3
COLABORAÇÃO
Tribuna da Saudade
Ferreira Moreno
E
screvendo p’ró “Di-ário Insular” (28/Ju-lho/2001), Rui Messiasanotou que “a primeirareferência documental sobre afreguesia da Feteira encontra-sedatada de 1413. Um portulano re-
alizado por um mercador oren
-tino situa os ilhéus das cabras, ou pedras toscas, que se encontramdiante da Feteira. Algumas déca-das mais tarde, o rei D. Manuel Ivai doar os ilhéus ao morgado e provedor Pires do Canto. Segundo se lêno Dicionário Enciclopédico dasFreguesias, Fernão de Hutra terávivido desterrado durante seteanos nesse local”.Carreiro da Costa (Etnologia dosAçores, Volume I, pgs. 17-18, Ed.1989), apontou que, na Terceira,“os ilhéus mais importantes sãoos chamados das Cabras, situa-dos a sudeste de Angra em frenteda freguesia do Porto Judeu. Osilhéus das Cabras são em núme-ro de dois. O maior, a nascente,tem cerca de 150 metros de alturae possui, além de várias furnas,uma grande câmara vulcânica praticável p’ra pequenas em- barcações. A área total dos doisilhéus é de cerca de 22 hectarese o canal que os separa, bastante profundo, é de perto de 200 me-tros de largura.A razão do nome, Ferreira Deu-sdado foi buscá-la à remota de-signação de Insula Capraria que,
anal, é atribuída à ilha de S. Mi
-guel, versão que, por consequên-cia, tem muito de fantasia. Gas- par Frutuoso refere-se a eles, masnão lhes dá qualquer designação.Donde se conclui que o topónimoterá talvez a sua origem no fac-to de ali porem cabras a pastar,tanto mais que existe num delesuma enorme cisterna de água sa-lobra”. No que diz respeito à histórialendária de Fernão de Hutra, queacabou os dias da sua vida des-terrado nos ilhéus das Cabras, eque Ferreira Deusdado descreveuno seu livro publicado em 1907ao título “Quadros Açóricos”, eisuma narrativa abreviada...Aparentemente, Fernão de Hutrafoi um leviano moço faialenseque se apaixonara por uma freira,e tencionando raptá-la fez pactocom o diabo. Mas foi mal suce-dido e forçado a sair da cidadeda Horta com destino a Angra,continuando na vadiagem e ena-
morando-se com uma das lhas
do alcaide-mor. Este, p’ra evitar trágico desenlace, foi ter com ocunhado que era proprietáriodos ilhéus das Cabras, e ambosconseguiram prender o boémioHutra, transportando-o seguida-mente p’rós ilhéus.O desgraçado, doido de raiva, ali permaneceu durante sete anos esempre em pacto com o diabo,até que uma noite sentiu-se arre- pendido e morreu depois de ter sido absolvido e ungido por umfradinho, que misteriosamentelhe aparecera.Facto curioso: nas imediações dosIlhéus das Cabras encontram-seuns penhascos chamados preci-samente ilhéus dos Fradinhos!Outra curiosidade: discorrendoàcerca da ilha das Flores, Fran-cisco Ferreira Drumond assina-lou que “além da pequena baixadenominada a Fraga tinha estaum pequeno ilhéu pegado a terrachamado das Cabras, porque láandam estes animais e ovelhas pastando, mas não é de grande proveito”. (Apontamentos, pg.424, Ed. 1990).E agora umas ligeiras conside-rações à memória do autor de“Quadros Açóricos”, que Vitori-
no Nemésio apelidou “uma nís
-sima aguarela com valiosíssimasnotas de reconstituição históricadebuxadas à margem”.O dr. Manuel António FerreiraDeusdado nasceu em 1860 emRio Frio, freguesia do concelho,comarca e distrito de Bragança.Em 1901 foi colocado profes-sor do Liceu Nacional d’Angrado Heroísmo, tendo falecidoem 1918. (Joaquim Moniz de Sá
Corte-Real e Amaral, Biograas
& Outros Escritos, Edição 1989).
Deixou uma vasta bibliograa deobras cientícas e literárias.
As transcrições das lendas crono-
grácas (Quadros Açóricos), pu
- blicadas originalmente na revistaangrense “A Semana” sob o crip-tónimo “Cavaleiro de Miranda”,foram traduzidas em castelhano por Jimenes Blasco com o títu-lo “Leyendas de las islas de losAzores”. Numa informação de Nemésio,(Estrela d’Alva, 28 de Outubro de1916), Deusdado era casado comuma senhora bondosa e ilustradae das melhores famílias do
arquipélago. Não tiveram lhos,
mas acolheram no seu lar comoseus, três sobrinhos órfãos.Alegadamente, o apelido Deusda-do derivou dum antepassado quetinha por costume usar a expres-
são “Deus-dará” a m de animar
os soldados que comandava noBrasil. Por mercê de D. João IV,os descendentes obtiveram o di-reito de usar brasão de armas e acélebre frase passou a fazer partedo nome da família, posterior-mente transformado no apelidoDeusdado.
À Volta dos Ilhéus das Cabras
(2)
Leave a Comment