TEXTO 13
(Texto extraído de: CHAUÍ, Marilena. Indústria cultural e cultura de massa. In:
Convite à Filosofia
.São Paulo: Ática, 2003.)
INDÚSTRIA CULTURAL E CULTURA DE MASSA
(...) as religiões produzem o
encantamento do mundo
, isto é, o sentimento de que o mundonatural e humano está em relação com um mundo sobrenatural de forças divinas que semanifestam de maneiras variadas, inexplicáveis e misteriosas. (...) A modernidade concluiu umprocesso que a Filosofia começara desde a Grécia: o
desencantamento do mundo.
Isto é, apassagem do mito à razão, da magia à ciência e à lógica. Em outras palavras, passou-se dacrença em causas sobrenaturais para os acontecimentos à sua explicação racional ou à suanaturalização e humanização. Esse processo (...) liberou as artes da função e finalidadereligiosas, dando-Ihes autonomia.(...) No ensaio sobre a destruição da aura
, depois de explicar a importância da autonomiadas artes, Walter Benjamin assumia uma posição otimista, pois considerava que a sociedadeindustrial levara à reprodução das obras de arte (pelo livro, pelas artes gráficas, pela fotografia,pelo rádio e pelo cinema) e que isso permitiria à maioria das pessoas o acesso a criações que, atéentão, apenas uns poucos podiam conhecer e fruir. Em outras palavras, Benjamin esperava que areprodução técnica das obras de arte promovesse a democratização da cultura e das artes.O otimismo de Benjamin não era infundado. Basta para isso levarmos em consideração osefeitos sociais e políticos do primeiro grande meio de comunicação de massa, isto é, a invençãoda imprensa por Gutenberg, no século XV, para verificarmos sua importância para ademocratização da cultura.Como se sabe, a cultura européia (entre os séculos I e XVII) era eminentemente cristã, istoé, idéias, valores, costumes, leis, instituições sociais e políticas, instrução e conhecimentos eramaqueles instituídos pelo ensinamento cristão por meio da Igreja. Essa cultura fundava-seinteiramente na interpretação eclesiástica da
Bíblia.
Ora, o primeiro livro impresso foi a
Bíblia,
queaté então existia em forma de manuscritos existentes apenas em igrejas e sinagogas (AntigoTestamento ou a
Torah,
em hebraico e aramaico; Antigo e Novo Testamento em grego e em latim)e só era lida por especialistas (rabinos, sacerdotes, teólogos), enquanto o restante da sociedade arecebia oralmente, lida em voz alta pelos letrados durante as liturgias religiosas e, com o passar do tempo, em línguas inexistentes, que somente uns poucos compreendiam.Ao iniciar o movimento religioso conhecido como Reforma Protestante, no final do séculoXV, Martin Lutero traduziu a
Bíblia
para o alemão e foi essa tradução que Gutenberg imprimiu.Pela primeira vez, o texto sagrado dos cristãos podia ser adquirido e lido por todos os queconheciam o alemão. Da mesma maneira, a Reforma Protestante inglesa, francesa e holandesarealizou as traduções da
Bíblia
para o inglês, o francês e o holandês e as imprimiu nessas línguas.Para difundir a religião reformada e combater a Igreja Católica Romana (chamada de"papista"), os protestantes afirmaram que todos os cristãos eram capazes de compreender osensinamentos bíblicos, sem precisar que padres e teólogos os explicassem. Para isso, iniciaramum processo de alfabetização nos países reformados a fim de que todos os fiéis pudessem ter asSagradas Escrituras. Como escreveu um historiador inglês, com a imprensa e a ReformaProtestante, a
Bíblia
foi democratizada.Essa leitura da
Bíblia
fez com que camponeses, na Alemanha e na Holanda, assim comotrabalhadores do campo e das cidades, na Inglaterra, percebessem que suas sociedades e seusgovernantes não seguiam os ensinamentos bíblicos, eram injustos, cruéis, tirânicos, anticristãos.E as massas populares se rebelaram em toda parte, exigindo justiça, igualdade e liberdade. Aleitura das Sagradas Escrituras teve, assim, um efeito de conscientização popular.No entanto, o otimismo de Watter Benjamin deixou de lado um outro aspecto do processoque seus colegas da Escola de Frankfurt examinaram com detalhe. De fato, a partir da segunda
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A aura, explica Benjamin, é a absoluta singularidade de um ser – natural ou artístico -, sua condição de exemplar únicoque se oferece num aqui e agora “irrepetível”, sua qualidade de eternidade e fugacidade simultâneas, seu pertencimentonecessário ao contexto em que se encontra e sua participação numa tradição que lhe dá sentido. É, no saco da obra dearte, sua
autenticidade
, isto é, o vínculo interno entre sua unidade e sua durabilidade. A obra de arte possui aura ou éaurática quando tem as seguintes qualidades: é única, uma, irrepetível, duradoura e efêmera, nova e participante de umatradição, capaz de tornar distante o que está perto e estranho o que parecia familiar porque transfigura a realidade.
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