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AMADO, Jorge - Dona Flor e Seus Dois Maridos

AMADO, Jorge - Dona Flor e Seus Dois Maridos

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07/01/2013

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DONA FLOR E SEUS DOISMARIDOS
Jorge Amado
Parte IDA MORTE DE VADINHO, PRIMEIRO MARIDO DE DONA FLOR, DOVELÓRIO E DO ENTERRO DE SEU CORPOESCOLA DE CULINARIA SABOR E ARTEQUANDO E O QUE SERVIR EM VELÓRIO DE DEFUNTO (Resposta de donaFlor a pergunta de uma aluna)Nem por ser desordenado dia de lamentação, tristeza e choro, nem por isso sedeve deixar o velório correr em brancas nuvens. Se a dona da casa, emsoluços e em desmaio, fora de si, envigilha em dor, ou morta no caixão, se elanão puder, um parente ou pessoa amiga se encarrega então de atender ásentinela pois não se vai largar no alvéu, sem de comer nem de beber, oscoitados noite adentro solidários; por vêzes sendo inverno e frio. Para que umasentinela se anime e realmente honre o defunto a presidi-la e lhe faça leve aprimeira e confusa noite de sua morte, é necessário atendê-la com solicitude,cuidando-lhe da moral e do apetite. Quando e o quê oferecer? Pois a noiteinteira, do comêço ao fim. Café é indispensável e o tempo todo, café pequeno,é claro. Café completo, com leite, pão, manteiga, queijo, uns biscoitinhos,alguns bólos de aipim ou carimã, fatias de cuscuz com ovos estrelados, isso,só de manhã e para quem atravessou ali a madrugada. O melhor é manter aágua na chaleira para não faltar café; sempre está chegando gente. Bolachas ebiscoitos ácompanham o cafezinho; uma vez por outra uma bandeja comsalgados, podendo ser sanduíches de queijo, presunto, mortadela, coisassimples pois de consumição já basta e sobra com o defunto. Se o velório,porém, fôr de categoria, dessas sentinelas de dinheiro a rodo, então se impôeuma xícara de chocolate á meia noite, grosso e quente, ou uma canja gorda degalinha. E, para completar, bolinhos de bacalhau, frigideira, croquetes emgeral, doces variados, frutas sêcas. Para beber, em sendo casa rica, além docafé, pode haver cerveja ou vinho, um copo e tão-sómente para acompanhar acanja e a frigideira. Jamais champanha, não se considera de bom-tom. Sejavelório rico, seja pobre, exige-se, porém, constante e necessária, a boacachacinha; tudo pode faltar, mesmo café, só ela é indispensável; sem seuconforto não há velório que se preze. Velório sem cachaça é desconsideraçãoao falecido, significa indiferença e desamor.Capítulo 1Vadinho o primeiro marido de dona Flor, morreu num domingo de carnaval,pela manhã, quando, fantasiado de baiana, sambava num bloco, na maioranimação, no Largo Dois de Julho, não longe de sua casa. Não pertencia ao
 
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bloco, acabara de nêle misturar-se, em companhia de mais quatro amigos,todos com traje de baiana, e vinham de um bar no Cabeça onde o uísquecorrera farto á custa de um certo Moysés Alves, fazendeiro de cacau, rico eperdulário. O bloco conduzia uma pequena e afinada orquestra de violões elautas; ao cavaquinho, Carlinhos Mascarenhas, magricela celebradonoscastelos, ah! um cavaquinho divino. Vestiam-se os rapazes de ciganos e asmôças de camponesas Húngaras ou rumenas; jamais, porém, húngara ourumena ou mesmo búlgara ou eslovaca rebolou como rebolavam elas,cabrochas na flor da idade e da faceirice. Vadinho, o mais animado de todos,ao ver o bloco despontar na esquina e ao ouvir o ponteado do esqueléticoMascarenhas no cavaquinho sublime, adiantou-se rápido, postou-se ante arumena carregada na côr, uma grandona, monumental como uma igreja - e eraa Igreja de São Francisco, pois se cobria com um desparrame de lantejouladoirada -, anunciou:- Lá vou eu, minha russa do Tororó . . .O cigano Mascarenhas, também êle gastando vidrilhos e miçangas, festivasargolas penduradas nas orelhas, apurou no cavaquinho, as flautas e os violõesgemeram, Vadinho caiu no samba com aquêle exemplar entusiasmo,característico de tudo quanto fazia, exceto trabalhar. Rodopiava em meio aobloco, sapateava em frente á mulata, avançava para ela em floreios eumbigadas, quando, de súbito, soltou uma espécie de ronco surdo, vacilou naspernas, adernou de um lado, rolou no chão, botando uma baba amarela pelabôca onde o esgar da morte não conseguia apagar de todo o satisfeito sorrisodo folião definitivo que êle fôra. Os amigos ainda pensaram tratar-se decachaça, não os uísques do fazendeiro: não seriam aquelas quatro ou cincodoses capazes de possuir bebedor da classe de Vadinho; porém tôda acachaça acumulada desde a véspera ao meio-dia quando oficialmenteinauguraram o carnaval no Bar Triunfo, na Praça Municipal, subindo tôda elade uma vez e derrubando-o adormecido. Mas a mulata grandona não se deixouenganar: enfermeira de profissão estava acostumada com a morte,freqüentava-a diáriamente no hospital. Não, porém, tão íntima a ponto de dar-lhe umbigadas, de pinicar-lhe o ôlho, de sambar com ela. Curvou-se sôbreVadinho, colocou-lhe a mão no pescoço, estremeceu, sentindo um frio noventre e na espinha:- Tá morto, meu Deus!Outros tocaram também o corpo do môço, tomaram-lhe do pulso,suspenderam-lhe a cabeça de melenas loiras, buscaram-lhe o palpitar docoração. Nada obtiveram, era sem jeito. Vadinho desertara para sempre doCarnaval da Bahia.Capítulo 2Foi um rebuliço no bloco e na rua, um corre-corre pelas redondezas, um deus-nos-acuda a sacudir os carnavalescos - e ainda por cima a escandalosa Anete,professorinha romântica e histérica, aproveitou a boa oportunidade para umchilique, com pequenos gritos agudos e ameaças de desmaio. Tôda aquelarepresentação em honra do dengoso Carlinhos Mascarenhas, por quemsuspirava a melindrosa de faniquito fácil - dizendo-se ela própria ultra-sensível,arrepiando-se como uma gata quando êle dedilhava o cavaquinho. Cavaquinhoagora silencioso, pendendo inútil das mãos do artista, como se Vadinho
 
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houvesse levado consigo para o outro mundo seus derradeiros acordes. Veiogente correndo de todos os lados, logo a notícia circulou pelas imediações,chegou a São Pedro, à Avenida Sete, ao Campo Grande, arrebanhandocuriosos. Em tôrno ao cadáver reunia-se uma pequena multidão a acotovelar-se em comentários.,Um médico residente em Sodré foi equisitado e umguarda-de- trânsito sacou de um apito e nele soprava sem parar como aadvertir a cidade inteira, a todo o Carnaval, do fim de Vadinho. Pois se éVadinho, coitadinho dêle !", constatou um careta, com sua mascara de meia,perdida a animação. Todos reconheciam o morto, era largamente popular, comsua alegria esfuziante, seu bigodinho recortado, sua altivez de malandro,benquisto sobretudo nos lugares onde se bebia, jogava, e farreava; e ali, tãoperto de sua residência, não havia quem não o identificasse. Outro mascarado,êste vestido de aniagem e coberto com uma cabeçorra de urso, varou ocerrado grupo, conseguiu aproximar-se e ver. Arrancou a máscara deixandoexposta uma cara aflita, de bigodes caídos e crânio careca e murmurou:- Vadinho, meu irmãozinho, que foi que te fizeram?"Que foi que deu nêle, de que morreu?" perguntavam-se uns aos outros, ehavia quem respondesse: "foi cachaça", numa explicação por demais fácil paratão inesperada morte. Uma velha curvada parou também, deu sua olhadela,constatou:- Tão moderno ainda, por que morrer tão môço?Perguntas e respostas cruzavam-se, enquanto o médico colocava o ouvidosôbre o peito de Vadinho, numa constatação final e inútil. "Estava sambando,numa animação retada, e sem avisar nada a ninguém, caiu de lado já todocheio da morte" - explicou um dos quatro amigos, curado por completo dacachaça, de súbito sóbrio e comovido, meio sem jeito nas roupas femininas debaiana, as faces vermelhas de carmim, fundas olheiras negras, traçadas comcortiça queimada, sob os olhos. O fato de estarem fantasiados de baiana nãodeve levar a maliciar-se sôbre os cinco rapazes, todos eles de machezacomprovada. Vestiam-se de baianas para melhor brincar, por farsa emolecagem, e não por tendência ao efeminado, a suspeitas esquisitices. Nãohavia chibungo entre eles, benza Deus. Vadinho, inclusive, amarrara sob aanágua branca e engomada, enorme raiz de mandioca e, a cada passo,suspendia as saias e exibia o troféu descomunal e pornográfico fazendo asmulheres esconderem nas mãos o rosto e o riso, com maliciosa vergonha.Agora a raiz pendia abandonada sôbre a coxa descoberta e não fazia ninguémrir. Um dos amigos veio e a desatou da cintura de Vadinho. Mas nem assim odefunto ficou decente e recatado, era um morto de Carnaval e não exibiasequer sangue de bala ou de facada a escorrer-lhe do peito, capaz de resgatarseu ar de mascarado. Dona Flor, precedida, é claro, por dona Norma a darordens e a abrir caminho, chegou quase ao mesmo tempo que a polícia.Quando despontou na esquina, apoiada nos braços solidários das comadres,todos adivinharam a viúva, pois vinha suspirando e gemendo, sem tentarcontrolar os soluços, num pranto desfeito. Ao demais, trajava o robe caseiro ebastante usado com que cuidava do asseio do lar, calçava chinelas cara-de-gato e ainda estava despenteada. Mesmo assim era bonita, agradável de ver-se: pequena e rechonchuda, de uma gordura sem banhas, a côr bronzeada decabo-verde, os lisos cabelos tão negros a ponto de parecerem azulados, olhosde requebro e os lábios grossos um tanto abertos sôbre os dentes alvos.Apetitosa, como costumava classificá-la o próprio Vadinho em seus dias de

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