Translated Publications"Qual o papel da Pedagogia Crítica nos estudos de língua e cultura?"Uma entrevista com Henry A. Giroux 1
Manuela GuilhermeHenry Giroux posicionou-se como figura destacada na teoria da educação radical no final dosanos oitenta. Não só retomou as propostas para uma educação cívica dos principais teóricosda educação no século XX, nomeadamente Dewey, Freire e outros como osReconstrucionistas Counts, Rugg e Brameld, mas também expandiu as teorias desses autoresavançando com a ideia de uma “pedagogia de fronteira”. A sua proposta pode ser entendidacomo uma aplicação de uma perspectiva cosmopolita pós-colonial à noção norte-americanade educação cívica democrática. Giroux elabora uma visão para a educação que correspondeaos desafios que se apresentam, no início deste século XXI, às sociedades ocidentais e quedecorrem das profundas mudanças demográficas e políticas pelas quais passam naactualidade. Quanto mais tempo levar aos políticos da educação para assumir com seriedadeas suas recomendações, mais tempo e possibilidades estaremos a perder e a negligenciar.De facto, os educadores, em todos os níveis do sistema educativo e por todo o mundo,sentem uma desmotivação crescente, e mesmo frustração, porque se sentem ultimamenteforçados a recuar em vez de avançar, no sentido de criarem desafios para si próprios, querna sua condição de profissionais quer de cidadãos, a fim de corresponderem às necessidadesdas nossas sociedades em rápida mudança. Giroux tem incitado os educadores e osacadémicos a reagir a estas forças paralisantes e a serem críticos, criativos e esperançososem relação ao potencial que, tanto eles como os seus estudantes, podem oferecer, a fim decontrariar as tendências políticas conservadoras que têm imposto uma definição deexcelência em educação que significa mais uma submissão às pressões de mercado do queexcelência educativa nos termos de uma produção intelectual inovadora. Giroux incita, aomesmo tempo, à análise crítica e ao reconhecimento de possibilidades na educação e advogatanto a independência como a responsabilidade para professores e estudantes, isto é, clamapor dignidade e respeito para com as instituições de educação, professores e estudantes.Giroux reafirmou corajosamente a natureza política do trabalho diário dos investigadores emeducação e dos próprios educadores. Para além disto, Giroux teorizou eloquentemente umapedagogia dos Estudos Culturais baseada no que fora proposto pelo próprio teórico daeducação, Raymond Williams. De facto, a área dos Estudos Culturais tem sidoproblematizada, e é em si própria problemática, embora muito rica e prometedora, dado quetem fracturado fronteiras entre disciplinas. No entanto, precisamente por esta razão, exigeuma teorização completa que descreva os seus objectivos bem como os fundamentos do seuconteúdo epistemológico e dos seus procedimentos. Giroux fez, neste campo, importantescontribuições para descrever estes processos ao rastrear as relações entre língua, texto esociedade, as novas tecnologias e as estruturas de poder que lhes subjazem. Esta foi a suaresposta quer aos críticos dos Estudos Culturais, quer aos académicos que neles se têmrefugiado para seguir uma moda ou para encontrar uma saída das suas disciplinastradicionais agora em descrédito. Indicou ainda novos caminhos que não se limitaram arecuperar a nova área, politicamente empenhada e cientificamente fundamentada, dosEstudos Culturais, iniciada por Raymond Williams e Stuart Hall mas oferecem uma análise asimplicações das novas tecnologias no intercâmbio e na recriação de conhecimento novo porentre as novas teias de poder. Justifica-se, portanto, mencionar o sucesso de Giroux naidentificação de novos modos de representação e de aprendizagem.Giroux iniciou, de facto, uma nova escola de pensamento e, com a sua voz afirmativa,vibrante e empenhada, instigou à acção tanto os teóricos como os práticos da educação. Aoadvogar uma pedagogia da responsabilidade, assumiu a responsabilidade pelo seu própriopapel social e político de académico. Concentrou a sua atenção na redefinição e no reforçoda noção de ‘público’ em relação ao conhecimento, à educação e à vida cívica, sobretudoincorporando conceitos tais como ‘tempo e espaço públicos’. Enquanto muitos teóricos daeducação se concentraram na influência da sociedade no contexto educativo, Giroux, emborapondo criticamente a nú as forças políticas e económicas que ameaçam a independência e acriatividade na escola e na academia, é mais ousado e chama, de forma clara, a nossaatenção para o potencial transformador da escola e da academia no contexto mais amplo dasociedade, recuperando, assim, a natureza política da actividade pedagógica. Por fim,embora focalize o seu discurso nos aspectos gerais da educação, na educação para acidadania e nos estudos culturais, Giroux oferece, através das suas propostas para a teoria e
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