Welcome to Scribd, the world's digital library. Read, publish, and share books and documents. See more
Download
Standard view
Full view
of .
Look up keyword
Like this
1Activity
0 of .
Results for:
No results containing your search query
P. 1
jurema werneck - A era da inocência acabou.pdf

jurema werneck - A era da inocência acabou.pdf

Ratings: (0)|Views: 31 |Likes:

More info:

Published by: Uã Flor Do Nascimento on May 29, 2013
Copyright:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

12/19/2013

pdf

text

original

 
A era da inocência acabou, já foi tarde_ 
ByJurema Werneck 19/12/2001
Recusamos esta branquitude ora desresponsabilizada, ora culpada, fundada nafalsa idéia de ausência de cor e de raça, que goza privilégios como se direitosfossem. Que se orgulha de ter e ser o que nos foi expropriado. Que repousa emum lugar confortável de onde, então, pode ser generosa...Nosso orgulho é ter sobrevivido, a despeito do que nos foi - e tem sido - imposto. Nosso orgulho épossuir o que não nos foi dado nunca.
Levou séculos para que o Estado brasileiro pudesse reconhecer apresença do racismo como fator estruturante das relações sociaisno país. E isto só acontece agora, ao final do século XX e iníciodo século XXI, como resultado de um trabalho longo, árduo,vivido em profundo isolamento por nós, negros. Enquantodenunciávamos o racismo; enquanto demonstrávamos aperversidade com que esse definia privilégios e exclusões, vidase mortes; enquanto éramos nós mesmos nosso própriotestemunho, o restante da sociedade permanecia em silêncio.Vivemos num mundo confuso e confusamente percebido, disseMilton Santos. A velocidade da vida tira de nós a fruição dotempo. Veloz, a existência explode e, de repente, estaremostodos mortos. Somos isto mesmo, matéria finita, possibilidadeque se encerra: a cada fração de segundo, nossa mortalidadecresce em nós. Queremos ser mais. Queremos o eterno. Mas apequenez do que somos nos leva a caminhos errantes. Caminhosde guerras. Fugindo da dor, criamos mais dor - a começar pelador do outro.Porque tantos desejam violentamente ser o único, cria-se o outrocomo afirmação do eu que somente o eu próprio poderepresentar. O outro é, então, definido como inferno, moradaeterna do que não é o deus ou seus filhos. Descendentes deCam, nós negros pagamos o tributo da alteridade recusada comoa morte.Mas por que o racismo se destrói tão lentamente? Não entendo araiz que teima em se regenerar a cada girar da roda. De ondetira seus poderes? Diz um ditado nagô, citado por Muniz Sodré,que o segredo da longa dominação de brancos sobre negros éresultado do fato desses estarem em dia com suas obrigações,enquanto os negros negligenciamos as nossas. Quem somos nós.Do que podemos ser chamados?
 
Perplexidade não explica nem erros nem nada. É o tempo daguerra, urge portanto o prumo. Urge a voz que recoloque outrostermos à razão. Ou a destitua, instaurando no lugar deste logosprepotente e belicista, algo. O que? Que não é razão, mas que seafasta de falas delirantes, recusa supremacias. Reconhece apresença e a atualidade da arkhé neste século que se inicia.O tempo da paciência já passou? O principal é dizer que o tempoda inocência já passou. Aquilo que não se via ou não se dizia ouse fingia não ver/ dizer está dito: racismo. E é hora de passaradiante.Dor, guerra e morteEste, por muito tempo, foi o país da democracia racial. Um paíscondenado ao futuro. E um futuro necessariamente de cachoslouros. Para colocar em números brasileiros, sabemos que oBrasil nasceu fundado na herança de ser o maior importador deescravos durante o tráfico transatlântico e o último a abandonaro negócio ultralucrativo da escravidão.Sabemos que se conta em milhões a quantidade de homens emulheres africanos escravizadas transportadas para cá. Sabemosque tinham vida média de 7 anos nos campos de trabalhoforçado e morriam no limite da exaustão. Sabemos quebuscavam a fuga, a morte, a revolta, as mil formas de escaparda tortura e da desapropriação de si. Sabemos que somenteagora essa história começa a ser descortinada por outros alémde nós mesmos. Sabemos que sabemos ainda pouquíssimo.Mas recusamos a simplificação escapista de reduzir ao passado,onde a regra dos brancos era escravizar os negros, as causas dasubordinação racial e social que a população afrodescendentevivencia ainda séculos depois. Como se história fosse sina. Fossea única resposta para o futuro - e o presente - desigual. Como seinjustiça fosse conseqüência de uma tendência inercial criada noperíodo colonial, reproduzida eternamente. Acusamos essainocência de, mais que ser cúmplice do passado, ser auxiliarpoderosa da criação cotidiana de novos mecanismos desubmissão, de aniquilamento de um povo e sua cultura.A ela se somam muitas outras violências: a busca incessante dolucro, agora numa sofreguidão globalizante, que move aexploração capitalista e nos empurra ao limite da sobrevivência;um forte etnocentrismo que se sonha europeizante; a
 
manipulação cotidiana da informação e da história atualizandodezenraizamentos; a violência da apropriação corporal reeditada.E, ainda, a capacidade de povos e pessoas de produzir a dor, aguerra e a morte.Assim, brancos de todos os matizes (os brancos da terra, comose dizia no período colonial) buscam viver privilégios herdados deuma luta de 500 anos. Venceram a ferro e fogo - e podemoschamar de inocência a forma como endereçam suas vitórias aseus próprios talentos? A seus próprios esforços? O modo deviver privilégios como se fossem direitos? Mas venceram.Cor por trás dos númerosO resultado: expectativa de vida 6 anos maior que a dos negros.Inversão do padrão histórico de expectativa de vida, ondemulheres vivem mais do que homens: aqui as mulheres negrasvivem menos que os homens brancos. Os homens negros vivemmenos do que todos. O diferencial da escolaridade média é de2,3 anos a mais para brancos. Maior é seu acesso a serviços desaúde, habitação de qualidade, à educação até a universidade.Maior acesso ao emprego. Têm maior aceitação social, e sequernotam: suas religiões, seu único deus (vivo ou morto), seussímbolos culturais, seu rosto, sua linguagem, seu padrão debeleza, suas histórias e seus feitos propagados como únicos.Como modelos. Como alternativa à barbárie de pele escura,beiços largos e bunda grande.Edith Piza:"Esses aspectos da atitude branca - neutra, não reconhecível,negada, expurgada de seu potencial político - evolvem séculos depensamentos e atos racistas. Não se transformam pelo simplesimpacto das desigualdades, por ‘querer fazer um bem a umapessoa’ (...). São modos de experimentar o mundo, fundadostanto na aparência imediata - as representações e estereótipos -quanto na observação de padrões de vida reais, predizíveis erepetidos. É, pois, a conexão com a realidade que fornece à raçaum tal poder ideológico.” Os indicadores sociais no Brasil são lamentáveis. Ainda que osnúmeros demonstrem uma sensível melhora nas condições devida da população nas últimas décadas, a desigualdade tem sido

You're Reading a Free Preview

Download
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->