embaixo de arcos nevoentos de luz, os bondes trepidavam e sacolejavam pelooleoso pavimento - e entrava no insípido Distrito de Kirkhead. Ali, terraços de casasantiquadas, aferrando-se desesperadamente à respeitabilidade ante à invasão dosbares e botequins, sorveterias e casas para trabalhadores das docas vizinhas,erguiam os seus altos e medonhos frontões, com cornijas de estuque quebradas,pórticos torcidos e beirais caídos, chorando, parecia, sua antiga glória, sob o céueternamente nevoento.No número 52, que ostentava na bandeira da porta o delicado nome deROTHESAY, e mais abaixo, em letras discretas de dourado escamado, HÓSPEDES,subi as escadas e entrei.CAPÍTULO IIMeu quarto, no alto da pensão, era pequeno, quase um sótão, parcamentemobiliado com uma caminha de ferro, uma pia branca de madeira e um textobordado em lã com uma moldura preta. Mas tinha a vantagem de dar para umapequena estufa de vidro pintado de verde ainda provida de prateleiras e bancos,uma relíquia dos prósperos dias da mansão. Embora fria no inverno e sufocante noverão, servia-me convenientemente de escritório.Por essa acomodação, mais duas refeições por dia, eu pagava às Srtas.Dearie, co-proprietárias do estabelecimento, a módica soma de 34 xelins porsemana - a qual, devo reconhecer logo, era o máximo de que eu podia dispor. Odinheiro que eu tinha herdado de meu avô, "para me sustentar na universidade",tinha não mais do que cumprido sua finalidade, ao passo que meus honorários comoassistente, e pelo trabalho extraordinário de instrutor de bacteriologia paraterceiranistas, subiam a cem guineis por ano, uma ilusória sugestão de moedas deouro que escondia o fato de que na Escócia são cautelosos para não estragar commimos os seus gênios em botão.Assim, no sábado, depois de pagar a minha pensão, mal me restavam cincoxelins no bolso para fazer o meu lanche na União, mais roupas, sapatos, livros,cigarros - em suma, eu era ultrajantemente pobre, obrigado a usar o meu uniformeobsoleto, que tanto ofendia a noção de conveniência do Professor Usher, não porpreferência, mas por ser a única roupa que eu possuía.Todavia, estas apertadas circunstâncias mal me perturbavam.Minha educação em Levenford tinha-me afeito de tal modo às vicissitudes davida espartana como o mingau encaroçado, o leite aguado de um azul singular einesquecível e os sapatos de sola grossa com tachas para que durassem mais. Alémdisso, eu considerava o meu presente estado como puramente transitório, precursorde um esplêndido futuro, e tinha a mente tão desesperadamente voltada para oempreendimento que deveria levar-me a um grande e imediato sucesso que nãopodia ocupar-me com ninharias.Quando cheguei à minha alta água-furtada, da qual eu tinha uma vista parauma parede branca de tijolos encimada pela chaminé do incinerador da cidade,detive-me por momentos em determinado pensamento, estudando o papel queUsher me havia devolvido.- O senhor vai se atrasar para o chá.Com um sobressalto, virei-me para a tímida visitante que estava à minhaporta. Era, está claro, a Srta. Jean Law, minha vizinha na porta contígua do corredor.Uma dos cinco estudantes de medicina que moravam na Rothesay, ela estava
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