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HISTÓRIA DE PORTUGAL
A. H. de Oliveira Marques
VOLUME IIDAS REVOLUÇÕES LIBERAIS AOS NOSSOS DIASA. H. DE OLIVEIRA MARQUESHISTÓRIA DE PORTUGALDESDE OS TEMPOS MAIS ANTIGOS ATÉ AO GOVERNODO SR. PINHEIRO DE AZEVEDOManual para uso de estudantes e outros curiosos por assuntos do passado pátrioPALAS EDITORES -- LISBOAPREFÁCIOA versão americana deste volume ficou concluída em Agosto de 1970, sendo posta àvenda na Primavera de 1973. O autor julgou necessário modificá-lasubstancialmente, ao verter o texto para português. Foram modificações dealargamento, essas, mais do que de doutrina ou de estrutura dos várioscapítulos. O período que vai de 1820 a 1926 é tão importante para a compreensãodo Portugal de hoje que entendeu o autor ser indispensável uma explicitação maislarga de matérias, mesmo em prejuízo do equilíbrio entre os dois volumes da obrae, até, entre os diversos capítulos do próprio segundo volume. Realmente, pede-se ao leitor que só considere *história+, do mesmo nível e com a mesma estruturado texto do volume primeiro, o que vai escrito até ao começo da década deTrinta. Para diante, a escassez de documentos e a dificuldade da perspectivaçãotiveram de reduzir o texto a um simples apontamento, a uma lembrança, quasecronológica, de eventos e de datas. Faltam, sobretudo, informes, indispensáveisnum manual de história, sobre as classes sociais e a sua estrutura a partir de1930. O autor renunciou a tentar escrevê-los, na ausência total de monografiasde base. Não passaria de impressionismo, mais ou menos bem arquitectado, o que asugestão o levasse a dissertar sobre esse assunto. Mesmo para o períodoimediatamente anterior, se reconhece a deficiência dos dados e a fraqueza dasinterpretações.Assim também se limitou o escopo da ilustração ao período anterior a 1926.
 
Gráficos e mapas ultrapassaram um pouco esse limite, mas apenas em casos raros.Não é sem apreensões que o autor submete ao público este segundo volume. Aexperiência do primeiro foi-lhe, sem dúvida, favorável. Mas os séculos eram maisrecuados, as questões menos candentes, os parcialismos menos fáceis. Entra-seagora nas épocas cruciais da história portuguesa, naquelas que, mas de longe,mais marcaram a nossa actual feição de Portugueses e de cidadãos. O século XIX eo século XX foram períodos de paixões e de ódios. Ainda somos pelo D. Pedro IVou pelo D. Miguel! Ainda tomamos partido contra ou a favor das Irmãs deCaridade! Ainda fremimos ante o Ultimato! Ainda pugnamos pela Monarquia ou pelaRepública! Ainda nos confessamos afonsistas, almeidistas, camachistas ouintegralistas! E quantos, de entre nós, não são pró ou contra o *Estado Novo+,criação de 1930?!Sem falsa modéstia nem pretensa humildade, mas perfeitamente consciente das suaslimitações e hesitações, o autor submete à crítica esclarecida as páginas que sevão seguir. Espera de todos, os que, com honestidade e sinceridade, se debruçarem sobreeste livro, as correcções que ele merece. O leitor verá, nas edições futuras que esta obrapossa vir a ter, todas as modificações que o melhor esclarecimento, a análisemais ponderada e o avanço dos estudos históricos lhe proponham. Disso, podeestar certo.Serra d'El-Rei, 14 de Agosto de 1973.CAPíTULO XA MONARQUIA CONSTITUCIONAL1 - Estruturas do passado e ordem novaA abertura dos portos do Brasil a todas as nações (1808), seguida pelotratado comercial com a Grã-Bretanha, dois anos mais tarde, arruinara as basesda economia portuguesa. Em 1820, a balança de comércio acusava um deficit de 21milhões de cruzados. Com a proclamação da independência do Brasil, novo golpefoi infligido na situação precária das fontes de receita nacionais. Aodesvanecerem-se os sonhos burgueses de recuperar a colónia perdida, com aassinatura do tratado do Rio de Janeiro que lhe consagrou a autonomia (1825),houve que encarar de frente a necessidade de criar para o País uma nova feiçãoeconómica. Para muitos, a solução estava num renascimento da agricultura. Oabade Correia da Serra, fazendo-se eco da atitude fisiocrática, defendera que,em qualquer nação que quisesse tirar proveito das suas riquezas, o primeiropasso consistia em conhecer com rigor a terra que habitava, o que ela produzia eaquilo de que era capaz. Portanto, explorar o solo e fomentar as actividadesagrícolas iriam tornar-se, no Portugal oitocentista, os objectivos primaciais aatingir. Mais do que nunca no passado, a economia portuguesa quis tentar a via
 
nacional interna; cépticos quanto às possibilidades de criar um novo império,tanto economistas como homens de estado procuraram olhar *para dentro+, para ametrópole, dar-se conta das virtualidades da nação em termos de agricultura,criação de gado, pesca, mineração e indústria (esta última um tanto mais tarde)e realizá-las.4Uma atitude e um programa deste tipo necessitam de ser sublinhados, já que seopunham a quase quatro séculos de exploração ultramarina e se aventuravam acriar um Portugal completamente novo. Iam contra a tradição e contra o hábito.Em boa verdade, tinham muito -de revolucionário e haviam de se escorar em outrasestruturas revolucionárias. O Portugal monárquico-constitucional foi, de facto,ou tentou ser, uma ordem nova revolucionária. Partiu do caos, do ponto maisbaixo no declínio económico e na subordinação política à Inglaterra.Valorosamente lutou por levantar um país novo. E a própria sobrevivência dePortugal no nosso século XX constitui prova bastante de que o conseguiu, emboranão tão completamente como o teria desejado.Agricultura -- Não seria possível desenvolver a agricultura - diziam fisiocratase liberais - sem a libertação total dos laços *feudais+ que enleavam, tanto ocamponês quanto a sua actividade plena de produtor. Em Portugal, como na Françada Revolução, e como de resto por toda a Europa, legislou-se amplamente com oobjectivo bem determinado de *libertar+ o trabalhador rural e de permitir umressurgimento agrícola. Leis desse tipo iriam afectar, não só a propriedade emsuas formas, mas também a sociedade rural em seus modos.A dizima à Igreja foi extinta. A sisa ficou reduzida a metade e confinada apenasaos bens de raiz. Todos os direitos feudais desapareceram: jeiras, monopólios defornos e lagares, relegos, pagamentos ao senhor ou ao rei, etc. Outras tradiçõesde tipo feudal foram igualmente abolidas, tais como coutadas e coudelarias. Oschamados *bens da coroa+ passaram a *bens nacionais+, revertendo para o Estadotodas as terras e todos os direitos que ainda pertenciam a comendatários e adonatários. A propriedade vinculada ficou reduzida aos morgadios opulentos, commais de 200$000 réis de renda líquida anual, adoptando-se diversas medidas comvista à sua extinção final num futuro próximo. Os deveres de toda a ordemconsignados nos forais foram extintos, bem como numerosas portagens, peagens ecostumagens que, em todo o País, incidiam sobre o comércio e a circulação,agravando-os e dificultando-os. Finalmente, garantiu-se li-5berdade fiscal às terras arroteadas de novo ou havia pouco tempo, por um períodode vinte anos.
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