Bom, lembro-me que o trabalho era para ser entregue antes da partida do papa, mas só conseguientregá-lo depois que ele foi embora, pois aproveitei tudo o que recolhi sobre sua visita (parecia umcolecionador de raridades) e o resultado foi um considerável catatau de papel ao maço com muitasgravuras e muitos textos, também.A "professora", que queria certamente me dar uma bronca pela demora, ao ver o calhamaço fez carade espanto e perguntou quem havia me ajudado. Quando simplesmente e dando de ombros respondique ninguém, ela não acreditou e perguntou se podia mostrar ao padre, acho que com o intuito de meconstranger a dizer a verdade. Lembro-me que respondi que sim. Resultado: o trabalho, por váriassemanas, ocupou todo o mural de cartazes da igreja, fui muito elogiado e... nunca mais tive notíciasda minha obra-prima...O tempo passou e com ele muitas coisas vieram, muitas tribulações, aventuras e desventuras que medistanciaram da Fé e que também me retornaram a ela. Mas a minha amizade secreta com o papa"João de Deus" milagrosamente permaneceu inalterada. Li suas biografias com a mesma alegria eemoção de quem lê cartas de um velho amigo. Meus filhos nasciam e eu me lembrava dehomenagear meu amigo dando alguns de seus nomes a eles: Pedro Paulo, João Paulo, José Gabriel (onome de batismo do papa, aportuguesado, é Carlos José...). Acolhia suas encíclicas como se (digocom todo o respeito) recebesse uns bilhetes fraternais com dicas secretas de como ser feliz. Essagrande amizade dava-me segurança pelo simples fato de eu saber que aquele homem existia deverdade e não era só uma lenda.Parece estranho, mas nunca tive curiosidade de vê-lo pessoalmente, pois bastava lembrar-me de seurosto e era como se já estivéssemos face a face (e não estou exagerando!). Certa vez, quando jáadulto e cheio de responsabilidades como empregado em Goiânia, o mesmo João Paulo II visitounossa Capital e, por conta de meu ofício, não pude vê-lo com a multidão que acorreu aoestacionamento do Serra Dourada. Claro, a princípio fiquei desapontado com meu patrão; mas,vendo flashes ao vivo pela tv, tive a impressão de que aquelas pessoas estavam vendo pela primeiravez alguém que me era já tão íntimo a ponto de poder me chamar pelo apelido... Ele foi embora, masera como se nunca tivesse ido.De novo o tempo passou (e ele sempre passa, não é mesmo?...) e o grande papa João Paulo II chegouao termo de sua missão também grandiosa. Senti muito. Apesar de saber que nem um gigante comoaquele poderia suportar tal fardo por mais tempo, senti muito sua partida. Ainda que, em sua agonia,tudo era transmitido ao vivo quase que em tempo integral, era como se não tivessem me dado otempo para o devido preparo. Não era um pai que morria; era um
pai-melhor-amigo
.Então, acho que como escape da saudade, passei a encontrá-lo emsonhos, sempre bons sonhos, onde ele me consolava, exortava,corrigia, ensinava e se divertia muito de minhas infantilidadesespirituais. Até que, num dia de 2007, dadas algumas circunstânciasde perseguições espúrias que sofri, senti-me, pela primeira vez,simplesmente sozinho. E senti falta do meu amigo João de Deus.Sentia-me inseguro...Não durou muito tudo isso, graças à Deus! Certo dia, um irmãozinhoaqui de Trindade, que tem o carisma de atrair para si Relíquiasverdadeiras de santos e - o que é melhor! - distribuí-las, chamou-mepara conversar. Rozimar disse que havia recebido um presente e aovê-lo, sem saber o porque, lembrou-se de mim e decidiu que aquelepresente deveria ser
para mim
e não para ele. Então, me entregou um pequeno envelope e, ao abrí-lo, encantei-me com esta estampa que você vê acima, com a figura do meu amigo. E isso foi o
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