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VALOR116-2009-Atos Secretos e Normas

VALOR116-2009-Atos Secretos e Normas

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Published by: Fábio Wanderley Reis on May 03, 2013
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04/12/2014

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A cereja do bolo?
Fábio Wanderley ReisEm conversa sobre os atos secretos do Senado, alguém salientavacom exasperação que se trata do descumprimento de uma norma que visa a permitir a vigilância quanto à observância das normas. Com efeito, há algode peculiar e revelador nos fatos agora denunciados. Fazem-se normas paraassegurar conduta ajustada ao bem público; como tais normas comfrequência não são cumpridas, é preciso vigiar seu cumprimento. Faz-seentão norma que manda dar publicidade às ações relevantes; mas as pessoas deixam de cumprir também essa norma. Que fazer? Normamandando cumprir as normas?O que a situação contém de confuso e mesmo paradoxal tem a ver com o fato de que normas cuja efetividade dependa de vigilância são precárias como normas, não sendo objeto da adesão pronta e supostamenteespontânea que prescinde da reflexão e do cálculo. A vigilância, trazendo aameaça de sanções de um tipo ou outro (punições ou prêmios) conforme aconduta se afaste das normas ou se ajuste a elas, visa justamente a impor ocálculo nas decisões sobre como agir, o que implica salientar nessasdecisões as considerações de interesse: se faço isto ou aquilo, que em princípio corresponde ao meu interesse, sofro consequências negativas (vou preso...) e meu interesse é fortemente contrariado, melhor não fazer – amenos que possa esconder o meu ato. Num livro de anos atrás, “O Surgimento do RacionalismoOcidental”, Wolfgang Schluchter propõe a distinção entre moralidade,entendida como algo que diz respeito ao indivíduo, e ética, entendida comode natureza coletiva e, em alguma medida, convencional. Apesar do paradoxo envolvido na ideia importante de uma moralidade nãoconvencional, em que o indivíduo pondere os princípios de sua conduta demaneira reflexiva e autônoma perante a coletividade, a questão prévia edecisiva de como se caracteriza, do ponto de vista moral-ético, a política(ou a economia, ou a vida privada em geral) é a de tornar convencionaiscertas regras – fazer que elas se transformem propriamente numa ética, nosentido de Schluchter, difundindo-se na coletividade e tornando
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automática, natural e irrefletida a adesão a elas no plano da moralidade dosindivíduos, justamente, em grau importante, pela pressão difusa dacoletividade.A indagação complicada que os atos secretos sugerem é a de comolidar com as limitações da ética coletiva no condicionamento das ações dosindivíduos (de sua moralidade), o que envolve o reconhecimento de queessa ética pode ela própria ser precária como tal, ou seja, em sua difusão e penetração junto à coletividade. Resta, nesse caso, a possibilidade de que,em vez de contar com a adesão moral às normas e seus efeitos namotivação das pessoas, a intensificação da vigilância (que supõe o“artificialismo” da ação legal e institucional da aparelhagem do Estado)altere “apropriadamente” essa motivação por meio dos fatores cognitivosassociados ao cálculo dos interesses. Com a eficácia da fiscalização e dassanções ocorrendo de maneira duradoura e corroborando regularmente asexpectativas correspondentes que os agentes venham a desenvolver, pode-se eventualmente chegar ao que promete velho preceito sociológico:expectativas que se reiteram e corroboram acabam por se transformar em prescrições ou normas, e o resultado seria propriamente uma cultura ouética efetiva.Infelizmente, além da perspectiva de longo prazo e o que pode conter de desalentador, há pelo menos um aspecto adicional nas complicações doassunto. Pois a aposta em percepções e expectativas (cognitivas) queacabem por transformar-se em boas normas esquece algo que as análises e pesquisas mostram há tempos, isto é, o fato de que fatores de ordemcognitiva remetem a um problema de coordenação que se acha na raiz da própria precariedade da situação de que se parte. Se a consolidação dasnormas em normas reais e mesmo a eficácia da vigilância dependemamplamente da ação dos demais, que tende geralmente a ser ação “esperta”e orientada pelo interesse próprio, estarei sendo simplesmente otário outrouxa ao agir de maneira moral e condizente com uma ética que narealidade não prevalece. Em outras palavras, até mesmo a percepção que euchegue a ter da conexão entre minha ação imediata e meu interesse maior dependerá da percepção do grau em que existe uma cultura ou ética efetiva. 
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