Welcome to Scribd, the world's digital library. Read, publish, and share books and documents. See more
Download
Standard view
Full view
of .
Save to My Library
Look up keyword
Like this
1Activity
0 of .
Results for:
No results containing your search query
P. 1
Arte_A razão da consciência versus a razão do estado_Fulvia Molina_versão final_PDF

Arte_A razão da consciência versus a razão do estado_Fulvia Molina_versão final_PDF

Ratings:

5.0

(1)
|Views: 39 |Likes:
Published by Fabricia Jordão
Texto desenvolvido para o ciclo de debates Arte Estado: possíveis relações entre o sistema das artes e as políticas culturais no período da ditadura civil militar brasileira.
Projeto contemplado no edital Conexão Artes Visuais 2012 Funarte/MinC/Petrobras
Texto debatido na mesa-redonda: arte contemporânea e estado autoritário no dia 28/06/2013 no Centro Cultural São Paulo (Less)
Texto desenvolvido para o ciclo de debates Arte Estado: possíveis relações entre o sistema das artes e as políticas culturais no período da ditadura civil militar brasileira.
Projeto contemplado no edital Conexão Artes Visuais 2012 Funarte/MinC/Petrobras
Texto debatido na mesa-redonda: arte contemporânea e estado autoritário no dia 28/06/2013 no Centro Cultural São Paulo (Less)

More info:

Categories:Types, Speeches
Published by: Fabricia Jordão on Jun 29, 2013
Copyright:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

07/01/2013

pdf

text

original

 
1
CICLO DE DEBATES “A ARTE E ESTADO: POSSSÍVEIS RELAÇÕESENTRE O SISTEMA DAS ARTES E AS POLÍTICAS CULTURAIS NOPERÍODO DA DITADURA CIVIL-MILITAR BRASILEIRA”PAINEL : A ARTE CONTEMPORÂNEA E O ESTADO AUTORITÁRIO
Arte: a razão da consciência
versus
a razão do estado
Fulvia MolinaQuando Antígona, a heroína da tragédia que leva seu nome, é obrigada adecidir sobre o destino do corpo do seu irmão morto, ela o faz contra asdeterminações do rei de Tebas, seu tio Creonte. Mesmo sabendo que seriacondenada à morte pela transgressão, ela decide sepultá-lo. Surpreendidapelos guardas, que vigiavam o cadáver insepulto de Polinices, Antígona épresa e levada à presença de Creonte. Segue-se, então, o diálogo deles:
CREONTE – [...] tiveste a ousadia de desobedecer a essa determinação? ANTÍGONA – Sim, pois não foi decisão de Zeus; e a Justiça [Diké], a deusa quehabita com as divindades de baixo, jamais estabeleceu tal decreto entre oshumanos; tampouco acredito que tua proclamação tenha legitimidade paraconferir a um mortal o poder de infringir as leis divinas [Thémis], nunca escritas, porém irrevogáveis; não existem a partir de ontem, ou de hoje; são eternas, sim! E ninguém pode dizer desde quando vigoram! Decretos como os que proclamaste, eu, que não temo o poder de homem algum, posso violar semmerecer a punição dos deuses! 
1
 
.Antígona, age segundo o que considera ser seu dever de irmã, pelasLeis Divinas, em oposição à Lei Humana. Vemos aqui, já colocado, o conflitoético inaugural de nossa civilização e que permeia toda a história ocidental: oconflito da
Razão da Consciência
em oposição
à Razão do Estado
. Há 2.500
1
SÓFOCLES,
 Édipo Rei /Antígona
, p.96.
 
2anos, está posto o dilema ético em uma obra de arte, uma peça teatral deSófocles, apresentada nos festivais dionisíacos e concursos dramáticos deAtenas, provavelmente em 441 a. C.A heroína trágica age eticamente, em um ato que é ético, individual esolitário em sua essência
2
. No centro da cena trágica está a razão daconsciência em oposião à razão do estado, mas está também a razão daconsciência do poeta que a expressa na cena, desnudando a razão do estado.A arte, a
 poiesis
, é a verdade do artista, a sua
alétheia
, o seu ato ético por excelência, com suas razões e contradições, que resulta de sua decisãosolitária, “do que nela é inantecipável e imprevisível, do que ainda não fez apassagem do silêncio à palavra”
3
. O que está em jogo para o artista é a suavida ou a sua morte, ou, ao menos, a sua saúde espiritual
4
, na expressão deGiorgio Agamben, a sua razão de consciência.Já, a razão do estado é a razão sempre invocada pelo poder dominantepara justificar e instaurar o estado de exceção, em que o soberano tem opoder legal de suspender a validade da lei, colocando-se legalmente fora da lei,e afirmando que não é um fora da lei
5
. As leis são criadas, alteradas einterpretadas, segundo as conveniências do soberano, leia-se dos gruposinstalados no poder, cujo objetivo é manter-se no poder e impedir que ele sejacontestado. A excessão é uma espécie de exclusão
6
. É a redução da pessoahumana à “pura vida nua”
7
, na expressão de Agamben, em que o indivíduo éconsiderado como pura vida biológica, despido de todo direito humano.Não foi esse, no passado, o caso da escravidão no Brasil e em todaAmérica? Assim como o genocídio dos índios? Não foi esse também o caso daditadura militar no Brasil, em passado recente?Nesse contexto a arte contemporânea vem cumprir um papel ético, o depresentificação do mal que nos fere fundo na alma.
2
I. VORSATZ,
ibid.
, p. 13.
3
L. A. GARCIA-ROZA,
apud 
:
 
I. VORSATZ, ibid., p.247.
4
G. AGAMBEN,
O homem sem conetúdo
, p. 23.
5
G. AGAMBEN,
 Homo sacer: o poder da vida nua I,
p.23.
6
Ibid., p. 25.
7
Ibid., p. 15.
 
3Mas, porque revirar um passado, tão traumático e doloroso?Simplesmente, porque “quem controla o passado, controla o futuro, e quemcontrola o presente, controla o passado”
8
como afirma Orwell.O artista, com suas indagações e reflexões poéticas, resgata memóriaspolíticas e sociais, atua no contra-fluxo da tentativa de apagamento dos fatos, equando não, até da sua justificação, e vem aportar o seu
 páthos
, a sua razãode consciência, o seu sentimento, a sua verdade. Elabora um resgate que searticula com a exigência do ser humano, “na exigência de uma salvação, quenão consiste simplesmente na conservação do passado, mas que seja tambémuma transformação ativa do presente”
9
no dizer de Walter Benjamin. Na suaconcepção, “a imagem dialética é uma imagem fulgurante. É então comoimagem fulgurante no
 Agora
da cognocibilidade que é preciso reter o
Outrora
10
. Esta fulguração que é intrínseca à imagem dialética é também osinal ou sintoma que indicia a salvação da história
11
.As manifestações da arte contemporânea aqui buscam atualizar o golpemilitar, que gestou os famigerados Atos Institucionais, sob os quais foi paridauma Lei de Segurança Nacional. Na verdade, um decreto-lei, baixado pelosgenerais-sacerdotes da ideologia da segurança nacional, que estabelecia queas pessoas consideradas “suspeitas de serem inimigas do estado” podiam ser presas sem culpa formada, e, ao arrepio da própria lei, centenas foramsequestradas, torturadas, mantidas isoladas, sem contato com suas famílias eadvogados, e eventualmente mortas ou “desaparecidas”, por atos de agentesdo estado, acobertados pelo “sistema”, protegidos pela tolerância e omissãodas instituições, da justiça e pelo manto do silêncio forçado da imprensa.Como toda ditadura, quando era conveniente, as regras eleitorais erammodificadas, os livros apreendidos, as músicas censuradas, alguémdesaparecia. Em suma, a lei era suspensa. Uma ditadura que se servia dalegalidade para transformar seu poder soberano de suspender a lei, de
8
G. ORWELL,
1984,
 p 38.
9
W. BENJAMIN,
apud 
J. M. GAGNEBIN,
 História e narração em Walter Benjamin
, p. 105.
10
Ibid.,
 Passagens:Walter Benjamin, [N9,7]
, p 105.
11
M. J. CANTINHO,
O vôo suspenso do tempo:Estudo sobre o conceito de imagem dialética na obra deWalter Benjamin,
in Zunái – Revista de poesia & debates: Lisboa, ano IV, ed. XV, versão eletrônica.

You're Reading a Free Preview

Download
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->