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OTELOO Mouro de VenezaWilliam Shakespeare
ÍNDICEATO ICena ICena IICena IIIATO IICena ICena II
Otelofile:///C|/site/LivrosGrátis/otelo1.htm (1 of 72) [02/04/2001 16:23:58]
 
Cena IIIATO IIICena ICena IICena IIICena IVATO IVCena ICena IICena IIIATO VCena ICena IIPersonagens
O Doge de Veneza.BRABÂNCIO, senador. Outros senadores.GRACIANO, irmão de Brabâncio.LUDOVICO, parente de Brabâncio.OTELO, mouro nobre, a serviço da República de Veneza.CÁSSIO, seu tenente.IAGO, seu alferes.RODRIGO, fidalgo veneziano.MONTANO, governador de Chipre antes de Otelo.BOBO, criado de Otelo.DESDÊMONA, filha de Brabâncio e esposa de Otelo.EMÍLIA, esposa de Iago.BIANCA, amante de Cássio.Marinheiro, oficiais, gentis-homens, mensageiros, músicos, arautos, criados.
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ATO ICena I
Veneza. Uma rua. Entram Rodrigo e Iago.
RODRIGO - Cala-te! Não me fales. Aborrece-me demais verificar que justamente tu, Iago, quedispunhas à vontade de minha bolsa, como se teus fossem seus cordões, conhecesses isso tudo...IAGO - Mas escuta-me, ao menos! Se eu já sonhei alguma vez com isso, podes abominar-me.RODRIGO - Dito me havias que lhe tinhas ódio.IAGO - Despreza-me, se não for assim mesmo. Três pessoas de grande influência aqui vieram falar-lhe,chapéu na mão, com humildade, para que fizesse de mim o seu tenente. E por minha fé de homem, tenhoplena consciência do que valho; não mereço posto menor do que esse. Ele, no entanto, consultandosomente o orgulho e os próprios interesses, furtou-se com fraseado bombástico, recheado só de epítetosde guerra. Em conclusão: não entendeu aos meus intercessores. "Pois já escolhi meu oficial", lhes disse.E quem é ele? Ora, por minha fé, um matemático, um tal Micael Cássio, um florentino, um tipo quasepelo próprio inferno fadado a ser uma mulher bonita, que nunca comandou nenhum soldado um campode batalha e que conhece tanto de guerra como uma fiandeira; erudição de livros, simplesmente, sobre oque podem dissertar com a mesma proficiência que a dele os nossos cônsules togados; palavrório semsentido, carecente de prática: eis sua arte. No entanto, meu senhor, foi o escolhido; ao passo que eu, queaos próprios olhos dele provas cabais já dera em Chipre e Rodes e em muitos outros pontos habitados porcristãos e pagãos, terei de, agora, ficar a sota-vento e calmaria, só por causa do dever-e-haver de umsimples calculista, que - oh tempos! - vai tornar-se tenente, enquanto que eu - Deus me perdoe! -continuarei sendo do Mouro o alferes.RODRIGO - Pelo céu, preferira ficar sendo carrasco dele.IAGO - Já não há remédio. É a maldição do ofício: as promoções se obtêm só por pedidos e amizades,não pelos velhos meios em que herdava sempre o segundo o posto do primeiro. Ora, senhor, ajuizai vósmesmos se razões tenho para amar o Mouro.RODRIGO - Assim, eu não ficara sob suas ordens.IAGO - Ó senhor, acalmai-vos. Se me ponho sob suas ordens é só em proveito próprio. Mestres nemtodos podem ser, nem todos os mestres podem ter bons servidores. Já tereis visto por aí bastantes sujeitosobsequiosos, de flexíveis joelhos que, apaixonados pela própria escravidão, o tempo todo gastam como oasno do amo, só pela comida; e, quando ficam velhos: despedidos. Chicote nessa gente muito honesta!Outros há que sabendo a forma externa revelar do dever, as feições próprias, o coração conservamsempre atentos no proveito pessoal; enquanto aos amos dispensam mostras de serviço, apenas, prosperammuito bem, e, ao mesmo tempo que os casacos lhes forram, a si próprios prestam boa homenagem. Essestipos têm alguma alma, e entre eles eu me incluo, posso afiançar-vos. Pois senhor, tão certo como serdesRodrigo, se em verdade eu fosse o Mouro, não queria um Iago so minhas ordens, pois seguindo-o, apenassigo a mim próprio. O céu é testemunha: não me move o dever nem a amizade, mas, sem o revelar, só ointeresse. Se as mostras exteriores de meus atos me traduzissem os motivos próprios do coração emtraços manifestos, carregaria o coração na manga, para atirá-lo às gralhas. Ficai certo: não sou o que sou.
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