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Soberania de Deus e a Liberdade Humana na PerspectivaCalvinista
Presb. Fábio Correia(1)
 
1 Introdução
 Ao analisarmos a história, tanto do pensamento religioso como dopensamento filosófico, perceberemos que existe certo modelo cíclico naabordagem de grandes temas da humanidade e o uma linearidadeabsoluta, que preconizaria a existência de temas totalmente novos e denúmero praticamente incontável. Mas, certamente, não é isso que ocorre.As mesmas questões são objeto de investigação nas mais variadas culturase gerações. Essa recorrência acaba estabelecendo um númeroextremamente limitado do que podemos chamar de “os grandes problemasda humanidade”.Segundo Wright, fazem parte dessa lista:A relação da unidade do mundo com a diversidade de nossa experiênciaindividual, como podemos estar certos do conhecimento que temos, se háDeus ou não, a natureza da “substância” de que o mundo é feito e comodevemos navegar nas questões éticas (WRIGHT, 1998, p.19).Kayper trata esse assunto de forma ainda mais sintética e apresenta aseguinte lista: “Nossa relação com Deus, nossa relação com o homem enossa relação com o mundo” (KUYPER, 2002. p, 28).Todas as outras discussões são derivadas, direta ou indiretamente, dessasgrandes abordagens. Um dos mais persistentes desses problemas e quetem ocupado a mente dos mais importantes pensadores, é o que tratasobre a liberdade das ações humanas em contrapartida com a causalidade.É nossa vontade realmente livre de causas e influências, ou são todas asnossas ações “predeterminadas” de algum modo?Na filosofia, o debate reaparece no binômio paradoxal entre autonomiaversus determinismo. A máxima da antropologia socrática: “conhece-te a timesmo”, apresenta uma consciência humana autônoma, de forma que ocaminho da verdade suprema deve ser encontrado “dentro” do própriohomem. Coube a Nietzsche, entretanto, a libertação absoluta de toda equalquer forma de transcendência. O criador do “super-homem” chega a “matar” Deus em busca do diploma da liberdade absoluta, para outorgá-loao homem:Eu vos apresento o Super-homem! O Super-homem é o sentido da terra.Diga a vossa vontade: seja o Super-homem, o sentido da terra. Exorto-vos,meus irmãos, a permanecer fiéis à terra e a não acreditar em que vos falade esperanças supraterrestres. São envenenadores, quer o saibam ou não.o o o menor valor à vida, moribundos que eso, por sua vez
 
envenenados, seres de que a terra se encontra fatigada; vão se por umavez! (NIETZSCHE, 1994, p.30).E ainda:Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós!Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que omundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiuexangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue?Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogossagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste acto não serádemasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, paraparecermos apenas dignos dele? Nunca existiu acto mais grandioso, e,quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê desteato, de uma história superior a toda história até hoje! (NIETZSCHE.Fredrich. A Gaia Ciência, §125).A ciência(2), por sua vez, toma emprestado, da filosofia, o termodeterminismo e o transforma na principal base do conhecimento científicoda natureza, para afirmar a existência de relações fixas e necessárias entreos seres e os fenômenos naturais, isto é, o que acontece não poderia deixarde acontecer porque são conseqüências de causas anteriores.Nosso maior enfoque, porém, neste ensaio, será teológico. O problema étratado, primordialmente, entre as culturas religiosas, como sendo a relaçãoentre a vontade humana e a soberania divina, ou ainda, maisespecificamente, como a relação entre livre-arbítrio e predestinação oupredeterminação.Não é raro encontrarmos posturas extremadas, ora beneficiando a totalsoberania divina e a negação total da liberdade humana, o que faria deDeus o autor do pecado e do mal ora evidenciando a total liberdadehumana, o que não só nega a soberania de Deus como o reduz a um mero “registrador” da vontade do homem.Um dos principais exemplos da negação total da vontade humana pode serencontrado no Hinduísmo. Considerada a mais velha religião ainda existenteno mundo, tem no conceito de estratificação social das casta(3) o exemplomáximo da aceitação do condicionamento, por fatores externos, da vida.Um indivíduo que nasce em uma determinada casta, julgada inferior, jamaispode ascender para uma casta superior, e, isso, determinará todo o seufuturo.Os muumanos(4) também figuram entre os principais exemplos denegação da vontade humana. Para eles, não há espaço para a atuação “livre” do homem, uma vez que professam um determinismo absoluto, quenão deixa lugar no mundo para as verdadeiras relações de causa e efeito, jáque todas as ações, boas e más, foram “criadas” pelo insondável decreto deAlá.o podemos deixar de citar aqui também, entre aqueles que negamcompletamente qualquer tipo de liberdade humana, o hipercalvinismo(5).
 
Em contrapartida à negação total da liberdade do homem, temos o outroextremo: as tendências religiosas que intensificam o livre-arbítrio de talforma que chegam a ofuscar a soberania de Deus, como o pelagianismoromano e, principalmente, o arminianismo da maioria das igrejasevangélicas pós-reforma protestante. Nesse sentido, Wright denuncia a “manipulação geticaque essas igrejas eso fazendo em Deus,retirando-lhe atributos que são próprios e exclusivos de sua natureza divina,simplesmente para “acomodar a suposição da autonomia humana” (WRIGHT, 1998, p.14).Como pudemos perceber acima, a busca clica do homem por novasrespostas a antigos problemas – ora beneficiando a liberdade do homem oraexcluindo-a por completo, em nome da soberania divina, tende a continuar.O homem só se fixará em um sistema de resposta convincente quandoentender, como afirma A.W.Pink, em seu famoso livro
“Deus é Soberano” 
,que as duas sentenças são verdadeiras, em certo sentido: O homem é livree responsável pelos seus atos e, ao mesmo tempo, Deus é Soberano.O Calvinismo é esse poderoso sistema, não somente teológico, mas de vida.Hermeticamente fechado, atende aos interesses mais profundos dahumanidade, tanto da alma quanto da racionalidade. O Calvinismoreconhece Deus como Deus, soberano, acima de tudo e de todos; aomesmo tempo em que entende o homem, na sua situação pré-queda, comolivre e pós-queda, como uma criatura decaída. O Calvinismo entende ohomem e o próprio Deus, pelo prisma das Sagradas Escrituras; ao mesmotempo que se distancia do misticismo, abrindo, com isso, uma importante janela para o desenvolvimento e a racionalidade, aproxima-se, de formaprofunda e coerente, com a antropologia e teologia da revelação escrita.Kuyper, comentando sobre o sistema de vida calvinista, faz a seguinteafirmação:Não há dúvida, então, de que o Cristianismo está exposto a grandes erios perigos. Dois sistemas de vida eso em combate mortal. OModernismo está comprometido em construir um mundo próprio a partir deelementos do homem natural, e a construir o próprio homem a partir deelementos da natureza; enquanto que, por outro lado, todos aqueles quereverentemente humilham-se diante de Cristo e o adoram como o Filho doDeus vivo, e o próprio Deus, estão resolvidos a salvar a “herança cristã”.Esta é a luta na Europa, esta é a luta na América, e esta também é a lutapor princípios em que meu próprio país está engajado, e na qual eu mesmotenho gasto todas as minhas energias por quase quarenta anos.Nessa lutaapolotica não temos avançado um único passo. Os apologistasinvariavelmente começam abandonando a defesa assaltada, a fim deentrincheirarem-se covardemente um revelim atrás deles. Desde o início,portanto, tenho sempre dito a mim mesmo, -“Se o combate deve sertravado com honra e com esperança de vitória, então, princípio deve serordenado contra princípio. A seguir, deve ser sentido que no Modernismo, aimensa energia de um abrangente sistema de vida nos ataca; depoistambém, deve ser entendido que temos de assumir nossa posição em umsistema de vida de poder, igualmente abrangente e extenso. E estepoderoso sistema de vida não deve ser inventado nem formulado por nós
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