terra fria e úmida, o ar parado e a indiferenciação damatéria.De repente ouço explosões distantes. É nessa direção que estamosindo. A explosão dos rojões orienta a caminhada, pois, de noite, nem asestrelas podiam ser vistas. Falávamos alto para exorcizar o medo, atéque saímos em uma clareira. Lá em cima do morro podia se ver a
 
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claridade do templo. Uma pequena ilha de Luz na imensidão negra damata. Chegamos.Fiquei embasbacado com o que vi! Todos os membros da Igrejaestavam impecavelmente fardados (uniformizados). Os homens vestiamterno e camisa brancos, usavam gravata e tênis (conga) azul e umaestrela de Salomão presa ao peito, com uma águia pousada em umameia-lua em seu interior. As mulheres vestiam saia e blusa brancas, comum pequeno saiote verde por cima da cintura. Usavam fitas verdescruzadas no peito e fitilhas bem coloridas atadas ao ombro, caindo atéabaixo do joelho. Traziam, ainda, uma coroa de purpurina e lantejoulasna cabeça. As crianças seguiam os mesmos modelos dos adultos do seusexo. Era visualmente bonito: uma comunidade onde todos eram reis erainhas. O clima era parecido com o de uma quermesse de festa junina,com barraquinhas que vendiam chás de erva cidreira, erva-doce, nescaue pão com manteiga ou macaxeira.Logo que chegamos, fomos apresentados ao padrinho Sebastião. Emseguida, ele designou alguns membros da Igreja para acompanhar osnovatos, com a função de explicar, orientar e auxiliar aqueles que nuncatinham tomado o Santo Daime. Ávido de curiosidade, comecei a fazerinúmeras perguntas ao Sr. Jurival, meu "acompanhante". Perguntavasobre a comunidade, seu modo de vida, sobre a forma de divisão dotrabalho e de seu produto; sobre a estrutura de poder, o culto, otemplo, seus antecedentes, divisões internas e externas, tentandoidentificar seu universo simbólico, mitos, ritos, etc. Quando lheperguntei sobre o Daime, sua resposta foi, no mínimo, intrigante:"pergunte a Ele", foi o que ouvi como resposta. "Pergunte ao Daime epreste atenção aos hinos". Foi tudo o que me disse sobre o assunto.O espaço sagrado era demarcado por uma cerca em volta do templo(uma construção grande, mas simples, em alvenaria, com uma navecentral, áreas de circulação lateral, telhado em duas águas com duastorres frontais. E na parte interna, o centro de tudo, era ocupado poruma mesa, com uma cruz de Caravaca, castiçais e um porta-retrato doMestre Raimundo Irineu Serra (o fundador da doutrina). Uma linhaimaginária cortava ao meio as áreas interna e externa do templo,separando homens e mulheres em espaços distintos. Era a reafirmaçãoda divisão cósmica das energias primordiais: o Sol e a Lua, o Criador e a Virgem. O princípio da fecundação. A Origem.Só voltaríamos a rever as mulheres do nosso grupo no intervalo dameia-noite (cerca de uma hora) e no dia seguinte, depois de tudoacabado. Agora o Daime iria se apresentar a cada um de nós,individualmente e à todos, ao mesmo tempo. O Luís, o Valtair e euficamos mais juntos. Eu, o paulista. Luís, um acreano viajado queconhecia boa parte do Brasil e tinha um rosto de estudante de esquerdada época. O Valtair, um carioca que tinha saltado em Rio Branco mais oumenos por acaso e não sabia ao certo o que estava fazendo ali.Já estavam todos a postos no interior do templo quando noschamaram: iria começar o Trabalho. Dentro da Igreja havia duas filas:uma à esquerda - no território feminino, e outra à direita - no territóriomasculino. Cada uma começava num filtro onde era servido oSacramento do Daime. E, uma delas acabava justamente aonde eu

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