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10/04/2013

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1
Revista de educação CEAP - Ano 11 - nº 43 - Salvador, dez/2003 (p. 55 - 65)
Antes de abordar o assunto propriamente dito,gostaria de apresentar um texto de Leonardo da Vinci,solicitando ao leitor que o mantenha no foco de suaatenção durante a leitura desse artigo, cujo tema é aapreciação da obra de arte tendo como ponto de partidaa proposta triangular de Ana Mae Barbosa.
 Não vês que o olho abraça a beleza do mundo inteiro? (...)É janela do corpo humano, por onde a alma especula e fruia beleza do mundo, aceitando a prisão do corpo que, semesse poder, seria um tormento (...) Ó admirável necessida-de! Quem acreditaria que um espaço tão reduzido seriacapaz de absorver as imagens do universo? (...) O espíritodo pintor deve fazer-se semelhante a um espelho que ado-ta a cor do que olha e se enche de tantas imagens quantascoisas tiver diante de si (apud Chauí, 1998
,
 p. 31).
É sobre esse absorver, sobre esse captar de quenos fala Da Vinci, que trabalharemos, abordando a me-todologia triangular para a leitura da obra de arte. Nos anos 70, ainda sob as influências da Escoli-nha de Arte do Brasil, de Augusto Rodrigues, o ensinoda arte se deu na perspectiva do fazer artístico. O tra- balho dos arte-educadores estava centrado nas propos-tas de experimentação expressiva como a mola propul-sora para o processo criador. Valorizava-se o desenvol-vimento da auto-expressão e da auto-descoberta. Mui-tas experiências positivas foram realizadas nesse senti-do, e muitos equívocos foram cometidos.A nossa avaliação é de que o
 fazer artístico
nosespaços educativos facilitou o aprendizado da arte, pos-sibilitando ao educando o desenvolvimento do
 pensa-mento e da linguagem presentacional 
, um dos siste-mas de conhecimento, conforme Susanne Langer (s.d.
,
 pp. 81-90).O outro sistema de conhecimento, diferente do presentacional, é o do
 pensamento/linguagem discursi-vo
, que caracteriza as áreas onde o discurso verbal émais presente e corresponde ao uso dos processos ló-gicos afeitos à ciência e aos campos verbal e escrito dalinguagem.Para compreensão do mundo, utilizamos os doissistemas de forma complementar. Embora se interli-guem, constatamos que o sistema discursivo
é
o maistrabalhado e desenvolvido nos processos educativos. Aênfase no discurso verbal termina por limitar a capaci-dade do educando no sentido do seu desenvolvimentointegral. Para que possa dar conta da complexidade dasmanifestações sócio-culturais, é importante que se for-me um indivíduo completo.O sistema presentacional estabelece uma relaçãode conformidade com a arte. Nas artes visuais, o pen-samento presentacional apreende e processa a infor-mação através da imagem. No teatro, a presentificaçãose dá por meio das presenças dos atores, do espaçocênico, do cenário, figurinos, objetos e iluminação, ele-mentos constitutivos da encenação.Ainda nos anos 1970 aflora, entre os profissio-nais ligados ao ensino da arte, uma preocupação e umquestionamento sobre a proposta educativa em artecentrada, apenas, no fazer.
Sem negar a
 
 produção
 
dasmanifestações artísticas
nas diversas linguagens (tea-tro, dança, música e artes plásticas), os educadoresiniciaram um processo de discussão e pesquisa que di-recionasse o ensino também para o conhecimento daarte e sua apreciação. Para Ana Mae Barbosa,
A produção de arte faz a criança pensar inteligente-mente acerca da criação de imagens visuais, mas somente
Apreciação da obra de arte: aproposta triangular
*
Mestre em Artes Cênicas – UFBA. Escritor, diretor teatral, artista plástico. Professor da Faculdade Social da Bahia. rmleao@ig.com.br 
Raimundo Matos de Leão
*
Antropofagia - Tarcila do Amaral (1929)
 
2
Revista de educação CEAP - Ano 11 - nº 43 - Salvador, dez/2003 (p. 55 - 65)
Apreciação da obra de arte: a proposta triangular - Raimundo Matos de Leão
a produção não é suficiente para a leitura e o julgamentode qualidade das imagens produzidas por artistas ou domundo cotidiano que nos cerca. (...)Temos que alfabetizar para a leitura da imagem. Atra-vés da leitura das obras de artes plásticas, estaremos pre- parando a criança para a decodificação da gramática visu-al, da imagem fixa e, através da leitura do cinema e datelevisão, a prepararemos para aprender a gramática daimagem em movimento.Essa decodificação precisa ser associada ao julgamen-to da qualidade do que está sendo visto aqui e agora e emrelação ao passado (1991
,
 pp. 34-35).
Essa preocupação em torno do conhecer, do apre-ciar e do fazer arte resultou, no Brasil, na proposta trian-gular de Ana Mae Barbosa, tendo como referência traba-lhos desenvolvidos por pesquisadores ingleses e ameri-canos preocupados com um currículo que privilegiasseo fazer artístico, a história da arte e a análise da obra dearte, visando não só o desenvolvimento dos educandos,mas as suas necessidades e seus interesses. Dessa for-ma, as atividades de arte na escola passam a ter um sig-nificado para o educando, deixando de ser uma atividadeincompreendida ou mero passatempo.A proposta triangular de Ana Mae Barbosa (1991) propõe os seguintes tópicos:
Conhecer arte
(história da arte) possibilita o en-tendimento de que arte se dá num contexto, tempo eespaço onde se situam as obras de arte.
 Apreciar arte
(análise da obra de arte) desenvolvea habilidade de ver e descobrir as qualidades da obra dearte e do mundo visual que cerca o apreciador. A partir da apreciação, educa-se o senso estético e o aluno pode julgar com objetividade a qualidade das imagens.
 Fazer arte
(fazer artístico) desenvolve a criaçãode imagens expressivas. Os alunos conscientizam-sedas suas capacidades de elaborar imagens, experimen-tando os recursos da linguagem, as técnicas existentese a invenção de outras formas de trabalhar a sua ex- pressão criadora. No ano de 1987, a proposta triangular foi ampla-mente utilizada no Museu de Arte Contemporânea daUniversidade de São Paulo em atividades com criançase adolescentes e para a formação de arte-educadores,que se tornaram multiplicadores do trabalho posto em prática na instituição, passando a ser um referencial para outras experiências educativas centradas na arte.As reflexões teórico-práticas referentes ao ensi-no da arte, levadas a efeito por Ana Mae Barbosa, estãoinscritas na vertente educacional realista-progressista,em consonância com a proposta de Paulo Freire. Emsíntese, apontam para a democratização do conheci-mento da arte, para a construção do conhecimento e,sobretudo, para o rompimento da prática tecnicista que permeia, ainda, o ensino da arte entre nós.Para melhor contextualizar a proposta trian-gular, abordaremos de forma simplificada dois mé-todos de trabalhar a leitura da obra de arte que dialo-gam com a proposta brasileira. O primeiro deles é o
método
 
comparativo
do americano Edmund Feldman(1970).Como o próprio nome já diz, o
método compara-tivo
é o trabalho que envolve o conhecer, o apreciar e ofazer através da comparação entre várias obras de artede diversos períodos para que o aluno perceba as dife-renças e as similaridades. Esse estudo centra-se noselementos da obra de arte e o desenvolvimento críticoé o cerne da metodologia. No entanto, ao centrar seutrabalho no desenvolvimento crítico, Feldman não negao desenvolvimento da técnica e da criação.Ao entrar em contato com a obra de arte, ao ver aimagem, o aluno desenvolve sua capacidade crítica, es-tabelecendo uma relação de aprendizagem com o objetoem questão. Para Feldman, esse desenvolvimento se dáatravés dos seguintes processos: ao ver atentamente, oaluno descreve; ao observar o que vê, ele analisa; aosignificar, interpreta, e ao decidir acerca do valor, julga.
Segunda Classe - Tarsila da Amaral (1933-!950)
O segundo método é o de Robert Saunders(1984), denominado de
método multipropósito
. Saun-ders define a sua metodologia como um programa deensino de arte onde o fazer se dá em função da leiturada obra de arte, articulado com outras áreas do conhe-cimento de maneira interdisciplinar. Enfatizando seutrabalho no olhar, ele propõe uma mudança da culturaverbalmente orientada para uma cultura visualmenteorientada e apresenta o uso da reprodução como ummeio para o ensino da arte.Em seu trabalho, Robert Saunders faz a defesa douso de boas reproduções de obras de arte, em papel, naatividade com os alunos, descartando o uso do
 slide
que, para ele, interfere na relação educador/educando, já que o
 slide,
para ser mostrado, necessita de um ambi-ente escuro. Além disso, ele defende o uso de uma mes-ma reprodução ao longo de várias séries, partindo do princípio de que o educando amadurece e, conseqüen-temente, fará uma leitura diferente da obra revisitada.
 
Apreciação da obra de arte: a proposta triangular - Raimundo Matos de Leão
3
Revista de educação CEAP - Ano 11 - nº 43 - Salvador, dez/2003 (p. 55 - 65)
O
método de multipropósito
deve ser posto em prática a partir do momento que o educador de arteestabelece um objetivo a ser atingido pelo educando.Ao escolher uma determinada obra de arte para ser estudada, ele deve ter claro quais os propósitos queorientaram a escolha e quais os objetivos a serem al-cançados. O passo seguinte seria a elaboração de umroteiro contendo os seguintes itens: informações so- bre o artista, descrição, interpretação e exercício deaprendizagem. Para cada um dos itens, o educador deve propor questões para que os alunos possam seaproximar da obra, fazendo a leitura dos seus aspec-tos constitutivos para finalmente se expressarem, for-malmente, através de objetos bi ou tridimensionais(desenho, pintura, colagem, gravura, escultura, ins-talações). Nas atividades artísticas em sala de aula, em quese trabalha a proposta de Barbosa, devemos interligar as vertentes do triângulo – conhecer, apreciar, fazer  – buscando-se nos processos cognitivos o equilíbrioentre razão, emoção e intuição. Encerrando-se as eta- pas do – 
Conhecer arte, Apreciar arte e Fazer arte
 – os alunos avaliarão os trabalhos, fazendo a leitura doque foi produzido, configurando-se uma nova etapado processo, que pré-figura a tríade: processo-pro-duto-processo.A seguir, descrevemos de maneira sintética, atítulo de exemplo, uma atividade, tendo como propostaa leitura de uma obra de arte da pintora paulista Tarsilado Amaral. Alertamos que tal atividade não pode ser tomada com uma receita. Cabe ao educador, que por ela se interessar, exercer o seu papel criador e transfor-mador ao realizá-la.Paulista de Capivari, Tarsila do Amaral nasceu em1886 e faleceu em 1973. Fez seus estudos artísticosem São Paulo: escultura com Mantovani; desenho e pintura com Pedro Alexandrino. Em 1920, viaja paraParis e estuda na Academia Julien e com Emile Renard.Em 1922, forma o grupo dos cinco, com Anita Mafalti,Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Pic-chia, grupo conhecido como deflagrador do movimen-to modernista nas artes brasileira.Em 1923, estuda com Fernand Léger e AlbertGleizes, em Paris. Torna-se esposa de Oswald de An-drade e ilustra a sua obra
 Pau-Brasil 
, iniciando a faseconhecida como pau-brasil. Em 1928, pinta o
 Abapo-ru
, óleo sobre tela, pertencente à Coleção Constatini,Argentina, dando início à fase antropofágica. A terceirafase, conhecida como a social, surge a partir de suaviagem à União Soviética em 1933. Dessa fase são osquadros
Operários
e
2
a
Classe
, óleo sobre tela, perten-cente a um colecionador particular.A obra de Tarsila redescobre o Brasil, já que ostemas pintados são retirados da sua vida na fazenda, doambiente interiorano, do contato com as negras quetrabalhavam para sua família e que lhe contavam histó-rias de assombração e lendas.Formalmente, Tarsila acrescenta à geometria docubismo a “cor local” e as linhas sinuosas da tradição barroca, fazendo o Brasil dialogar com o mundo atra-vés das correntes e dos estilos artísticos em voga. Ostemas iconográficos e as cores das manifestações po- pulares são incorporados ao seu trabalho, sem que omesmo caia num regionalismo às vezes empobrecedor. Na fase pau-brasil, embora alguns dos seus trabalhosapresentem traços de um lirismo infantil, de caricaturae irreverência, a artista sabe lidar, plasticamente, comesses dados, apresentando-nos uma obra vigorosa,compondo as telas com cores chapadas, enfatizando anitidez dos planos. Ao cubismo europeu, Tarsila soubeintroduzir elementos de visualidade brasileira. Na fase antropofágica, aparecem os elementosrepresentativos dos conceitos defendidos pelos mo-dernistas, como o da antropofagia: o conhecer e seapropriar dos cânones da cultura estrangeira, deglutin-do-os. Desse contato crítico, o artista colabora para acriação da arte brasileira, que possa igualar-se em qua-lidade com a estrangeira, diferenciando-se pela identi-dade das suas raízes. Fortemente surrealista e carre-gada de imagens do mundo imaginário e onírico deTarsila, surgem trabalhos como o
 Abaporu
,
 A negra
,
O ovo
, entre outras.As fases pau-brasil e antropofágica são os pon-tos culminantes da obra da pintora. A fase social estaimpregnada de um discurso pictórico que denuncia arealidade do brasileiro através de uma composição for-mal rigorosa e organizada.Mas nada melhor para falar de um artista do queum outro artista. Assim, deixamos o poeta Carlos Drum-mond de Andrade, citado por Nádia Battella Gotilib,expressar seus sentimentos sobre a pintora paulista:
Brasil / TarsilaTarsiladescendente direta de Brás CubasTarsilaPrincesa do café na alta de ilusõesTarsilaengastada na pulseira gótica do colégioem BarcelonaTarsilamedularmente paulistinha de Capivari re-aprendendoo amarelo vivoo rosa violáceoo azul purezao verde cantantedesprezados pelo doutor bom gosto ofici-al.(1998,,,,, p. 2)

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