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CESB - INSTITUTO DE EDUCAÇÃO SUPERIOR DE BRASÍLIADEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIALMídia e Cidadania, 3º semestre – Texto da primeira prova
Sobre o óbvio
Por Darcy Ribeiro*
Nosso tema é o óbvio. Achomesmo que os cientistas trabalhamé com o óbvio. O negócio deles –nosso negócio – é lidar com o óbvio.Aparentemente, Deus é muitotreteiro, faz as coisas de forma tãorecôndita e disfarçada que seprecisa desta categoria de gente –os cientistas para ir tirando osvéus, desvendando, a fim de revelara obviedade do óbvio. O ruim desteprocedimento é que parece um jogosem fim. De fato, só conseguimosdesmascarar uma obviedade paradescobrir outras, mais óbvias ainda.Para começar, antes de entrarna obviedade educacional – que énosso tema vejamos algumasoutras obviedades. É óbvio, porexemplo, que todo santo dia o solnasce, se levanta, dá sua volta pelocéu, e se põe. Sabemos hoje muitobem que isto não é verdade. Mas foipreciso muita astúcia e gana paramostrar que a aurora e o crepúsculosão tretas de Deus. Não é assim?Gerações de sábios passaram porsacrifícios, recordados por todos,porque disseram que Deus estavanos enganando com aqueleespetáculo diário. Demonstrar que acoisa não era como parecia, além demuito dicil, foi penoso, todossabemos.Outra obviedade, o óbviaquanto esta ou mais óbvia ainda, éque os pobres vivem dos ricos. Estána cara? Sem os ricos o que é queseria dos pobres? Quem é quepoderia fazer uma caridade? Me dáum empreguinho aí! Seriaimpossível arranjar qualquer ajuda.Me dá um dinheirinho aí! Sem rico omundo estaria incompleto, ospobres estariam perdidos. Masvieram uns Barbados dizendo quenão, e atrapalharam tudo. Tiraramaquela obviedade e puseram outraoposta no lugar. Aliás, umaobviedade subversiva.Uma terceira obviedade quevocês conhecem bem, por serpatente, é que os negros sãoinferiores aos brancos. Basta olhar!Eles fazem um esforço danado paraganhar a vida, mas não ascendemcomo a gente. Sua situão é deuma inferioridade social e culturalo vivel, o evidente, que éóbvia. Pois não é assim, dizem oscientistas. o é assim, o. Édiferente! Os negros foraminferiorizados. Foram e continuamsendo postos nessa posição deinferioridade por tais e quais razõeshistóricas. Razões que nada têm aver com suas capacidades eaptidões inatas mas, sim, tendo quever com certos interesses muitoconcretos.A quarta obviedade, maisdicil de admitir e eu falei dasanteriores para vocês seacostumarem com a idéia – a quartaobviedade, é a obviedade doída deque nós, brasileiros, somos um povode segunda classe, um povoinferior, chinfrin, vagabundo. Mas tána cara! Basta olhar! Somos 100anos mais velhos que osestadunidenses, e estamos commeio século de atraso com relação aeles. A verdade, todos sabemos, éque a colonização da América no
 
Norte começou 100 anos depois danossa, mas eles hoje estão muitoadiante. s, ats, trotando nahisria, trotando na vida. Umnecio horrível, o é? Duranteanos, essa obviedade que foi econtinua sendo óbvia para muitagente nos amargurou. Mas oconseguíamos fugir dela, ainda não.A própria ciência, por longotempo, parecia existir somente parasustentar essa obviedade. AAntropologia, minha ciência, porexemplo, por demasiado tempo nãofoi mais do que uma doutrinaracista, sobre a superioridade dohomem branco, europeu e cristão, adestinação civilizatória que pesavasobre seus ombros como umencargo histórico e sagrado. Nem foimenos do que um continuadoesforço de erudição para comprovare demonstrar que a mistura racial, amestiçagem, conduzida a umproduto híbrido inferior, produzindouma espécie de gente-mula,atrasada e incapaz de promover oprogresso. Os antropólogos,coitados, por mais de um culoestiveram muito preocupados comisso, e nós, brasileiros, comemos ebebemos essas tolices delesdurante cadas, como a melhorciência do mundo. O próprioEuclides da Cunha não podia dormirporque dizia que o Brasil ouprogredia ou desaparecia, masperguntava: como progredir, comeste povo de segunda classe? DomPedro II, imperador dos mulatosbrasileiros, sofria demais nasconversas com seu amigo e afilhadoGobineau, embaixador da França noBrasil, teórico europeucompetentíssimo da inferioridadedos pretos e mestiços.O mais grave, porém, é quealém de ser um povo mestiço – e,portanto, inferior e inapto para oprogresso – nós somos também umpovo tropical. E tropical o !Civilização nos trópicos, o ! Tropical, é demais. Mas isto não étudo. Além de mestiços e tropical,outra razão de nossa inferioridadeevidente demonstrada pelodesempenho histórico medíocre dosbrasileiros além dessas razões,havia a de sermos católicos, de umcatolicismo barroco, o é? Umnegócio atrasado, extravagante, derezar em latim e confessar emportuguês.Pois além disso tudo a nospuxar para trás, havia outras forças,ainda piores, entre elas, a nossaancestralidade portuguesa. Estãovendo que falta de sorte? Em lugarde avós ingleses, holandeses, genteboa, logo portugueses... Lusitanos!Esna cara que este país nãopodia ir para frente, que este povonão prestava mesmo, que estanação estava mesmo condenada:mestos, tropicais, calicos elusitanos é dose para elefante.Bom, estas são as obviedadescom que convivemos alegre ousofridamente por muito tempo. Nosúltimos anos, porém, descobrimosmeio assombrados – descoberta quesó se generalizou aí pelos anos 50,mais ou menos descobrimosrealmente ou começamos a atuarcomo quem sabe, afinal, que aquelaóbvia inferioridade racial inata,climático-telúrica, asnal-lusitana ecatólico-barroca do brasileiro, eracomo a treta diária do sol que tododia faz de conta que nasce e se põe.Haamos descoberto, com maissusto do que alegria, que à luz dasnovas ciências, nenhuma daquelasteses se mantinha de . Desdeeno, tornando-se impossível, apartir delas, explicarconfortavelmente todo o nossoatraso, atribuindo-o ao povo, saímosem busca de outros fatores ouculpas que fossem as causas do
 
nosso fraco desempenho nestemundo.Nesta indagão vejamcomo é ruim questionar! acabamos por dar uma viradaprodigiosa na roleta da ciência. Elaveio revelar que aquela obviedadede sermos um povo de segundaclasse não podia mesmo se manter,porque escondia uma outraobviedade mais óbvia ainda. Estanova verdade nos assustou muito,levamos tempo para engolir anovidade. Sobretudo nós, bonitos.Falo da descoberta de que a causareal do atraso brasileiro, os culpadosde nosso subdesenvolvimentosomos nós mesmos, ou melhor, amelhor parte de nós mesmos: nossaclasse dominante e seus comparsas.Descobrimos também, com susto, àluz dessa nova obviedade, querealmente não país construídomais racionalmente por uma classedominante do que o nosso. Nem hásociedade que corresponda oprecisado aos interesses de suaclasse dominante como o Brasil.Assim é que, desde eno,lamentavelmente, não comonegar dois fatos que ficaramululantemente óbvios. Primeiro, quenão é nas qualidades ou defeitos dopovo que esa rao do nossoatraso, mas nas características denossas classes dominantes, no seusetor dirigente e, inclusive, no seusegmento intelectual. Segundo, quenossa velha classe tem sidoaltamente capaz na formulação e naexecução de projeto de sociedadeque melhor corresponde a seusinteresses. Só que este projeto paraser implantado e mantido precisa deum povo faminto, chucro e feio.Nunca se viu, em outra parte,ricos tão capacitados para gerar edesfrutar riquezas, e para sub-julgaro povo faminto no trabalho, como osnossos senhores empresários,doutores e comandantes. Quasesempre cordiais uns para com osoutros, sempre duros e implacáveispara com subalternos, e insaciáveisna apropriação dos frutos dotrabalho alheio. Eles tramam eretramam, culos, a malhaestreita dentro da qual cresce,deformado, o povo brasileiro.Deformado e constrangido eatrasado. E assim é, sabemos agora,porque só assim a velha classe podemanter, sem sobressaltos, este tipode prosperidade de que eladesfruta, uma prosperidade jamaisgeneralizável aos que a produzemcom o seu trabalho, mas umaprosperidade sempre suficiente parareproduzir, geração após geração, ariqueza, a distinção e a beleza denossos ricos, suas mulheres e filhos.Por esta razão, é que asegunda parte desta minha fala seráo elogio da classe dominantebrasileira. O que aspiramos,objetivamente, é retratá-la aqui emtoda a sua alta competência. Maisaté do que competente, acho queela é façanhuda, porque fez coisastão admiráveis e únicas ao longodos século, que merece não apenasnossa admirão, mas tambémnosso espanto.A primeira evidência aressaltar é que nossa classedominante conseguiu estruturar oBrasil como uma sociedade deeconomia extraordinariamentepróspera. Por muito tempo sepensou que éramos e somos umpaís pobre, no passado e agora. Poiso é verdade. Esta é uma falsaobviedade. Éramos e somosriquíssimos! A renda per capita dosescravos de Pernambuco, da Bahiae de Minas Gerais – eles duravamem média uns cinco anos notrabalho – mas a renda per capitados nossos escravos era, então, amais alta do mundo. Nenhum
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