Norte começou 100 anos depois danossa, mas eles hoje estão muitoadiante. Nós, atrás, trotando nahistória, trotando na vida. Umnegócio horrível, não é? Duranteanos, essa obviedade que foi econtinua sendo óbvia para muitagente nos amargurou. Mas nãoconseguíamos fugir dela, ainda não.A própria ciência, por longotempo, parecia existir somente parasustentar essa obviedade. AAntropologia, minha ciência, porexemplo, por demasiado tempo nãofoi mais do que uma doutrinaracista, sobre a superioridade dohomem branco, europeu e cristão, adestinação civilizatória que pesavasobre seus ombros como umencargo histórico e sagrado. Nem foimenos do que um continuadoesforço de erudição para comprovare demonstrar que a mistura racial, amestiçagem, conduzida a umproduto híbrido inferior, produzindouma espécie de gente-mula,atrasada e incapaz de promover oprogresso. Os antropólogos,coitados, por mais de um séculoestiveram muito preocupados comisso, e nós, brasileiros, comemos ebebemos essas tolices delesdurante décadas, como a melhorciência do mundo. O próprioEuclides da Cunha não podia dormirporque dizia que o Brasil ouprogredia ou desaparecia, masperguntava: como progredir, comeste povo de segunda classe? DomPedro II, imperador dos mulatosbrasileiros, sofria demais nasconversas com seu amigo e afilhadoGobineau, embaixador da França noBrasil, teórico europeucompetentíssimo da inferioridadedos pretos e mestiços.O mais grave, porém, é quealém de ser um povo mestiço – e,portanto, inferior e inapto para oprogresso – nós somos também umpovo tropical. E tropical não dá!Civilização nos trópicos, não dá! Tropical, é demais. Mas isto não étudo. Além de mestiços e tropical,outra razão de nossa inferioridadeevidente – demonstrada pelodesempenho histórico medíocre dosbrasileiros – além dessas razões,havia a de sermos católicos, de umcatolicismo barroco, não é? Umnegócio atrasado, extravagante, derezar em latim e confessar emportuguês.Pois além disso tudo a nospuxar para trás, havia outras forças,ainda piores, entre elas, a nossaancestralidade portuguesa. Estãovendo que falta de sorte? Em lugarde avós ingleses, holandeses, genteboa, logo portugueses... Lusitanos!Está na cara que este país nãopodia ir para frente, que este povonão prestava mesmo, que estanação estava mesmo condenada:mestiços, tropicais, católicos elusitanos é dose para elefante.Bom, estas são as obviedadescom que convivemos alegre ousofridamente por muito tempo. Nosúltimos anos, porém, descobrimosmeio assombrados – descoberta quesó se generalizou aí pelos anos 50,mais ou menos – descobrimosrealmente ou começamos a atuarcomo quem sabe, afinal, que aquelaóbvia inferioridade racial inata,climático-telúrica, asnal-lusitana ecatólico-barroca do brasileiro, eracomo a treta diária do sol que tododia faz de conta que nasce e se põe.Havíamos descoberto, com maissusto do que alegria, que à luz dasnovas ciências, nenhuma daquelasteses se mantinha de pé. Desdeentão, tornando-se impossível, apartir delas, explicarconfortavelmente todo o nossoatraso, atribuindo-o ao povo, saímosem busca de outros fatores ouculpas que fossem as causas do
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