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COLABORAÇÃO
P
or razões a que até o próprio diabo não tem amínima expectativa deacesso ou possível com- preensão, aparentemente conti-nua acesa nos Açores a contro-vérsia àcerca da legitimidade emiçar nos quartéis locais a bandeirarepresentativa da Região Autóno-ma dos Açores. Não é minha intenção destacar pormenores ou apontar nomesda oposição, incluindo militaresde alta patente e comando. Igual-mente, não tenciono memoriar o que aconteceu com as bandei-ras ao tempo do governo de MotaAmaral. De preferência, atrevo-me a narrar uma caricata situa-ção que, aqui há anos na Califór-nia, se criou à volta de bandeirasexpostas na frontaria dum restau-rante pertencente a um açoriano.Franklin de Oliveira, presen-temente aposentado, quandoera proprietário do restaurante“Captain’s Cove”, situado emCannery Row, cidade de Monte-rey, teve de comparecer na Câ-
mara Municipal a m de explicar e justicar a presença de três ban
-deiras (americana, portuguesa eaçoriana), em frente do edifício.A esse respeito, na minha coluna“Pois é, c’más coisas é”, publiqueia mini-paródia que ora passo atranscrever do (já extinto) jornal“Portugal-USA”, edição de 10 deDezembro, 1986. O título, fácilde adivinhar, foi precisamente “AGuerra das Bandeiras”.
“Estava eu na minha ocina de
trabalho rindo-me a bandeirasdespregadas com as últimas al-voradas àcerca das brigas das bandeiras entre generais e ilhéus,quando alvoraçado me entra
p’la porta dentro o meu alhado
Francisco das Olivas. Este rapaz, por sinal muito esperto, trata-mesempre por Godfather (padrinho),ainda mesmo antes de abrir o seu popular e concorrido restaurante“Angra do Capitão”, onde se bebe bem e come-se melhor.Pelos vistos, um disfarçado ge-neral, com medalhas pregadas nocu das calças, fora inaculado p’rafazer inspecção ao comércio e in-dústria, localizados na Avenidadas Canarías, na cidade de Latade Sardinhas, imortalizada pelolaureado John Steinbeck, autor das novelas Cannery Row e Tor-
tilla Flat. O despacho ocial não
se fez esperar: “Você tem de re-tirar imediatamente as bandeirasem frente ao restaurante”.
Tudo isto porque o meu rico a
-lhado, que se preza de ser simul-taneamente um grande patriotae um bon vivant, tem três ban-deiras a adornar a entrada do seumui atractivo estabelecimento decomes-e-bebes. Ora estas ban-deiras (a americana, a portugue-sa e a açoriana), que de há muitose desfraldam, garridas e catitas,marcando uma autêntica presença poliglótica nessa zona turística,foram consideradas uma afrontaà supina soberania dos escalõesmilitares.
Mas o meu alhado (benza-te,
Deus) não arredou pé, nem tão pouco se acobardou perante aameaça do general. E tal qual onosso compatriota Zé dos Cocosripostou: “Antes morrer empan-turrados que em paz desconsola-dos”.Claro, o general perdeu as estri- beiras e foi às nuvens. E num ar-
roto de intensidade sismográca,
cheirando a vinha d’alhos, gritoua plenos pulmões:“Tu vais mas é p’ró xelindró”.Imperturbável, o Francisco dasOlivas retorquiu: “Ó seu pedaçod’asno, se pretende spika inglês,diga City Hall e não xelindró”.E, sem mais delongas, o meu
alhado dirigiu-se à Assembleia
dos Cravos, onde disparou o ulti-mato: “As minhas bandeiras con-tinuarão hasteadas pois que,além de serem símbolos polifór-micos, elas representam a Liber-dade Yankee, o Império Alfa-cinha e a Autonomia Regional. Nestas bandeiras estão espelha-das a hamburger, a caldeirada ea alcatra. O mesmo não se podeaplicar àqueloutras bandeirolas
no m da Avenida das Canarías,
em frente ao Balneário das Lon-tras (Aquarium)”.Aparentemente, a simples men-ção do recém-inaugurado bal-neário avolumou-se em trunfo e bisca, pois que rumores de nepo-tismo, favorecendo aquela novaatracção turística e aquática, es-tavam já a escoar e a escorrer p’la cidade Lata de Sardinhas.Tanto assim que os membros daAssembleia dos Cravos, numadecisão peremptória e inabalá-vel, receando o reaparecimentofantasmagórico de Steinbeck,concordaram polifonicamente na
resolução ocial de que as três
bandeiras, içadas à entrada dorestaurante Angra do Capitão,eram parte integral do patrimó-nio local.P’ra selar este voto de tamanhamagnitude, comercial e indus-trial, foi adicionada uma propos-ta de lei p’ra que a próxima reu-nião da assembleia tenha lugar na
Casa de Pasto do meu alhado, a
quem eu já aconselhei que ofe-reça como repasto gastronómi-co umas apetitosas e suculentasSopas do Espírito Santo e PolvoGuisado com canjirões de vinhoverde.O restaurante “Captain’s Cove”abriu em 1974 e fechou em 1999. Na lista de cocktails, confeccio-nados pelo Franklin, destacava-se PORRA TONTA, preparado à base de rum, licor de maracujá esumo de ananás.Da “Sapateia Açoriana”, de Vi-torino Nemésio, este par de qua-dras:Bandeira do Espírito SantoPosta de sangue coalhado,Com borlinhas como em mantoP’ra príncipe encantado. No dia de ajustar contas,Se as dos bodos não chegarem,Teremos bandeiras prontas,P’ràs torres que nos restarem.
A Guerra das Bandeiras
Tribuna da Saudade
Ferreira Moreno
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