Ali conheci uma pessoa realmente extraordinária, Dona Joana Daux Mussi, que, embora nãonascida em Laguna, encarnava perfeitamente todas as virtudes de sua gente, ela fez da gentileza, doamor ao próximo, e da caridade para com os humildes, os desvalidos, os desprezados e os velhos, aprópria razão de ser de sua existência ativa e fecunda.
À sua memória dedico, com a maior reverência e saudade, este trabalho, no qual se encontrarão asraízes daqueles a quem ela tanto protegeu.
Este trabalho foi feito mediante a organização sistemática, por famílias, dos assentos paroquiais deLaguna, hoje recolhidos à Cúria Metropolitana do Bispado de Tubarão, a saber:a) 1595 assentos de casamento, contidos em 3 Livros, abrangendo os períodos de 14/9/1783 a4/4/1804, de 4/4/1804 a 21/9/1822 e de 21/9/1822 a 16/6/1832;b) 2169 assentos de batismo, também em 3 Livros: de 5/2/1804 a 26/12/1808 e de 26/3/1809a 15/3/1815 (que inicialmente estavam contidos num único Livro, com folhas numeradas de 1 a 387)e de 25/5/1815 a 20/9/1818;c) 1490 assentos de óbito, num único Livro, relativos ao período de 27/3/1820 e 18/4/1832.Esses, segundo fui informado, são os Livros paroquiais mais antigos recolhidos à Cúria de Tubarão;apesar de minhas diligências, não consegui localizar os que os antecederam, cujo valor histórico seria,sem dúvida, muito maior.
0 que se oferece ao leitor, pois, é uma imagem da população da Freguesia de Laguna, tão precisaquanto possível, no alvorecer do século XIX; apesar de todo o meu cuidado, devo acentuar que sãoquase inevitáveis os enganos em trabalhos desta natureza, em que tantas datas são citadas; aquelesque porventura se interessarem em prosseguir o estudo das respectivas famílias até os dias atuais,aconselho que não deixem de conferir os dados que aqui divulgo, para cujo fim são dadas todas asreferências necessárias.
Na região Sul de Santa Catarina existiam, na época, apenas duas Freguesias: a de Vila Nova, quedeveria estender-se desde essa vila até os limites com a Freguesia da Enseada de Brito, isto é, até oatual Morro dos Cavalos, e a Freguesia de Laguna, que se estendia para o Sul, até o Rio Mampituba,atual divisa com o Estado do Rio Grande do Sul. 0 fato, pois, de dizer-se que alguém nasceu e foibatizado "em Laguna", naquela época, não significa, necessariamente, que o tenha sido na própriaVila: da leitura atenta dos assentos ficou-me a certeza de que o Vigário percorria periodicamente suaParóquia, ministrando os sacramentos.
Percebe-se que duas localidades já despontavam: Tubarão e Araranguá, citadas com frequência nosassentos consultados; uma única referência encontrei a Urussanga, que deve ser a hoje chamadaUrussanga Velha. Outros lugares citados várias vezes são: Pescaria Brava, Caputera, Perrexil, Barra,São Tiago, Areias, Ponta do Daniel, Saco do Lessa, Saco das Flores, Congonhas, Rio de Aratingaúva,Saco de Tacoroçutuba, Rincão, Morro Grande, Morrinhos de Tubarão, Costa do Siqueiro, Ponta Grossa,Laranjeiras, Cabeçuda e Imaruí, onde já existia a Capela de São João Batista.
O escasso conhecimento que tenho dos fatos lagunenses relativos ao século XIX impediu-me de juntar dados biográficos às personagens citadas, o que, decerto, tornaria este trabalho menosmonótono; tarefa que incumbe aos cronistas locais.
Chamo a atenção do leitor para alguns pontos cujo interesse histórico é maior, como sejam: aidentificação das raízes paulistas da heroína Anita Garibaldi (v. título Salvador Antunes, N-16) e osestudos sobre as famílias Gonçalves Ribeiro, Prates e Rodrigues de Jesus, a cujo respeito trago algunsdados inéditos.
Finalmente, fique claro que o título "Dona" não era de uso indiscriminado, como atualmente: sóusavam-no as mulheres que a ele tinham direito, seja por sua ascendência seja por casamento;respeitei cuidadosamente esse critério, que de um relance permite identificar as famílias de maiorprojeção social da localidade.
Lamento que não me tenha sido possível examinar, por falta de oportunidade, os autos de inúmerosinventários existentes no "Museu Anita Garibaldi", de Laguna e numerosos outros existentes noArquivo Público do Rio Grande do Sul (estes, notadamente, do período de 1800 a 1820), queencerram, sem dúvida, preciosos dados sobre as famílias estudadas; forneço porém, sempre quepossível, os dados de catálogo.