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ANARQUISMO EPEDAGOGIA LIBERTÁRIA
Seleção de textos feita pelo Prof. Donizete Soares
SE NÃO FOR LIBERTÁRIA, TODA A PEDAGOGIA É AUTORITÁRIANÃO HÁ EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA QUE NÃO SEJA AUTO-EDUCAÇÃOPRECISAMOS APRENDER COM OS OUTROS APENASO QUE NÃO NOS FOI POSSÍVEL APRENDER SOZINHOSA NECESSIDADE DE APRENDER É BIOLÓGICA,ELA SE FAZ SEMPRE DE DENTRO PARA FORAO IMPULSO PELA BUSCA DO CONHECIMENTO É MAIS IMPORTANTEDO QUE A COISA CONHECIDAENSINAR O QUE NÃO FOI PERGUNTADO, ALÉM DE INÚTIL,É UMA ESPÉCIE DE ESTUPRO CULTURALA NECESSIDADE DE CONHECIMENTO É COMPULSIVA,COMO A DE LIBERDADE E A DE OXIGÊNIOSOMOS TODOS DIFERENTES UNS DOS OUTROS, INCLUSIVE PELO INTERESSE EM CONHECERAS TEORIAS EDUCATIVAS CONSISTEM EM TIRAR ALGUMA COISA ANTES DE DAR,CENSURAR ANTES DE OFERECER MODELOS VÁLIDOS,PROIBIR E IMPOR NORMAS ANTES DE SOCIALIZAR A EXPERIÊNCIAA CRIANÇA APRENDE TUDO SOZINHA. BASTA NÃO IMPEDI-LA.SÓ PRECISAMOS ENSINAR-LHE DETALHES TECNOLÓGICOSAS UNIVERSIDADES NORTE-AMERICANAS JÁ PROVARAM:OS UNIVERSITÁRIOS SAEM COM MENOR QI DO QUE QUANDO ENTRARAM NELASA PEDAGOGIA LIBERTÁRIA SE BASEIA NO GOSTO ESPONTÂNEO DAS CRIANÇAS PELO CONHECIMENTO E EM SUACAPACIDADE NATURAL DE CRITICAR O QUE LHES ENSINAM.A PEDAGOGIA AUTORITÁRIA VISA FUNDAMENTALMENTE DESTRUIR ESSE POTENCIAL CRÍTICOPERGUNTAR É O ATO MAIS ESPONTÂNEO E O ÚNICO REALMENTE INDISPENSÁVEL NA FORMAÇÃO CULTURAL. NÃOSE É LIVRE PARA PERGUNTAR EM AMBIENTE
AUTORITÁRIO
Roberto Freire
........................Anarquia e Movimento Anarquista ........................................................................................................... 02O anarquismo hoje ................................................................................................................................ 08Educação, ideologia e a construção do sujeito ........................................................................................... 22A Contribuição do Pensamento Pedagógico Libertário para a História da Educação Brasileira ........................... 30Maurício Tragtenberg e a Pedagogia Libertária .......................................................................................... 38A delinqüência acadêmica ....................................................................................................................... 47Pedagogia Libertária e Pedagogia Crítica ................................................................................................... 50
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Anarquia e Movimento Anarquista
Luigi Biondi - Doutorando em História na Unicamp gigi@unicamp.br 
 
Quem quer que seja que ponha as mãos sobre mim, para me governar, é um usurpador, um tirano. Euo declaro meu inimigo
Pierre-Joseph ProudhonAnarquismo (do grego antigo an-arke = contrário à autoridade) é o nome que se dá a uma teoria queprega uma sociedade sem governo, na qual se vive em harmonia, não por submissão à lei, nem porobediência à autoridade, mas por acordos livres estabelecidos entre os diferentes grupos de homens emulheres, livremente constituídos por território ou profissão, para a produção, o consumo e para asatisfação da infinita variedade de necessidades e aspirações de um ser civilizado. Em uma sociedadeanárquica as associações voluntárias que estarão presentes em todos os campos da atividade humana,adquirirão uma extensão maior, que substituirá o Estado em todas as suas funções. Elas constituirãouma rede composta por uma infinita variedade de grupos e de federações de todos os tipos e graus:locais, regionais, nacionais e internacionais, para todos os objetivos possíveis: produção, consumo eintercâmbio, comunicações, serviços sanitários, educação, proteção mútua, defesa do território, etc.mas também para satisfazer necessidades científicas, artísticas, literárias e de relações sociais.Numa sociedade como esta, organizada de forma anarquista, o homem não será limitado na suacapacidade de trabalho produtivo por um monopólio capitalista apoiado pelo Estado, nem se limitarápor medo do castigo (a repressão policial), ou por obediência a entidade metafísica (a religião). Ohomem agirá seguindo a sua própria razão, podendo alcançar o desenvolvimento pleno de todas a suaspotencialidades, intelectuais, artísticas e morais, sem ser obrigado a trabalhar para os monopolistas.Poderia assim alcançar a plena individualização que não é possível sob o sistema de individualismocapitalista atual, nem sob o sistema de socialismo de Estado coletivista.Os autores anarquistas consideram, além disso, que a sua concepção não é uma utopia, mas que érealizável: (...) o progresso da técnica moderna, que simplifica maravilhosamente a produção de todosos elementos necessários para a vida, o crescente espírito de independência e a rápida expansão dainiciativa livre e do livre pensamento em todos os campos de atividade (incluindo as que antigamentese acreditavam atributo exclusivo do Estado e da Igreja) reforçaram a tendência da sociedade humanaao não-governo.No que se refere às suas concepções econômicas, os anarquistas acreditam que o sistema depropriedade privada da terra e a produção capitalista que tem como objetivo o lucro, representam ummonopólio que vai ao mesmo tempo contra os princípios de justiça e contra os de utilidade. Osanarquistas consideram o sistema salarial e a produção capitalista um obstáculo para o progresso.Porém, assinalam também que o Estado sempre foi, e continua sendo, o principal instrumento paraque poucos proprietários monopolizem a terra e para que os capitalistas se apropriem de um volumetotalmente desproporcionado do excedente acumulado da produção.Os anarquistas, portanto, enquanto combatem o atual monopólio da terra e o capitalismo, combatemcom a mesma energia o Estado, que é o apoio principal do sistema. Não combatem esta ou aquelaforma de Estado, mas o Estado em si, tanto o monarquista quanto o republicano. Tendo sido sempre aorganizão do Estado (na história antiga como na moderna), o instrumento para assentar osmonopólios das minorias dominantes, não pode ser utilizada para a destruição destes monopólios. Osanarquistas consideram, portanto, que entregar ao Estado todas as fontes principais da vida econômica(a terra, as minas, as ferrovias, os bancos, os seguros, etc.) assim como o controle de todos os ramosda indústria, além de todas as funções que acumula já em suas mãos (educação, religiões apoiadaspelo Estado, defesa do terririo, etc.), significaria criar um novo instrumento de donio. Ocapitalismo de Estado de tipo socialista só aumentaria os poderes da burocracia e do capitalismo. Aocontrário, o verdadeiro progresso está na descentralização, tanto territorial como funcional, nodesenvolvimento do espírito local e da iniciativa pessoal e na federação livre do simples ao complexo,ao invés da hierarquia atual que vai do centro à periferia.Os anarquistas, reconhecem que, como toda evolução natural, a lenta evolução da sociedade é seguidaàs vezes pela evolução acelerada chamada revolução, e acreditam que a era das revoluções ainda nãose concluiu. Nos períodos de lenta evolução, todavia, dever-se-ia reduzir os poderes do Estadoformando organizações em todos os vilarejos e cidades ou comunidades de grupos locais de produtorese consumidores, assim como federações regionais ou internacionais destes grupos.2
 
Os anarquistas se opõem, segundo os princípios expostos, a participar da organização estatal atual e aapoiá-la e infundir-lhe sangue novo. Não pretendem constituir, e convidam os trabalhadores a nãofazê-lo, partidos políticos que concorram a eleições para parlamentos. Portanto, desde a fundação daAssociação Internacional dos Trabalhadores (1864-1866), os anarquistas procuraram propagar suasidéias diretamente nas organizações operárias, e induzi-las a uma luta direta contra o capital, semdepositar fé alguma na legislação parlamentar.Com estas palavras o revolucionário russo Piotr Kropotkin (1842 –1921), explicava em 1905 naEnciclopédia Britânica a teoria anárquica, os objetivos e a atuação do movimento anarquista, do qualele era um dos maiores expoentes e teóricos (a sua obra mais importante foi A Conquista do Pão,considerada a obra anarquista mais lida entre os militantes).No mesmo período, em 1907, outro pensador e político anarquista, o italiano Errico Malatesta (1853-1932) explicava de forma semelhante, no folheto Anarchia, o que os anarquistas queriam, defendendodesta forma a idéia anárquica, e criticando os que a consideravam somente um sinônimo de desordem:Anarquia é uma palavra grega que significa literalmente "em governo", isto é, o estado de um povosem uma autoridade constituída. Antes que tal organização começasse a ser cogitada e desejada portoda uma classe de pensadores, ou se tornasse meta de um movimento, a palavra "anarquia" foi usadauniversalmente para designar desordem e confusão. (...) Tal interpretação se deve ao preconceito deque o governo é uma necessidade na organização da vida social. (...) Portanto, para nascer e viver naescravidão, por ser descendente de escravos, quando começou a pensar, o homem acreditava que aescravidão era uma condição essencial à vida. A liberdade parecia impossível. Assim também otrabalhador foi forçado, por séculos, a depender da boa vontade do patrão para trabalhar, isto é paraobter pão. Acostumou-se a ter sua própria vida à disposição daqueles que possuíssem a terra e ocapital. (...) Se acrescentamos ao efeito natural do hábito a educação dada pelo seu patrão, pelopadre, pelo professor, que ensinam que o patrão e o governo são necessários; se acrescentamos o juize o policial para pressionar aqueles que pensam de outra forma e tentam difundir suas opiniões,entenderemos como o preconceito da utilidade e da necessidade do patrão e do governo oestabelecidos. (...) Quando esta opinião mudar, e o público estiver convencido de que o governo édesnecessário e extremamente prejudicial, a palavra “anarquia, justamente por significar “semgoverno”, será o mesmo que dizer "ordem natural, harmonia de necessidades e interesses de todos,liberdade total com solidariedade total".Os dois trechos evidenciam quais foram (e ainda hoje são) os fundamentos da teoria e do movimentoanarquista:a) Comunismo: isto é, gestão coletiva de todos os bens e abolição de todo tipo de propriedade (daterra, como capitalista industrial). Comunismo anarquista é um “sistema de socialismo sem governo”;b) Antiestatalismo: abolição de todo tipo de Estado (incluindo o de tipo socialista), considerado como acoluna da exploração capitalista e de todas as desigualdades;c) Anti-clericalismo e ateísmo: a Igreja, como o Estado, não é somente o fruto das relações deexploração capitalista, mas uma instituição que sustenta, apóia e cria estas relações;d) Revolução: chegar-se-á a sociedade comunista anárquica através das revoluções;e) Ação Direta: é a preparação da revolução final que abolirá o Estado e a propriedade através deinsurreições, motins e greves gerais contra a explorão capitalista, contra o Estado e suasautoridades, e contra o poder da Igreja;f) Anti-parlamentarismo: pregando a revolução e a ação direta, e sendo contrários a todo tipo dehierarquia e ao Estado, os anarquistas são também contrários à formação de partidos que participemde eleições. Nunca poderá existir um partido anarquista;g) Federação: a nova sociedade anárquica será auto-organizada por grupos confederados entre eles,sem nenhuma hierarquia, no nível local, regional, do local de trabalho e até formar uma grandefederação internacional de todos os povos. O movimento anarquista em luta para chegar a umasociedade anarquista também se auto-organizará em grupos de afinidade confederados, por seremcontrários à luta partidária eleitoral;h) Liberdade Individual: o homem tem que ser livre e, portanto, prega-se a abolição de todo tipo dehierarquia na sociedade e a observação de um comportamento pelo qual os únicos limites da ação decada um são a consideração em relação ao respeito da individualidade dos outros: a solidariedadeentre indivíduos iguais. Além disso o indivíduo deve se libertar de suas idéias antigas e repressivassobre as relações de amor e as superstições religiosas. Conseqüentemente os anarquistas o3
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