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MARCO ANTONIO GONÇALVES (ORG.).
ACRE: HISTORIA E ETNOLOGIA
. Núcleo deEtnologia Indígena Laboratório de Pesquisa Social/IFCS - UFRJ.INTRODUÇÃONossa intenção, nesta parte do trabalho, é tão somente fornecer ao leitor uma visãoda formação histórico-social da região que hoje é designada Estado do Acre. Oobjetivo que nos motiva proceder a um corte na historiografia sobre a região, querseja especificamente acreana quer seja amazônica, não é outro senão o de produzirum pano de fundo onde se desenrola a trama dos acontecimentos que envolveram econtinuam envolvendo as populações indígenas que habitam a região. Assim, o escopodo trabalho que ora se apresenta deve ser entendido enquanto um esforço de situaras tribos indígenas no tempo e no espaço acreano.As transformações sociais e econômicas porque passou a região durante os últimosséculos produziram, sem dúvida, o mapa etnológico das populações nativas. Os"brancos" bolivianos, brasileiros e peruanos, há pelo menos dois séculos, iniciaram aocupação da região de forma mais sistemática. As populações indígenas, a partirdeste momento, se re-arrumam, não sem conflitos, de forma a se organizar no novoterritório agora ocupado pelo homem branco.Nossa visão da história do Acre é orientada pela historiografia produzida sobre aregião. Não temos a pretensão de realizar aqui uma história do Acre buscandointerpretações dos momentos e conjunturas marcantes na construção desta história.Neste sentido, queremos deixar claro que os recortes que procedemos numadeterminada historiografia e o encadeamento que demos aos temas tratados tiveramcomo objetivo trazer à baila a cena histórica onde se movimentam as populaçõesindígenas procurando, desta forma, fornecer subsídios para um melhor entendimentoda situação atual destas populações.Nossa proposta pode ser encarada como uma re-leitura despretensiosa das fontes quecobrem em parte a região amazônica e, mais especificamente, a região acreana.Lendo as fontes secundárias consagradas, fontes que contam e recontam o mito deorigem da própria história acreana, e mesmo fontes de primeira mão comodocumentos-testemunhos de um tempo (cartas, ofícios, mapas, relatórios), encontra-se um, personagem que insiste em aparecer, transformando-se em cenário que vaidando sentido à história de ocupação da região: a hevea brasilienses.A história da região parece confundir-se com a própria história desta árvore. Como o"genesis": "in the begining was the tree. And darkness was upon the face of thejungle. And man, created in God's own image, moved furtively upon the forest"(WOLF, H & R., 1936 apud TOCANTINS, 1982). O homem referido pelo "genesis daseringa" não é, certamente, o indígena que habita as florestas da região onde estaárvore cresce em abundância.Para o indígena, a seringueira não era uma árvore dotada de valor especial. Nãoignorava o látex que produzia e muitas das tribos davam-lhe um sentido cultural,transformando-o em objetos. O homem do genesis re-classifica esta árvore e lheatribui um valor. Virando matéria-prima, sua utilização não cessa de expandir-se para
 
inventos nunca antes imaginados. A matéria-prima faz os inventores do século XIX,inventores de mercadorias para uma sociedade de consumo nascente pós-revoluçãoindustrial. A borracha, a partir daí assim designada, passa a ser a mola propulsora deuma indústria que não pára de crescer dando sentido aos costumes, às idéias deprosperidade, desenvolvimento e modernidade, que marcaram uma época.A história da região amazônica e do Acre, em particular, que foi expressão hiperbólicado "império do ouro negro", não pode ser narrada de outra forma senão através deuma "symphonia elástica". Os índios da região, desde então, perfilam seus caminhos ese vêem misturados nessa história que deixou uma marca indelével sobre seus corpose suas sociedades.
O LÁTEX ENCANTADO: "everybody wants a pair of rubber shoes"
Os índios das florestas tropicais foram os primeiros a extrair e manipular o látex daseringueira. O látex, quando coagulava, produzia uma goma elástica que dava forma acuriosos objetos produzidos pelos indígenas: bolas e esculturas zoomorfas. CristóvãoColombo, em segunda viagem ao novo mundo, observa que os nativos do Haitiutilizavam tal produto para confeccionar bolas que, mediante apenas um impulso, sedeslocavam repetidas vezes. Este produto, como a descoberta do novo mundo, ganhadesde já uma bizarra representação no imaginário europeu (cf. TOCANTINS, 1982:91).Este estranho produto ganha foros de curiosidade no velho mundo e quem viesse emexpedição para o novo mundo queria, pelo menos, vê-lo.É o caso do astrônomo francês Charles Marie de La Condamine que, em 1736, vempara a América do Sul medir o arco do meridiano terrestre. Enquanto esteve noEquador, pode observar in loco as principais características do produto e fornecer aprimeira descrição sobre seu processo de extração pelos índios. Mas, nesta mesmaépoca, os portugueses já o utilizavam para fazer bombas, seringas, garrafas, botas ebolas (cf.CONDAMINE, 1944 apud id.ibid.). Alguns homens de ciência, sobretudo naFrança, começam a descrever as qualidades da nova descoberta e seus usos potenciaispara o mundo europeu.A indústria do látex ficou na mão dos portugueses pelo menos até o século XIX quandose deu a abertura dos portos às nações amigas, permitindo, assim, que este produtoescapasse para outras partes do mundo. Na Inglaterra foi lançado como a "India-rubber"' que ficou conhecida nos meios intelectuais ingleses como um produto capazde apagar os riscos da grafia (cf. id.:93).Já em 1828 os franceses e os vienenses empregavam a borracha, proveniente do Pará,na fabricação de espartilhos, cintas e ligas. Os ingleses e os americanos usavam-napara fazer capas e protetores contra chuva (cf.Id.:97).Em 1800 saem as primeiras exportações, ainda clandestinas não da matéria-prima masdos produtos. Garrafas e sapatos de ponta fina eram produzidos em Belém e enviadospara os Estados Unidos. Os objetos alcançaram êxito no mercado americano e, em1830, uma grande quantidade de sapatos chegava a Boston. Este era um negócio dos"'droguistas" que tratavam a hevea brasilienses como mais uma das "drogas do sertão".Depois, passa para as mãos dos comerciantes de calçados. Os jornais de Bostonanunciavam, frequentemente, a venda de calçados por até mesmo 5 dólares.
 
A produção da borracha era altamente rentável, o preço de custo era da ordem de 25centavos e a venda chegava até a 2 dólares. A indústria da borracha, desde o seuinício, mostrava-se como algo vantajoso, de lucro fácil e garantido, tendo comomercado de consumo os países estrangeiros. Entre os anos de 1836 e 1856 aexportação paraense foi da ordem de 4.741.275 pares de sapatos (cf. Id.:94).O que marcou este período da borracha foi a predominância da manufatura sobre amatéria-prima, o que se inverteria brutalmente no período seguinte. Em 1850 Bates(1944) registra, em seus escritos sobre sua expedição no rio Amazonas, o incrementoda coleta do produto. Porém, nesta época, a exploração do produto estavacircunscrita à região do Pará, sobretudo às ilhas que ocupam a foz do Amazonas. Era otempo da "borracha das ilhas". Só mais tarde é que a exploração da borracha levariapenetrações aos rios Jari, Xingú, Tapajós, Madeira, Purús e Juruá.Os relatórios dos Presidentes de Província do Pará deixam patente que, a partir de1853, a borracha catalizava toda a mão-de-obra da região e que os gênerosalimentícios para abastecer o mercado interno eram provenientes de importações(REGO BARROS, 1854 apud Id.:96). Em 1856-57 surge a primeira crise neste primeirotempo de extração do látex, no tempo da manufatura. Os preços caíram e podia-se jávislumbrar os dramas que enfrentaria o comércio da goma elástica, com as oscilaçõesde preços dependentes do mercado internacional.A borracha era pensada, desde estes tempos, como algo atrativo, objeto deprosperidade. Pois, se comparada à cultura do açúcar e do café, a borracha já fôraplantada, era uma dádiva divina e, portanto, o homem somente teria o trabalho dacolheita. Tendo como desafio apenas a fantasmagoria da selva. Provações, tambémdivinas, que se fossem vencidas, trariam prosperidade e vida fácil. A borracha seprojetava num mundo de sonhos onde a aventura e o risco de vida podiam fazerchegar ao paraíso terrestre.Até este momento a borracha estava vinculada a uma produção de bens, efeitos deuma moda que influenciava costumes e incrementava as indumentárias da Europa eEstados Unidos dando um ar de modernidade enquanto acessório de vestuário. Nestesentido, o mercado estava sujeito ainda a gostos e preferências, fazendo com que oproduto corresse o risco de não se fixar no mercado de consumo. Devido a estesfatores, a primeira fase da produção da borracha foi marcada por oscilações nospreços do produto gerando uma época de incerteza na comercialização e exploraçãodo látex.Mas logo irrompe uma outra fase de exploração da borracha, agora decisiva, que nãodependia mais dos gostos, deixando de ser uma preferência e passando a ser umanecessidade de expansão capitalista moderna: a empresa automobilística. Váriosfatores contribuíram para o emprego da borracha como acessório indispensável nãomais do homem mas da máquina.A descoberta do processo de vulcanização se deu, ao mesmo tempo, pelo inglêsThomas Hancock e o americano Charles Goodyear (cf. Id.:98). Com a vulcanizaçãoabrem-se novas fronteiras para a borracha, o que se confirma com a invenção dopneumático pelo irlandês Dunlop. Estas descobertas dão um novo impulso àexploração do látex, que era procurado não só no Pará mas em toda a regiãoamazônica, especialmente no sudeste amazonense, chegando mesmo a ultrapassar as
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