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O Adventista e as Joias

O Adventista e as Joias

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09/30/2013

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1
www.AdventismoHoje.com © André Reis, 2013.
D
esde os primórdios do movimentoadventista, a abstenção do usode joias, adornos, maquiageme pinturas estabeleceu-se comomarca registrada da identidade adventista.As razões para essa prática encontram-seprimariamente em duas passagens do Novoestamento, 1 imóteo 2:9, 10 e 1 Pedro3:3, 4. al tradição intepretativa chegou aoAdventismo através do Metodismo e JohnWesley da qual Ellen White ora seguidoraaté sua conversão ao Milerismo em 1840.Evidência dessa inuência é que a revistaocial adventista da época, a
Review and Herald 
publicou em 1855 o sermão completode Wesley intitulado “Sobre o Vestuário”.
1
 Na Conerência Geral de 1866 são adotadosdoze pontos normativos sobre o vestuárioe adornos.
2
O ponto número sete, porexemplo, condena inclusive o “cavanhaque eo bigode” como sendo um “grave erro contra asobriedade cristã”.Em 1874, Ellen White escreveu: “Aabnegação no vestir az parte de nosso devercristão. rajar-se com simplicidade e abster-se de ostentação de jóias e ornamentos detoda espécie está em harmonia com nossaé.”
3
Quase cem anos depois, a liderança daigreja adventista mundial reunida no Concílioda Primavera de 1971 adotou três princípiossobre vestuário, renovando a proibição quantoao uso de “colares, brincos, braceletes, anéisornamentais” enquanto permitiu outros tiposde adorno tais como “relógios ornamentais,broches, abotoaduras, etc.,” desde queescolhidos segundo “princípios cristãosde modéstia e simplicidade”.
4
Em 1980, acodicação da doutrina adventista na ormade 27 crenças undamentais incluiu também arecomendação pela abstenção ao uso de joias(crença número 22).No território da Divisão Sul Americanados adventistas do Sétimo Dia, a constanteênase no assunto de vestuário e ornamentosculminou com a adoção do documentointitulado
Estilo de Vida adventista
em 2012cuja seção cinco e seis tratam do vestuárioe joias e ornamentos respectivamente,renovando o compromisso com a abstençãodo uso da joia. (rataremos desse documentomais abaixo neste artigo.)Esse artigo tratará da questão dos adornosde quatro pontos de vista: (1) pano de undosócio-cultural das igrejas da Ásia; (2) breveanálise linguística e exegese das passagens emquestão; (3) Ellen White, joia e adornos; (4) odocumento
Estilo de Vida adventista
.
 Textos, Contextos e Pretextos
As duas passagens principais usadaspara deender a abstenção das joias na igrejaadventista são 1 imóteo 2:9, 10:
Quero, do mesmo modo, que asmulheres se ataviem com traje decoroso,com modéstia e sobriedade, não comtranças, ou com ouro, ou pérolas, ouvestidos custosos, mas como convém amulheres que azem prossão de servir aDeus, com boas obras.
E 1 Pedro 3:3, 4:
O vosso adorno não seja o eneiteexterior, como as tranças dos cabelos, ouso de jóias de ouro, ou vestidos, mas sejao do íntimo do coração, no incorruptível traje de um espírito manso e tranqüiloque é de grande valor para Deus.
A abordagem adventista histórica a essespoucos versos é bastante simples e baseia-seno método “texto-prova” de interpretaçãobíblica. Em suma, esse método requer umaleitura literal do texto bíblico, requentementedissociada das implicações literárias (internas)e sócio-culturais (externas) do contexto dapassagem, e leva à aplicação simples e diretado que está sendo dito à presente realidadedo leitor. Em outras palavras, o método texto-prova pode levar à criação de uma doutrinaou um dogma a partir de um ou dois versosda Bíblia. Exemplos de extremos dessaprática interpretativa são as comunidadespentecostais manuseadoras de serpentes naregião da Appalachia nos EUA que aplicamMarcos 16:17-18 de orma literal bem comoas igrejas pentecostais que praticam o alarem línguas (1 Cor 12-14).
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 _________________________ 
 André Reis
é Bacharel em Teologia pela Universidade Adventista de São Paulo, Mestre em Música pela Longy School o Music e atualmente é candidato ao Ph.D.em Novo Testamento pela Universidade Adventista de Avondale. Como autor,contribuiu dois capítulos para o livro “En Espíritu y en Verdad” (Pacifc Press, 2013)e é moderador do site www.AdventismoHoje.com e colunista do site Adventist Today(www.atoday.com).
Um estudo sobre o uso de adornos na igreja adventista à luz das Escrituras.
 
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www.AdventismoHoje.com © André Reis, 2013.
Mas seria esse um método segurode interpretação das Escrituras? Abaixoanalisaremos as passagens a m de extrairprincípios que possam ser aplicados deorma viável para a conduta adventistaatual respeitando, contudo, a intençãooriginal dos autores bíblicos.
Contexto Sociocultural daIgreja Cristã Primitiva
O pano de undo cultural das cartasde 1 imóteo e 1 Pedro revela aspectosimportantes sobre o contexto imediato dasigrejas da Ásia Menor no primeiro séculoda era cristã. O texto
Eesíaca
de Xenoontede Éeso (c. segundo século AD) contémimportantes paralelos com a terminologiausada no N para o adorno eminino.Os mesmos termos gregos utilizados porPaulo em 1 imóteo para se reerir aoadorno eminino estão presentes nessetexto para descrever os adornos usados noculto a Artemis de Éeso. De ato, Pauloparece contrastar a dedicação idólatraa Artemis de Éeso (gr.
eusebeia
) com oserviço a Deus (gr.
theosebeia
, 1 im 2:10).Além disso, por serem reprimidassocialmente, as mulheres viam nas joias a oportunidade para a liberaçãosocial. Enquanto os homens buscavamreconhecimento público através deinsígnias, as mulheres buscavam nas joiassua realização pessoal. Plínio, o Moço relataque as mulheres “gastavam mais dinheiroem brincos de pérola do que outro aspectopessoal.”
5
Outros escritores tais como Sêneca,Dio Crisóstomo, Juvenal, Plutarco e outrostambém demonstraram repúdio ao adornoeminino na época pois ele era caracterizadopor conotações sócio-políticas e até mesmoreligiosas.
6
De ato, é surpreendente que asdeclarações de Paulo e Pedro são bastantesimilares ao que Plutarco escreveu em seutomo
 Moralia
:
Não é o ouro ou pedras preciosasou escarlata que a tornam assim[decorosas], mas tudo o que a envolvedaquilo que simboliza a dignidade,bom comportamento e modéstia
.
7
Sêneca elogiou sua mãe por haverdemonstrado repúdio à ostentação exterior.
8
 Para Paulo, as quatro virtudes da cultura greco-romano, a saber, a prudência (
 phrosis
), amoderação (
sōphrosynē
), a coragem (
andreia
)e a justiça (
dikaiosynē
) eram virtudes a serimitadas pelas mulheres cristãs.
As críticas ao adorno eminino doprimeiro século eram também uma reaçãodos maridos romanos rente à liberdadeeminina na “nova mulher romana” que secontrapunha à gura tradicional da mulherromana modesta. Os maridos romanospodiam proibir suas esposas de se engajarem muitas atividades, tais como beber vinhoe usar adornos; certas leis locais proibiama mulher de usar ouro e vestidos oridospor sua associação com a prostituição.
9
 al tendência de controlar os avançosda eminilidade romana pode ser vistano ato de que moedas e esculturasbuscavam inuenciar as esposas romanasrepresentando os penteados modestos esimples das mulheres dos emperadores.
10
Édigno de nota que em suas recomendaçõesàs mulheres de Éeso, Paulo reluta emquebrar completamente esse paradigmasocial, mas as insta a “submeterem-se”aos seus maridos através da moderação edecência (1 im 2:11). O mesmo ocorreem suas recomendações que as mulheresde Corinto continuem a usar o véu emlugares públicos segundo as normassociais da época (1 Cor 11:5, 6).A extravagância nos adornos e o usode certos trajes tinham a conotação desensualidade mesmo para a vã e idólatramente romana. E não era só para osromanos, essa idéia pode ser vista no texto judaico
O estamento de Ruben
5 (c. 200AD) que arma que mulheres dominadaspelo espírito de ornicação usavam do adornopara “enganar as mentes [dos homens]”. Asmulheres romanas casadas deveriam usara
stola
, um traje comprido que se vestia porcima de outras vestes que havia se tornado osímbolo da modéstia; enquanto as
hetairai
,as prostitutas, vestiam-se de orma peculiarcom muita ornamentação e vestidos comtons de púrpura e dourados.
11
 
Assim, temos que levar em consideraçãoas grandes questões sociais presentes nomundo greco-romano e a contrastá-las comnossa realidade hoje. Como explicam Leae Grifn, “Padrões aceitáveis de modéstia variam com o lugar e a geração, mas Paulodesejava que as mulheres cultivassem otemor de Deus em lugar da vaidade.”
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Nãopoderíamos seguir os mesmos padrõessociais de Éeso sem ter que limitar aparticipação eminina no culto e em cargosde liderança na igreja, já que a mulher deveprimordialmente “aprender em silêncio”(1 im 2:11). Além disso, Paulo tambémrecomenda que homens “homens orem emtodo lugar, levantando mãos santas” (v. 8).Por que não insistimos hoje nessa prática queaz parte do mesmo contexto?
Com o contexto cultural acima, agorapodemos analisar aspectos linguísticos dostextos em questão.
Penteado romano, c. 90 AD similar ao referido notexto bíblico. (Museu Capitolino, Roma)
.
O princípio da busca pelasqualidades interiores éuma faca de dois gumes:seu fio atinge àquelescristãos que tentam fazer do exterior o centro da suaidentidade através do adornoexageradamente aparatoso,mas também atinge àquelesque tentam fazer da
abstenção 
 do adorno o centro da suaidentidade.
 
3
www.AdventismoHoje.com © André Reis, 2013.
A Infuência Semítica no Novo Testamento
A questão que regerá essa seção é: Aodizer “
não seja o eneite exterior 
” e
não comtranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidoscustosos
 ,
estariam Pedro e Paulo de atoproibindo sumariamente uso de adornos?Para responder essa pergunta, temos queanalisar uma característica do pensamentohebraico. Vários eruditos
13
demonstraramde maneira convincente a existência do quechamam da
negação dialética
ou
negaçãorelativa
14
, uma característica comum aopensamento e língua hebraicos (hebraísmo).Zerwick explica:
Em proposições disjuntivas
15
 , é uma peculiaridade semítica expressar um membro de orma negativa a m decolocar maior ênase no outro, dizendo“não A mas B” onde o sentido é “não tanto A mas B” ou “B em vez de A”.
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Em outras palavras, a idéia é “não tanto[ou primordialmente] A mas muito mais[ou preerivelmente] B” ou “muito mais Bdo que A”. Assim a construção rasal nãoencapsula uma negação absoluta de A massimplesmente prioriza B: o autor quer darprioridade e ênase a um elemento sobre ooutro sem anulação mútua. Gousset explicaque essa característica denota “uma gura delinguagem, como hipérbole, um exagero a mde dar maior ênase ao ponto pretendido.”
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 Sobre esse ponto Flacius arma que taisnegações encontradas no A quando lidassem considerar-se condicionalidade ou ocontexto seriam simplesmente “alsas ouabsurdas”.
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É isso que vemos em Jer 7:22-23por exemplo quando Deus arma:
Pois não alei a vossos pais no diaem que os tirei da terra do Egito, nemlhes ordenei coisa alguma acerca deholocaustos ou sacriícios. Mas isto lhesordenei: Dai ouvidos à minha voz, e euserei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo; andai em todo o caminho que eu vosmandar, para que vos vá bem.
Uma leitura sem o pano de undolinguístico poderia considerar a armaçãocomo uma prova de Deus
nunca
alou desacriícios aos Israelitas. Mas essa conclusãoseria alsicada pelo estabelecimento doritual do tabernáculo pelo próprio Yahwehno Pentateuco. Mas a ênase em Jeremias éno ato de que, embora Deus tenha de atodado
muitas
instruções sobre “holocaustos esacriícios” desde que os Israelitas chegaramao Sinai, estes em si não eram o centro doseu relacionamento com o povo mas sim aobediência do dar ouvidos à voz de Deus. Emoutra palavras, Deus está dizendo “Não alei
tanto
de holocaustos e sacriícios aos vossospais mas muito mais de
obediência
.” Outrosexemplos da
negação relativa
no Antigoestamento são:Osé 6:6: “Pois misericórdia quero, e nãosacriícios; e o conhecimento de Deus, maisdo que os holocaustos.Gên 45:8: “Assim não ostes vós que meenviastes para cá, senão Deus.”
1 Sam 8:7: “Ouve a voz do povo em tudoquanto te dizem, pois não é a ti que têm rejeitado,porém a mim, para que eu não reine sobre eles.”
2 Crôn 19:6: “Vede o que azeis; porquenão julgais da parte do homem, mas da partedo Senhor.”al semitismo está presente tambémno N pois a maioria dos seus autores eramde origem semítica. Jesus por exemplo,alou em aramaico tudo o que temos noN que oi posteriormente traduzido parao grego. Outro exemplo disso é o livrodo Apocalipse que no original grego estárepleto de construções gramaticalmenteincorretas que apontam para orte inuênciado hebraico e pensar semítico do autor.
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 Essa inuência tem importantes implicaçõespara o correto estudo e tradução do N.Exemplos da
negação relativa
no N estãoem Lucas 10:20 que diz na ARA: “Contudo,não vos alegreis porque se vos submetem osespíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus.” Sob o prismada expressão semítica em questão, o versodeveria ser lido da seguinte orma: “Contudo,não vos alegreis
 primordialmente
porque se vos submetem os espíritos;
antes muito mais
alegrai-vos por estarem os vossos nomesescritos nos céus”; João 6:27: “rabalhai, não
tanto
pela comida que perece, mas
muito mais
 pela comida que permanece para a vida eterna(Veja também Lucas 12:4; 14:12; 23:28; Mat10:20; Mar 9:37; João 7:16; 12:44; 1 Cor. 1:17).A ênase é “não tanto A [a justicada alegriapela submissão dos espíritos/a alimentação]mais muito mais B [os nomes estaremescritos nos céus/a vida eterna]”. Outroexemplo dessa dialética está em Mat 23:23:
 Ai de vós, escribas e ariseus,hipócritas! porque dais o dízimo dahortelã, do endro e do cominho, e tendesomitido o que há de mais importantena lei, a saber, a justiça, a misericórdiae a é; estas coisas, porém, devíeis azer, sem omitir aquelas
(Mat. 23:23
 ).
Podemos ver a inuência dessacaracterística semítica também nos escritos dePaulo. Em 1 Cor 1:17a ele diz: “Porque Cristonão me enviou para batizar, mas para pregaro evangelho.” Sob o prisma do pensamentohebraico, a declaração deve ser lida “PorqueCristo não me enviou
 primordialmente
 para batizar, mas
muito mais
para pregaro evangelho.” A idéia aqui não é negaçãoabsoluta do chamado para batizar, já quePaulo continua armando que de ato batizou várias pessoas em Corinto (c. vv. 14-16), massim prioridade do chamado: a pregação.
20
 Veja também 1 ess 4:8: “Portanto, quemrejeita isso não rejeita [
 primordialmente
] aohomem, mas [
muito mais
] a Deus, que vos dáo seu Espírito Santo.
1 imóteo 2:9, 10
A inuência da
negação relativa
écrucial para a correta exegese das passagensde 1 imóteo 2:9, 10 pois como vimos, éuma característica da maneira Paulina dese expressar. Assim poderíamos ler suadeclaração sobre o adorno das mulheres deÉeso em 1 im 2:9, 10 da seguinte orma:“Quero, do mesmo modo, que as mulheres se
Mulher romana do segundo século AD usandoo
 peribolaion,
o
 
 véu reerido por Paulo em1 Cor 11. Ela também usa a
stola
que cobre amaior parte do seu corpo.

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