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O BEM É A RELIGIÃO
“O que é Verdadeiro, Bom e Belo, conduz aDeus” – Pitágoras.
Acordei envolvida ou penetrada de uma leveza estranha, suave, celestial;parecia ter vindo de distantes regiões, e, se fosse comparar com o estadoanterior, diria ser um estado realmente celestial.Deram-me, para mudar, uma roupa cor-de-rosa:— Fica-lhe mais de acordo com o estado psíquico; o branco é muitosimples, desde que não seja brilhante, e o rosa é mais vibrátil. Você sempre foibastante ativa e inquieta, nervosa e impulsiva, não é isso?— Seja como for, Rosa, esta cor me agrada mais. Será um simples caso desimpatia, mas o fato é que o rosa me agrada bastante.Olhando, observei que as roupagens eram de variados tons, havendogente enfeitada, com roupagens de três e quatro cores. Perguntando,respondeu-me Rosa as condições de tudo, roupas e utensílios, que eram por gosto e, acima de tudo, por merecimento.Entretanto, passou-me o recado:— Saiba, Leonor, que você tem cinco dias ao seu dispor, para observar olugar, ler e passear, visitar algumas casas e fazer algumas perguntas.— Algumas perguntas? Como saberei o que e como perguntar?Sempre solícita, Rosa discursou:— Leonor, esta região é a porta de entrada aos planos de luz e de glória; enós somos gente que vem de baixo e não de cima; portanto, observe, teremosmuito que perguntar e por milênios a fio, durante as vidas sucessivas e asavalanches de questões a defrontar. Nesta região, por exemplo, embora sendoinferior, todos podem notar a diversidade de atividades normais e amultiplicidade de recursos a serem empregados, para a máquina funcionar bem. Ninguém aqui poderia fazer tudo, nem tampouco saberia fazer tudo,como você irá observar. Portanto, repetimos a velha sentença: “Quem nãorespeita o Saber e a Virtude não é civilizado.”— E as perguntas? – indaguei, interessada.— As perguntas – prosseguiu – você as fará quando achar conveniente.Porém, tenha certeza, muita coisa entrará como experiência própria e muitacoisa irão lhe dizer, sem que você formule perguntas.— Por exemplo, Rosa, você falou em vidas sucessivas; aí tenho eu por obrigação perguntar, visto como os padres enviavam aos calabouços por muitomenos.Abanou a cabeça negativamente, perguntando-me:— Quem perseguiu, prendeu, judiou e crucificou o Cristo?Notou em mim a perplexidade causada pela sua resposta, adiantando:
 
Querida irmã Leonor, peça Virtude aos virtuosos, Verdade aosverdadeiros, Conhecimento aos conhecedores e Liberdade aos livres; nãocometa a leviandade de confiar em quem fala de Deus ou em Seu nome fazgestos e mercâncias. Temos em nós as provas de tantos males derivados dasclerezias em geral, que já deveríamos estar imunizados contra tudo isso pelaeternidade afora.— A Verdade, o Bem e o Bom! – repeti, com entusiasmo.Encarou-me com aquela singeleza que a caracterizava, completando:— Na medida de suas possibilidades, saia imitando o Cristo; isto é, procureir vivendo a Lei de Deus. Porque eu te afirmo, Leonor, que ela inteirinha temaqui aplicação. E quero afirmar que, nos mais altos planos da vida, sempresubindo em suas mesmas amplidões, ela é a Chave do Triunfo.Andando que estávamos, a conversa nos furtou de observar melhor oterreno e as coisas que se passavam; mas agora Rosa estacou, apontando:— Estamos andando na direção do Vale da Separação...— Vale da Separação?— Sim, por onde todos chegam aqui... O caminho que você trilhou.— Não percebi Vale algum.— Não perseguiu uma luzinha que chegou a falar, Leonor?— Sim, assim foi.— Muito bem. A luzinha era um servidor dos caminhos, e o Vale você nãopoderia mesmo notar, estando como estava. Entretanto, saiba, ninguém aquichega por acaso e sem ser por esse Vale. E saiba também, que sem ser umlabirinto, ninguém o percorre e atinge os nossos campos já verdejantes efloridos, sem ser guiado.— Entendo, Rosa, que a Justiça Divina funciona com inteira organização eatravés de leis e elementos, como já me disseram. Enfim, Deus está em tudo eoferece o merecido a cada um. E para ser assim, os ambientes e as pessoasentram na movimentação dos fatos até mesmo sem saber.Rosa revelou alegria, dizendo:— Isto mesmo! Vá tirando conclusões por si mesma, que valem mais naestrutura do orçamento evolutivo.— Gostaria de ver mais nessa direção; é isso possível?Rosa agora soltou amigável gargalhada, adiantando:— Muito vai ter que agir por esses abismos, fazendo marchar gente queandou semeando trevas e que vive colhendo infernezas, antes que volte àcarne. Seu trabalho vai ser por aí mesmo, por um bom tempo, e depoisreencarnará. Mas, vamos até a saída do Vale. E vamos andando, que você nãopoderá voltar antes de tomar o quarto banho.Antes que eu perguntasse, ela falou:— Eu sei que tem muito a perguntar, Leonor; e darei as respostas, como aspossa dar, sempre que possível. Agora, sobre os efeitos do banho, digo que
 
têm a propriedade de tornar mais leve o seu corpo espiritual. É uma espécie dedescondensação, ou de mais fluidificação, para vir a ter mais saúde e a poder volitar quando quiser.— Em todos os casos? – perguntei.— Jamais! – respondeu, afável – Os casos variam de muito, para não dizer ao infinito. Alguns passam meses entre feridas e febres, enquanto outros, comoo seu caso, prestam-se a imediatas recuperações. E não faltam os perturbadosmentais, que vão para outros departamentos, compreende?Quando chegamos diante da casa onde recebi a roupa e as primeirasinstruções, Rosa me avisou:— Veja que temos doze casas alinhadas, com a frente voltada para o Vale;e lembre-se de que cada uma oferece uma escie de ajuda. Você precisava de uma roupa, mas há outros que precisam de comidas, bebidas,informes jeitosos, palavras de estímulo, fumos, padiolas, etc. Lembre-se deque, se tiveram que viver longos anos nas trevas, também o simples fato demerecer recolhimento significa medida de respeito aos seus usos e costumesnormais.— Por isso recebem a todos com verdadeira ternura? – inquiri.— Ternura! Ternura! – balbuciou ela, enlevada – Que palavra maravilhosa,para significar o amor que nós devemos ao trabalho em si e aos irmãos aosquais podemos e devemos ajudar, através do trabalho.Depois de breve e meditada pausa, retornou:— Sim, minha querida irmã, aqui estamos para estender as mãos, paraamparar, porque a Justiça Divina cabe a Deus, e não a nós, dela dispor. E bemsentimos nós, todos os trabalhadores destes locais, que viemos dos lugares depranto e de ranger dos dentes, que AMOR é a palavra mágica de queprecisamos, para, traduzindo-a por ternura, como você disse, convertê-la emvida feliz e esperançosa.Rosa tinha os olhos marejados, os seus grandes olhos verdes ecismadores, e eu tive que lhe perguntar:— De que a fiz lembrar, minha amiga? Lamento o que fiz...Ela assinalou que o, abanando a bela cabeleira castanho-clara,explicando:— Todos merecem ser tratados com ternura, depois de virem ter às nossasresidências e departamentos; mas é muito triste lembrar a chegada daquelesque a vida ou destino fez-nos ligar pelos elos consangüíneos mais íntimos.Estava a lembrar a chegada de minha mãe, faz uns cinco anos... Eu só osoube uns três meses depois, quando ela já estava muito melhor, e isso devi àternura de trato daqueles amigos que a receberam e a trataram. São estasatenções, Leonor, que trazemos em nossos corações, fazendo-nos reconhecer que as graças de Deus com bem pouco esforço podem ser vazadas por nós,Seus filhos ainda pequeninos.Enquanto apontou para um vulto que vinha surgindo das brumas, foiavançando nos conceitos, até considerar:
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