• Embed Doc
  • Readcast
  • Collections
  • CommentGo Back
Download
 
"Magalhães" – o escândaloda robotização da educação
 Pais e público mantidos em ignorância acercados malefícios de um projecto que na Europa ena América já demonstrou a sua inutilidade
 
Desde o Século 19 que em todo o mundo a pedagogia busca avidamente soluções adaptadasaos tempos e capazes de remediar as asneiras cometidas anteriormente. Em Portugal tivemos por último, durante o período da ditadura fascista, uma tentativa deeducação militarizada e totalitária, dedicada ao hediondo culto daraça, que encontrou expreso na famigerada "MocidadePortuguesa", dependente do Ministério da Educação e copiada da"Juventude Hitleriana" da Alemanha nazi. Agora, apesar doscrescentes conflitos puramente humanos, ligados por exemplo àcrise profissional dos professores ou ao comportamento cada vezmais descontrolado e violento de alunos nas salas de aula, tenta-seuma outra solução totalitária: a distribuição em massa de meiomilhão de máquinas (minicomputadores portáteis) para criançascom idade a partir de apenas 6 anos, no 1º ciclo do ensino básico.Deslumbrada com promessas e intelectualismos do mundo da tecnologia, dos negócios e da política, a própria máquina do Estado parece ter se tornado vítima de uma demagogia tecnocrata, ondefalta clareza e coragem para lidar com as verdadeiras necessidades humanas das novas gerações.Surgiu assim esta encenação da distribuição do computador para crianças "Magalhães", anunciadoespalhafatosamente como autêntica janela para o futuro, para o mundo e para a vida, como se fosse o"último grito" em matéria de educação, capaz de recolocar o país ao nível da Europa civilizada.
 
Como entretanto já se sabe, "Magalhães" é apenas um nome fantasioso para uma modificaçãodo já conhecido minicomputador americano "Classmate" da empresa Intel. Para conquistar o novo egigantesco mercado mundial das criaas, a Intel vinha celebrando acordos com paísessubdesenvolvidos, para a montagem local do "Classmate" sob diversos nomes e versões. A exemplo daIrlanda (onde o respectivo governo assegurou há anos de joelhos à mega-empresa Intel condições preferenciais e mão de obra barata para a instalação da sua segunda maior unidade fabril no mundo)Portugal foi agora estrategicamente escolhido como país praticamente terceiro-mundista, mas inseridona Europa e capaz de assegurar operações a baixo custo, graças a uma aliança com outras empresas, para o fabrico e a exportação em massa desse minicomputador para um mercado mundial potencial de proporções astronómicas, formado sobretudo por crianças em idade escolar.A anunciada «revolução para a educação em Portugal»constitui assim na realidade uma astuciosa estratégiacomercial de enormes proporções, que vem usar o país como palco de demonstração para convencer clientes ingénuosentre governos e ministérios de educação em todo o terceiromundo e países em desenvolvimento. A Intel, comoverdadeira empresa-mãe do "Magalhães", está nomeadamenteafligida por uma gravíssima crise nos seus neciosmundiais, tendo sofrido, por exemplo, no final do ano passado uma catastrófica quebra de 90% nos seus rendimentos. Está ainda prevista a eliminação demilhares de postos de trabalho, além do encerramento de fábricas na Malásia, nas Filipinas e na própria América. Ao mesmo tempo, a Índia, um país com capacidades tecnológicas independentes,optou por dar as costas aos potentados ocidentais e em breve produzirá em massa o seu própriominicomputador "Sakshat" a um preço irrisório.Entre nós, a aventura magalhânica podia certamente suscitar muitas outras questões. Por exemplo: O que é que um colossal projecto industrial de montagem e exportação de minicomputadorestem a ver com a nossa atribulada educação infantil? Porque sobrecarregar professores com tarefasadministrativas estranhas à profissão? Como é que servidores do Estado, colocados nas mais diversas posições, puderam transformar-se em verdadeiros agentes de vendas? Que autoridade humanística e pedagógica tem um consórcio industrial internacional para vir instruir os nossos pais e professoresquanto ao tipo de ensino robotizado que se pretende implantar entre a nossa infância? Que negociatasgigantescas estarão em curso – sob a respeitosa máscara da "educação" – para realizar lucros demilhões com conexões de internet, manutenção e reparação de milhares de computadores, mais asvendas de softwares, impressoras, acessórios, etc.? Será justo acorrentar a próxima geração portuguesaao potentado exclusivista do sistema operacional Microsoft? E será de admitir como legítima a invasãoda esfera familiar e infantil pela publicidade magalhânica, que já começou a promover coisas como«Ganha um iPhone 3G» ou «Ganha um Nintendo DS Lite»?
O aspecto mais importante para pais e outros interessados
Essas e muitas mais questões delicadas não constituem entretanto o objectivo deste artigo, quenão é motivado por considerações políticas, nem por qualquer posição "anti-tecnológica". Perante aautêntica febre que se abateu sobre empresas, governo e ministérios, quando decidiram a sangue frioderramar sobre a educação básica de Portugal uma absurda robotização da educação à base de meioselectrónicos, o mais importante para pais, pedagogos e a opinião pública em geral é constatar que setrata realmente de uma iniciativa perfeitamente caduca, esvaziada de fundamentos pedagógicos, e quehá quase 10 anos já demonstrou resultados catastróficos na Europa e na América. O efeito dosminicomputadores para a deformação das personalidades infantis, bem como para o empobrecimento
2
 
do contacto humano entre professores e alunos, é algo que já foi estudado em profundidade eminúmeras comunidades escolares e universidades em todo o mundo, revelando resultados assombrosos.Em Nova Iorque, por exemplo, durante uma campanha semelhante ao "Magalhães", muitosalunos usavam os minicomputadores para enviarem para os seus camaradas de classe soluções erespostas para testes e exames, bem como para descarregar filmes pornográficos, ou interferir nasactividades do comércio local. Após os pais e as escolas terem apertado as proibições internéticas – algo que também está previsto para o "Magalhães" – os alunos encontraram facilmente não só osmeios para ultrapassar as proibições, como ainda publicaram na internet os respectivos códigos, paraquaisquer outras crianças fazerem o mesmo. Além disso, muitos computadores apresentavamconstantemente irregularidades, e em dias de provas a internet entrava em colapso devido aos milharesde alunos que tinham os olhos cravados nos seus mini-ecrãs. Tal como aconteceu durante outrascampanhas oficiais de distribuição do tipo "Um-Computador-Para-Cada-Aluno", as autoridadesdecidiram retirar as máquinas das mãos dos miúdos.Conforme foi atestado por uma junta de educação, após setesanos não havia qualquer resultado que mostrasse um impacto positivo dos computadores sobre o rendimento escolar dosalunos. As maquinetas haviam se tornado pelo contrário umverdadeiro impedimento, provocando uma dispero naaprendizagem. Assim, os gigantescos problemas com amanuteão de milhares de aparelhos, mais o crescenteabandono dos computadores pelos alunos durante trabalhosescolares, e ainda o uso abusivo para outros fins, forçaramfinalmente os próprios professores a tomar uma medidaextrema: boicotar o seu uso.Até o Departamento Nacional de Educação dos Estados Unidos já apresentou um estudodemonstrando que não há diferença no sucesso académico (ou seja, nos estudos superiores após oensino secundário) entre alunos que anteriormente usaram, ou não, computadores para a aprendizagemdas disciplinas mais críticas: a matemática e a leitura.Entre muitos pais e educadores modernos instalou-se também a crença ingénua de que deixar desde muito cedo as crianças em frente de um aparelho de televisão ou vídeo contribuirá para torná-lasdepois mais espertas ou mais hábeis para lidar com computadores e outros aparelhos, quando entrarem para a escola. Na University of Washington foi atestado, pelo contrário, que as populares séries de programas infantis estão a fazer mais mal do que bem, especialmente no que diz respeito a criançascom dificuldades de desenvolvimento da linguagem. As crianças sofrem um efeito exactamenteinverso, deixando de aprender novos vocábulos.O resultado negativo do consumo de softwares,mesmo aqueles apresentados sob a etiqueta de«programas educativos», foi também verificado emestudos na Faculdade de Medicina da University of NewMexico. A vida das crianças em contacto com o mundoreal revelou-se como factor fundamental, sendo que ashabilidades linguísticas podiam ser melhoradas até como simples expediente das crianças ouvirem regularmentehistórias lidas por adultos. Os pesquisadores concluiramcom uma condenação cabal: a exposição prematura decriaas a programas audiovisuais, computadores,vídeos, etc. pode produzir o aparecimento de uma geração de crianças hiper-estimuladas e posteriormente deficitárias em termos de capacidade de concentração.Tipicamente, os promotores dos computadores para crianças em idade primária argumentamaos quatro ventos que «saber manipular desde cedo um computador» é algo que promove a habilidade
3
of 00

Leave a Comment

You must be to leave a comment.
Submit
Characters: ...
You must be to leave a comment.
Submit
Characters: ...