Como o marketing salvou o futebol inglês
Em vinte anos, com uma adequada estratégia empresarial, os clubes da Inglaterra afastaram oshooligans e tornaram o futebol do país o mais rico do mundo.No final da década de 80, o futebol inglês estava vivendo a maior crise econômica e técnica da suahistória. Além da penúria financeira, da corrupção e da violência nos estádios, os torcedores inglesestinham que conviver com o baixo nível técnico dos jogadores que atuavam pelas equipes do país e comum tipo de torcedor, geralmente sem emprego e perspectiva, que ia aos estádios apenas paramanifestar, de forma violenta, seu descontentamento com a vida e com as instituições britânicas: oshooligans.Alijados das principais competições entre clubes da Europa, em razão dos tumultos e das 35 mortesprovocadas pelos hooligans na partida entre Juventus, da Itália, e Liverpool, da Inglaterra, que decidiu aCopa dos Clubes Campeões da Europa em 1985, na Bélgica, as agremiações inglesas eram temidas,em todo o continente, em razão do comportamento bélico e destrutivo de seus torcedores. O futebolinglês não existia para o resto da Europa.No dia 15 de abril de 1989, em uma das semi-finais da Copa da Inglaterra, aconteceria uma novatragédia, que iria modificar definitivamente o destino do futebol inglês. Naquela data, momentos antes dapartida entre Liverpool e Nottingham Forest, 96 torcedores morreram prensados contra um alambrado desegurança quando a polícia permitiu a entrada desordenada de torcedores momentos antes da partida.Com a crise instaurada, os clubes decidiram, em 1992, criar uma liga – a Premier League -, que permitiuque as agremiações de futebol do país assumissem a organização e a administração de seuscampeonatos, em substituição às federações. Com o campeonato na mão, os clubes ingleses trataramde adequar o calendário segundo seus interesses e puderam negociar bons contratos compatrocinadores e com a televisão, principalmente a BSkyB, que pagou US$ 1,12 bilhão pela temporada2000/01 da Premier League.Além da revisão no calendário, uma ousada estratégia de marketing colocou o futebol inglês, e seusclubes, entre os mais ricos do mundo. Uma elevação excessiva do preço dos ingressos para as partidasde futebol nos jogos da Premier League ajudou a afugentar o maior mal dos campos ingleses: oshooligans e seu comportamento. Um ingresso, que na temporada 1988/89 custava aproximadamenteUS$ 10,00, na temporada 1996/97 passou a custar, aproximadamente, US$ 35,00. Em 2000/2001, ostickets para a Premier League valeram, em média, US$ 50,00. Com isso, os hooligans passaram a ser excluídos do universo dos estádio ingleses e, com eles, a violência.Paralelamente ao aumento do preço dos ingressos, os clubes passaram a investir na melhoria da infra-estrutura para a comodidade do torcedor, agora mais exigente. Os estádios foram reformados e cadatorcedor, como em um espetáculo teatral, senta em reservadas e confortáveis cadeiras. Com isso, amédia de público por partida, que chegou a pouco mais de 4.000 torcedores, em 1985/86, hoje é deaproximadamente 32.000.A revolução do futebol na Inglaterra não parou por aí. Cada clube inglês, muito próximo ao estádio ondemanda suas partidas, tem uma loja que vende produtos licenciados do clube. O torcedor pode encontrar desde uma caneta com o símbolo de sua equipe, até uniformes oficiais, calendários, livros e revistassobre sua agremiação preferida. Tudo funcionando como uma grande fonte de receita para os cofres dosclubes.Todas essas transformações, permitiram aos clubes da Inglaterra investir em grandes jogadores,melhorando a qualidade do espetáculo. Na temporada 1992/93, eram 11 os jogadores estrangeiros naPremier League. Em 1998/99, este número pulou para 166. Além disso, as agremiações inglesasdeixaram de ser temida no restante da Europa e seus clubes puderam retornar, em acordo viabilizadopela televisão, aos principais campeonatos do continente.Os clubes ingleses conseguiram, assim, sair da penúria econômico e financeira em que se encontravame tornaram-se, em pouco menos de dez anos, agremiações ricas, com ações na Bolsa de Valores deLondres e outras demonstrações de saúde financeira. O Manchester United, por exemplo, faturaanualmente US$ 142,5 milhões e é considerado, pelas principais publicações financeiras do mundo epela empresa de consultoria Deloitte and Touche, o clube de futebol mais rico do planeta.Outro resultado de toda essa estratégia também pôde ser verificado nos gramados europeus. Das quatroequipes classificadas para as semi-finais da Champions League, o principal e mais rico torneio inter-clubes do mundo, três são inglesas: Manchester United, Chelsea e Liverpool.
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