Anarquia e Movimento Anarquista
Luigi Biondi - Doutorando em História na Unicamp gigi@unicamp.br
Quem quer que seja que ponha as mãos sobre mim, para me governar, é um usurpador, um tirano. Euo declaro meu inimigo
Pierre-Joseph ProudhonAnarquismo (do grego antigo an-arke = contrário à autoridade) é o nome que se dá a uma teoria queprega uma sociedade sem governo, na qual se vive em harmonia, não por submissão à lei, nem porobediência à autoridade, mas por acordos livres estabelecidos entre os diferentes grupos de homens emulheres, livremente constituídos por território ou profissão, para a produção, o consumo e para asatisfação da infinita variedade de necessidades e aspirações de um ser civilizado. Em uma sociedadeanárquica as associações voluntárias que estarão presentes em todos os campos da atividade humana,adquirirão uma extensão maior, que substituirá o Estado em todas as suas funções. Elas constituirãouma rede composta por uma infinita variedade de grupos e de federações de todos os tipos e graus:locais, regionais, nacionais e internacionais, para todos os objetivos possíveis: produção, consumo eintercâmbio, comunicações, serviços sanitários, educação, proteção mútua, defesa do território, etc.mas também para satisfazer necessidades científicas, artísticas, literárias e de relações sociais.Numa sociedade como esta, organizada de forma anarquista, o homem não será limitado na suacapacidade de trabalho produtivo por um monopólio capitalista apoiado pelo Estado, nem se limitarápor medo do castigo (a repressão policial), ou por obediência a entidade metafísica (a religião). Ohomem agirá seguindo a sua própria razão, podendo alcançar o desenvolvimento pleno de todas a suaspotencialidades, intelectuais, artísticas e morais, sem ser obrigado a trabalhar para os monopolistas.Poderia assim alcançar a plena individualização que não é possível sob o sistema de individualismocapitalista atual, nem sob o sistema de socialismo de Estado coletivista.Os autores anarquistas consideram, além disso, que a sua concepção não é uma utopia, mas que érealizável: (...) o progresso da técnica moderna, que simplifica maravilhosamente a produção de todosos elementos necessários para a vida, o crescente espírito de independência e a rápida expansão dainiciativa livre e do livre pensamento em todos os campos de atividade (incluindo as que antigamentese acreditavam atributo exclusivo do Estado e da Igreja) reforçaram a tendência da sociedade humanaao não-governo.No que se refere às suas concepções econômicas, os anarquistas acreditam que o sistema depropriedade privada da terra e a produção capitalista que tem como objetivo o lucro, representam ummonopólio que vai ao mesmo tempo contra os princípios de justiça e contra os de utilidade. Osanarquistas consideram o sistema salarial e a produção capitalista um obstáculo para o progresso.Porém, assinalam também que o Estado sempre foi, e continua sendo, o principal instrumento paraque poucos proprietários monopolizem a terra e para que os capitalistas se apropriem de um volumetotalmente desproporcionado do excedente acumulado da produção.Os anarquistas, portanto, enquanto combatem o atual monopólio da terra e o capitalismo, combatemcom a mesma energia o Estado, que é o apoio principal do sistema. Não combatem esta ou aquelaforma de Estado, mas o Estado em si, tanto o monarquista quanto o republicano. Tendo sido sempre aorganização do Estado (na história antiga como na moderna), o instrumento para assentar osmonopólios das minorias dominantes, não pode ser utilizada para a destruição destes monopólios. Osanarquistas consideram, portanto, que entregar ao Estado todas as fontes principais da vida econômica(a terra, as minas, as ferrovias, os bancos, os seguros, etc.) assim como o controle de todos os ramosda indústria, além de todas as funções que acumula já em suas mãos (educação, religiões apoiadaspelo Estado, defesa do território, etc.), significaria criar um novo instrumento de domínio. Ocapitalismo de Estado de tipo socialista só aumentaria os poderes da burocracia e do capitalismo. Aocontrário, o verdadeiro progresso está na descentralização, tanto territorial como funcional, nodesenvolvimento do espírito local e da iniciativa pessoal e na federação livre do simples ao complexo,ao invés da hierarquia atual que vai do centro à periferia.Os anarquistas, reconhecem que, como toda evolução natural, a lenta evolução da sociedade é seguidaàs vezes pela evolução acelerada chamada revolução, e acreditam que a era das revoluções ainda nãose concluiu. Nos períodos de lenta evolução, todavia, dever-se-ia reduzir os poderes do Estadoformando organizações em todos os vilarejos e cidades ou comunidades de grupos locais de produtorese consumidores, assim como federações regionais ou internacionais destes grupos.2
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