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SANTO DAIME, TRANSCÊNDENCIA E CURA.
Interpretações sobre as possibilidades terapêuticas da bebida ritual
Maria Cristina Pelaez
1
 
Eu tomo Daime que é para conhecer Conhecer a beleza de viver Dentro desta Luz Do meu Eu Superior 
Hino 24 de Vera Lúcia Gal
 
O Santo Daime, a bebida ingerida ritualmente na doutrina religiosa que levaseu nome, contem um agente psicodélico, o DMT (Dimetil-triptamina). Embora assubstâncias psicodélicas estejam legalmente proibidas na atualidade, o consumo ritualde Santo Daime tem sido legalizado há vários anos no Brasil (Mac RAE, 1992). Assim,esta Doutrina torna-se uma área de interesse para antropólogos, psicólogos,neurobiólogos, psiquiatras e outras pessoas motivadas no estudo dos diferentesestados de consciência possibilitados pelos agentes psicodélicos.Neste texto, destacaremos uma das propriedades atribuidas a estassubstâncias: a de gerar sentimentos de
transcendência 
que possibilitariam a cura dedesequilíbrios físicos, mentais ou espirituais, propriedade também reconhecida nabebida ritual daimista e muito valorizada pelos seus seguidores.Para os daimistas, o Santo Daime seria um instrumento eficaz na cura dasdoenças, fundamentalmente da
doença espiritual
que seria a origem real everdadeira das doenças físicas ou mentais. Na primeira parte deste artigo
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faremosuma breve referência aos agentes psicodélicos e seus usos nas diferentes culturas.Depois, abordaremos uma das representações daimistas sobre doença e cura: o
curar-se na Doutrina
, conceito referido à “cura espiritual” e de central importânciaentre os seguidores deste culto em Florianópolis (S.C.)
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Finalmente, faremos menção amudanças relevantes nos valores e estratégias de vida dos daimistas, e que seriampara eles os indicadores visíveis e concretos das suas curas espirituais.
OS AGENTES PSICODELICOS
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Formada em Medicina na Universidade Nacional de Córdoba, Argentina (1980). Realizoi Mestrado emAntropologia na Universidade Federal de Santa Catarina (1994). Na dissertacao, abordei o estudo das potencialidades teraéuticas do Santo Daime, como agente de "curaespiritual
".
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Este artigo tem se baseia na minha dissertaçao de mestrado: “
 No Mundo se Cura Tudo.
 Interpretaçoes sobre a “Cura Espiritual” na Doutrina do Santo Daime”, apresentada aoPrograma de Pós Graduaçao em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina(1994). Nessa dissertaçao -cujo trabalho de campo foi feito na Igreja daimista de Florianópolis-abordou-se o estudo do potencial curativo do Santo Daime utilizando a teoria elaborada por umdos principais pesquisadores da Psicoterapia Psicodélica: Stanislav Grof. A conveniência de umenfoque interdisciplinar para o estudo do Santo Daime já tinha sido sugerido por Walter DiasJunior (1987) ao encontrar similaridades entre as suas vivências nesta Doutrina e asexperiências com LSD descritas por Grof.
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Existem outras representaçoes sobre doença e cura entre estes daimistas, às quais nao faremosreferência no texto e que, em geral, vem a complementar o conceito de
curar-se na Doutrina
.
 
2
Da grande quantidade de substâncias psicoativas existentes, somente cinco,apesar de pertencerem a grupos químicos diferentes, foram classificadas como
verdadeiros 
alucinógenos, uma vez que compartilham duas características: produzem
efeitos subjetivos 
 
similares 
e desenvolvem
tolerância cruzada 
. Estas substâncias são: aDietil amida do ácido
 
lisérgico (LSD), a Pyloscibina, a Di metil triptamina (DMT), a
 
Mescalina e a 2,5 dimetoxi-4-metil anfetamina (DOM) (Jacobs, 1987).Entre os
 
efeitos subjetivos similares 
podemos mencionar a nível somático:náuseas, vômitos, tremores, tonturas, debilidade, contraturas musculares, hiperreflexia, dores generalizadas, etc. A nível psíquico: profundas e rápidas alterações dosestados emocionais, tais como depressão, exaltação, serenidade, pânico, apatia,labilidade, etc.; alterações na memória e no pensamento, despersonalização e hipersugestibilidade. A nível perceptivo-sensorial: distorções de tempo e espaço, estranhassensações corporais, alterações na percepção de formas, cores, sons, etc., sinestesiase alucinações. A 
tolerância cruzada 
significa que o efeito de uma substância será menorquando experimentada pouco tempo depois de ter ingerido outra do mesmo grupo.Por exemplo, se alguém consome LSD e no dia seguinte mescalina, o efeito destaúltima será inferior ao efeito obtido ingerindo mescalina unicamente. Ao observar-seeste fenômeno pensou-se que estas substâncias atuariam sobre um mesmo receptorcerebral. Estudos posteriores mostraram que um dos seus principais mecanismos deação era a ocupação de um dos receptores da serotonina, o
5HT2,
desencadeandocomplexos eventos neuroquímicos que até hoje não tem sido completamenteesclarecidos (Jacobs,op.cit., Jaffe, 1986, Aghajanian et alii, 1987).Embora os agentes psicodélicos atuem nos mesmos receptores cerebrais eproduzam similares mudanças somáticas, psíquicas e perceptivo-sensoriais, eles nãodeterminariam
 per se 
as características da experiência psicodélica. Estes agentessomente abririam as portas para outras formas de percepção da realidade, mas nessesespaços mentais abertos, cada homem imerso numa cultura, colocaria os conteúdosdeterminantes da natureza e o significado das experiências.Segundo Pahnke, o agente psicodélico seria o
gatilho 
ou
agente auxiliador,
masa experiência psicodélica seria uma combinação entre os efeitos da substância, adisposição psicológica do indivíduo e as características do ambiente onde a experiênciaacontece (1972).Winkelman (1986) referiu-se a três fatores condicionantes da experiênciapsicodélica: 1) fatores neurofisiológicos, 2)
set 
e 3)
setting 
. O primeiro refere-se aotipo de agente consumido e a sua ação sobre o organismo. O
set 
, se refere àscaracterísticas psicológicas do sujeito e as suas atitudes em relação à experiência. O
setting 
refere-se ao entorno social e cultural que organizará a experiência.Jordan e Grof opinavam, em relação ao LSD, que este somente amplificaria eexpandiria variados níveis do inconsciente, trazendo à luz fenômenos não aparentesnos estados comuns de consciência. Contudo, as experiências com LSD estariamdeterminadas pela personalidade do indivíduo, suas atitudes e problemas, o ambientedas sessões, as relações estabelecidas com o terapeuta e outros fatores aindadesconhecidos (Jordan, 1972; Grof, 1987).Estas substâncias psicotrópicas tem recebido diferentes denominações -extremamente valorativas- que mostram as posturas antagônicas em relação àspropriedades a elas atribuidas.O termo mais freqüentemente empregado, talvez seja
alucinógeno
. Gordon-
 
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Wasson questionou sua utilização, pois etimologicamente esta palavra significa
divagar mentalmente o hablar sin sentido,
tendo também a conotação de
estar loco o delirar 
, eestes traços não seriam representativos da experiência. O autor propôs denominá-los
enteógenos
, que significa
Dios dentro de nosotros,
pois caracterizaria melhor aessência destas vivências (1980:232). Eles também foram denominados
psicomiméticos
, que traduz-se em
imitadores da psicose,
ao comprovar-se quemuitos indivíduos sob seus efeitos experimentavam estados similares à loucura(Cohen, 1968). Osmond, ao observar que nem sempre se vivenciavam estados dedesequilíbrio mental, mas, pelo contrário, às vezes eram experiências que pareciamexpandir os limites da consciência, propôs o termo
psicodélicos
já que
enriquecem o espírito, ampliam a visão, manifestam o espírito 
(1972:64).
USOS DOS AGENTES PSICODELICOS
Segundo os dados etnográficos e históricos, os agentes psicodélicos foramempregados ao longo dos tempos em diferentes culturas, geralmente com finsreligiosos e terapêuticos. Por exemplo, os cogumelos (que contém
 pylocibina 
) e ocactos peiote (que contém
mescalina) 
, eram usados entre os nativos do México e dosudoeste dos Estados Unidos muito antes da chegada dos espanhóis; a
ayahuasca 
 (que contém
DMT 
), era conhecida desde tempos imemoráveis pelos indígenasamazônicos (La Barre, 1972; Furst, 1976; Schultes, 1986).Quando nas culturas tradicionais estes agentes eram empregados com finsterapêuticos, não se pretendia meramente uma melhoria dos sintomas, mas, e talvezcom uma visão mais holística do homem, se buscava atingir experiências de
transcendência 
que restaurariam o equilíbrio entre o homem doente e seu cosmossimbólico. Como o transtorno orgânico colocava-se num segundo plano, a remissãosintomática não era necessariamente um indicador da cura, nem a morte do pacientemarcava o fracasso do tratamento. A cura, então, é mais uma transformação espiritual do que a desaparição dossintomas da doença. Achterberg descreveu deste modo o processo de cura:
é entrar num momento no qual se sente a verdade extática de estar absoluta e totalmente unido a todos os aspectos da criação. Esse momento é em si mesmo tanto a definição como o objetivo da cura. Às vezes, os problemas físicos desaparecem, outras vezes, o  paciente morre. De qualquer jeito, no instante de conexão, de unidade, a cura é atingida 
(1988: 123).
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 Nas nossas sociedades ocidentais, a partir da década de 60, começaram aquestionar-se os valores até então vigentes: o racionalismo, o materialismo, otecnicismo, etc., revalorizando as filosofias orientais e indígenas. Nessa época renasceuo interesse pela exploração dos diferentes estados de consciência, pelas experiênciasmísticas e pelos agentes psicodélicos, os quais se popularizaram como caminhos deauto-conhecimento. O movimento
hippie 
, Aldous Huxley e as narrativas das suasexperiências com mescalina, o polêmico Timothy Leary em defesa do LSD, CarlosCastaneda escrevendo seus aprendizados com um xamã mexicano, são significativosexpoentes desses anos.Nessa época também começou a mudar a concepção mecanicista, positivista ehiper racional da ciência para uma visão mais holística e subjetiva.Estas mudanças atingiram à Psicologia, e na década de 70, surgiu uma nova
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Esta citaçao, cujo original encontra-se em inglês, foi traduzida livremente por mim.

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