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Um Sonho Caro - Conto de Otoniel Mota

Um Sonho Caro - Conto de Otoniel Mota

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Otoniel dos Campos Mota (1878 – 1951) foi contista, ensaísta, gramático, pastor evangélico, professor, diretor da Biblioteca Pública de SP, membro da Academia Paulista de Letras.

A título de resgate, tomamos a liberdade de transcrever este conto, oportuna amostra do rico estilo regionalista do autor, que exprimiu com humor causos (alguns rocambolescos) dos 'matutos' do interior paulista, neste e nos demais contos de seu livro Selvas e Choças (1922).


Otoniel dos Campos Mota (1878 – 1951) foi contista, ensaísta, gramático, pastor evangélico, professor, diretor da Biblioteca Pública de SP, membro da Academia Paulista de Letras.

A título de resgate, tomamos a liberdade de transcrever este conto, oportuna amostra do rico estilo regionalista do autor, que exprimiu com humor causos (alguns rocambolescos) dos 'matutos' do interior paulista, neste e nos demais contos de seu livro Selvas e Choças (1922).


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08/05/2013

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UM SONHO CARO
Otoniel Mota
- Ahi, marvada! Tomô no sovaco! Mais ainda não morreu! Eu tiro já teubucho fóra! Lá vae obra!Assim exclamava Chico Pipoca, na salinha da frente de sua choupana,apenas barreada, como os demais compartimentos. Tinha na mãoesquerda a pica-pau querida, e na destra a tira-prosa luzente, fina,aguçada. Fiado nesta arma, certamente respeitável, é que Chico Pipocaestava a berrar aquelas valentias, aos pulos para diante e para trás,esfuracando a parede com ímpetos heroicos, quando Nha Faustina, aesposa, deixando a gordura aljofrante a chiar na caçarola, apresentou-sena porta da salinha e deitou água fria na fervura, pondo-se a mirarfixamente o seu homúnculo
esportivo,
como hoje se diria. Este,desapontado com se ver assim surpreendido, caiu dos píncaros, onde aglória já lhe sorria em toda a sua plenitude aover ele realizado, emespírito, o sonho constante da sua vida: chumbear uma onça pintada edepois cosê-la à faca para rematar a obra.- Tava cabando de impacotá ua pintada quando mecê pareceu, nhaFostina!Nha Faustina, sempre silenciosa, despregou um formidável pelo-signal,que foi do topete à cintura, virou as costas, arrepanhou a saia no quadrilesquerdo e saiu gingando o corpanzil, a resmungar.- Ave Maria! Credo! Inté é mió a gente
serri 
... O home virô maluco!Onde já se viu ua coisa ansim, diz que pulando dentro de casa que nem
serelepe, co’a faca na mão cu
tucando a parede... Ave Maria! Ave Maria!E já na cozinha persignou-se mais uma vez desabridamente, com acolher de pau desbeiçada a fazer cruzes no ar.** *Chico Pipoca era um caboclinho franzino, de canelas magras e peladas, já grisalho, com a boca chupada, pela falta dos saudosos dentes que
 esbrugavam
outrora uma
caiana
roxa. Tinha os olhos saltados como os dosapo. Daí o nome Pipoca, que lhe dava guinas de espancar.Morava em bairro antigo, de uma vila dos tempos coloniais, no sul doEstado, uma povoação insulada, decadente, onde a população nunca ou-vira sequer o apito do "bicho de fogo" triunfante, onde a civilização
 
permanecia pouco além do bangué e da espingarda fulminante. Osterrenos, esturrados pelo fogo, que lhes deitavam ano após ano, sóbrotavam sapé e assa-peixe, com alguns capões raros e ralos de capoeirabaixa, ruça, de terra exausta. Por ali os milharais deitavam hastesescanifradas e espigas
minguéras,
retorcidas como pés de criançassifilíticas.Caçador de cotia, Pipoca possuía dois
pevas
sem raça alguma, magros earrepiados, porque
dizia o dono
"cachorro gordo fica preguiça eperde o faro". E com esta filosofia venatória descarregava a suaconsciência do jejum em que trazia os míseros cotieiros.
** *
Mas a imaginação de Pipoca era fértil, e aquele círculo estreito quetraça a cotia na carreira era por demais mesquinho para as suas ambiçõesde largo fôlego.Sentado à beira do caminho, a poucos passos do carreiro, enquanto
 Rompe-ferro
e
Corta- vento
ganiam na capoeira, à procura do rasto, onosso homem parafusava grandes coisas: o sertão, a mata virgem, umaperrada valente, espingarda Laporte, chumbo paula-sousa, faca
lambendo,
 acuação de pintadas nas furnas pavorosas, e ele, ele mesmo, nhoChiquinho da
Sirva,
encafurnando-se aos berros, açulando os cães, enfren-tando, por fim, um macharrão a urrar de tremerem as grotas; e afinal ele,nho Chiquinho da Silva, por entre o
retintin-ratantan
dos ganidosafinados, a chegar, a fazer longa pontaria, a desfechar
 
a Laporte uma, duasvezes, e a arrancar em seguida a tira-prosa faiscante, porque o bicho,embora mal ferido, vinha pela fumaça atacá-lo com fúria desmedida.E eram então as cutiladas no barranco, e com tal entusiasmo que, deuma feita, a cotia passou sem que ele a pressentisse.Assim a ideia de conhecer o sertão se radicava dia a dia no espírito dovelho algoz das inofensivas cotias.Todavia, uma coisa incomodava o nosso Esaú pelado: era que, quando,passados aqueles momentos de rapto venatório, de cutiladas no barrancoou na parede já esburacada do casebre; quando, metido já debaixo doslençóis, altas horas da noite, o espírito se lhe apoucava pelo temor dasalmas, dos sacis, das mulas-sem-cabeça, e ele se punha a pensar de novonaquela cena figurada do macharrão a urrar no escuro da sarapilheira,
 então, uma como bolinha de gelo lhe vinha rolando pela coluna dorsalabaixo, e a
cafurina
se lhe eriçava. Encolhido, com a cabeça coberta,suando, Pipoca tinha nesse instante uns rasgos de louvável honestidade:
 
 
Quá!
dizia ele consigo mesmo
tô vendo que quando chegá ahora triste, este mardiçoado
friu
me vae pregá ua massada das dúzia!
E
lá do fundo de sua alma de cotieiro subia uma revolta sincera contraa bolinha de gelo desastrada, que ameaçava reduzir a cinzas o sonho portantos anos acalentado.Mas apenas nascia a claridade matutina e o sol, dissipando as trevas,dissipava também os mistérios, os bruxedos, de novo Chico Pipoca seconsiderava homem e a perspectiva do macharrão voltava a enfeitiçá-lo.Ah! que não daria ele para dizer aos caboclos da redondeza:
"Aqui estáo couro de uma pintada, que matei em luta perigosa, sozinho, nas brenhasdo sertão!"E então, olhando para as capoeiras de vassoura e de outros matinhos-pócas onde só se viam carreiros de cotias, e onde só se ouvia o piado dosxintans e xororós, um quase desespero lhe invadia a alma. Aquilo ali nãoera vida para um homem como Chiquinho da
Sirva!
** *Um dia de calor, em que o ar tremia como cordas de violão feridas, eno silêncio absoluto só se ouvia o piado triste do sem-fim nos cambaráscarapentos do cerradão, estalou a porteirinha do sitieco, lá em cima, naboca da capoeira rala; e um cavaleiro surdiu, ao passo bamboado de umabesta ruana, com o picuá a agitar-se na garupa, como as asas de umagarça.Chico Pipoca, roceiro da gema que era, estava "
tirando um corte" 
 àquela hora, resupino, a sonhar com o macharrão na grota.Aos latidos dos cotieiros, nha Faustina foi até a porta, espalmou a mãona testa, espreitou longamente, e afinal reconheceu no cavaleiro ocompadre Zeferino, que havia dez anos se retirara para umas terrasdistantes, nas margens do Tietê, dali a vinte léguas, onde fora abrir umsítio.Mal reconheceu o compadre, nha Faustina
sururucou
para dentro e foiacordar o bem-aventurado marido, que roncava já, no risco de perder asua bem-aventurança com um grave pesadelo.Nha Faustina, desastradamente, pregou as unhas na barriga do esposo, justamente na hora em que o macharrão, chumbeado, mas de pé, com asfauces rubras escancaradas e a dentuça à mostra, firmava um botecerteiro sobre o caçador que, havendo tropeçado num toco, rolara por

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