• Embed Doc
  • Readcast
  • Collections
  • CommentGo Back
Download
 
MAR.-JUN. 2001
11
FRANKENSTEIN 
, DE MARY SHELLEY
Frankenstein,
deMary Shelley, e
Drácula,
de BramStoker: gênero eciência na literatura
Mary Shelley’sFrankenstein
 
andBram Stoker’s Dracula:gender and science inliterature
Lucia de La Rocque
Doutora em ciências e mestre em literatura comparada.Pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz. Professora daUniversidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Luiz Antonio Teixeira
Coordenador de educação em ciências do Museu da VidaHistoriador, pesquisador da Casa de Oswaldo CruzAv. Brasil, 4365, Manguinhos,21040-360 Rio de Janeiro
__
RJ BrasilTel.: 2598-4234, 2598-4221teixeira@fiocruz.brROCQUE, L. de L. e TEIXEIRA, L. A.:
‘Frankenstein
, de Mary Shelley e
Drácula
, deBram Stoker: gênero e ciência na literatura’.
História, Ciências, Saúde — Manguinhos,
vol. VIII(1), 10-34, mar.-jun. 2001.As obras literárias têm, através dos tempos, dadovoz aos medos e esperanças gerados pelasdescobertas científicas e retratado as imagens emitos em torno da própria idéia de ciência.Diversos parâmetros podem contribuir para estasrepresentações da ciência, como a cultura e aclasse social na qual estão inseridos os autoresdas obras em questão. Não se pode negar,também, a influência do gênero, já que, peladominação da ciência pela esfera masculina deação, o fato de a obra ser de autoria feminina oumasculina pode determinar uma peculiarcaracterização do mundo científico. Neste artigo,através de uma análise comparativa de duasimportantes obras literárias do século XIX,
Frankenstein
, de Mary Shelley, e
Drácula
, deBram Stoker, são colocadas em relevo questõesrelativas à visão de ciência e sua relação com o gênero. Enquanto Shelley, como mulher, afastadado mundo científico, descortina em
Frankenstein
toda sua desconfiança em relação ao mesmo,Stoker, protótipo do homem vitoriano, imprimeem
Drácula
sua sólida confiança na ciência.PALAVRAS-CHAVE: gênero, representações daciência, literatura.ROCQUE, L. de L. e TEIXEIRA, L. A.: ‘MaryShelley’s
Frankenstein
 
and Bram Stoker’s
Dracula
: gender and science in literature’.
História, Ciências, Saúde — Manguinhos,
vol. VIII(1), 10-34, Mar.-June 2001.
Throughout the ages, literary works haveexpressed fears and expectations generated byscientific discoveries and have portrayed imagesand myths about 
 
science itself. Severalparameters can contribute to theserepresentations of science, including the cultureand social class to which the authors of theseworks belong. We also cannot deny theinfluence of gender, as due to the fact that themale sphere of action dominates
 
science, maleor female authoring can determine a peculiar characterization of the scientific world. In thepresent work, through a comparative analysis of two important literary works from the 19thcentury, Frankenstein, by Mary Shelley, andDracula, by Bram Stoker, the issues concerning the view of science and their relation to gender are highlighted. While Shelley, as a woman,apart from the scientific world, reveals inFrankenstein all her distrust about it, Stoker, themodel of a Victorian man, expresses in Draculahis total trust in science.KEYWORDS: gender, representationof science, literature.
 
12
HISTÓRIA, CIÊNCIAS, SAÚDE Vol. VIII(1)DE LA ROCQUE E TEIXEIRA
Introdução Introdução 
P
or sua capacidade de engendrar as mais diversas inovaçõestecnológicas, a ciência hoje é muitas vezes vista como o maisseguro passaporte para um mundo melhor. Por outro lado, multiplicam-se as controvérsias relacionadas aos seus limites éticos e ao perigo quealgumas pesquisas podem legar à sociedade. A despeito dessas diferentessituações, o que se observa é a centralidade das questões sobre aciência no mundo moderno. O aporte de informações sobre o tema étão intenso que mesmo os neófitos nas disciplinas biológicas, porexemplo, estão, por vezes, familiarizados com a ovelha Dolly e sabemque a técnica que a gerou está, de alguma forma, ligada à aterradorapossibilidade da clonagem de um ser humano em laboratório.Poderíamos, portanto, pensar que a apreensão em relação ao possívelimpacto maligno das descobertas científicas ou o otimismo desmedidoem relação aos seus resultados seriam sentimentos típicos deste iníciode século. No entanto, estaríamos cometendo um erro histórico; naverdade, as representações sociais sobre o legado da ciência à sociedadesempre foram muito variáveis, oscilando de caracterizações positivas eotimistas a previsões catastrofistas.Através dos tempos, a literatura tem dado voz aos medos eesperanças gerados pelas descobertas científicas e retratado as imagense mitos em torno da própria idéia de ciência. A literatura fantástica,produzida desde a Antiguidade, já havia especulado sobre os possíveisdescaminhos do desenvolvimento tecnológico humano. Não éespantoso, então, que nos deparemos, já no Século das Luzes, épocada ascensão triunfal da ciência, com escritores como Jonathan Swift,em
 As viagens de Gulliver 
, que alertavam para o perigo de uma confiançaexcessiva nos paradigmas científicos e tecnológicos que viesse sufocaro lugar da emoção no coração humano. No século XIX, o avançotecnológico fez com que muitas visões futuristas, que se acumulavamdesde o Renascimento, se tornassem parte do cotidiano das grandescidades. É, portanto, natural que essa época tenha testemunhado nãoo nascimento do gênero literário que ficou mais tarde conhecidocomo ficção científica, mas também uma produção bastante extensadessa literatura nascente, que se volta então para os efeitos danosos oubenfazejos do desenvolvimento científico e tecnológico.Assim, no final do século XIX, embora encontremos romances como
Looking backwards
, de 1888, uma utopia socialista futurista de EdwardBellamy, na qual a mecanização desempenha papel fundamental,deparamo-nos também com obras como
Erewhon
, de 1872, em queSamuel Butler imagina um tempo em que as máquinas são banidasdevido à tendência de tiranizar os seus próprios criadores. É dessa época,também,
 A máquina do tempo
, onde H. G. Wells constrói um futuro emque a rígida divisão social dos seres humanos entre aqueles que produzema tecnologia e os que dela se beneficiam se agudiza de forma horripilante.
 
MAR.-JUN. 2001
13
FRANKENSTEIN 
, DE MARY SHELLEY
Esquematicamente, podemos dividir a ficção científica entre as obrasque tendem a transmitir visões positivas ou negativas da ciência. Noentanto, essa divisão inicial ainda não dá conta de diversas nuanças erepresentações sobre a ciência, bastante diferenciadas, que se relacionama fatores socioculturais, históricos e psicológicos etc. Este artigo irádiscutir algumas dessas representações através da análise comparativade duas importantes obras literárias do século XIX:
Frankenstein
, deMary Shelley, e
Drácula
, de Bram Stoker. Nosso objetivo é dar relevoàs questões referentes à visão de ciência e sua relação com gêneronessas obras.Consideramos que, como qualquer construção humana, a produçãoliterária está eivada de visões de mundo e posições políticasdeterminadas pela estrutura social em que está contida e, maisespecificamente, pelo domínio da ação social das pessoas nessasestruturas. Ou seja, as formas mais gerais da organização social, como gênero, raça, classe, ocupação etc, assim também os campos de atuaçãosocial, tais como rituais, trabalho, comércio, instituições políticas, famíliae diversas afinidades condicionam simultaneamente os caminhos daprodução literária e as representações sobre a ciência. Nesse sentido,afirmamos que o fato de a obra ser de autoria feminina ou masculinapode, portanto, determinar uma peculiar caracterização do mundocientífico.
1
Do gótico à ficção científica Do gótico à ficção científica 
Frankenstein
, da inglesa Mary Shelley, é considerada a primeiraobra de ficção científica, gênero literário que se volta para o mundo daciência, incluindo aí sua organização e produção, ideais de conhecimentoe avanços técnicos etc. Escrita em 1818, representa uma virada emrelação ao gênero gótico de romances, que marcou a segunda metadedo século XVIII na Inglaterra, com obras como
Vathek
, de WilliamBeckford, e
The monk
, de Mathew G. Lewis, ambientadas em castelosem ruínas ou lugares exóticos, e povoadas por aristocráticos e depravadospersonagens, que, no final, recebem um terrível castigo dos céus. Issose explica pelo fato de que a natureza do mal explorado no romance gótico do século XVIII, evidenciado na depravação e nas forças satânicasque circundavam seus personagens, aos poucos ia deixando de fazersentido para as camadas letradas européias, que obtinham cada vezmais conhecimento das descobertas e teorias científicas do período.
2
Assim, o elemento trágico, claramente ligado ao lado espiritual nostradicionais romances góticos, veio a se desencantar — na acepçãoweberiana do termo — e se inserir na esfera psicológica e/ou social.
Frankenstein
abraça definitivamente esse parâmetro. A obra é vistacomo o primeiro romance gótico-psicológico, onde é mantida aambientação exótica, agora relacionada ao mundo da ciência. Afinal,é num cenário isolado que Victor Frankenstein, o cientista, começa a
of 00

Leave a Comment

You must be to leave a comment.
Submit
Characters: ...
You must be to leave a comment.
Submit
Characters: ...