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O inferno das mulheres

O inferno das mulheres

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09/27/2013

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ESPECIAL
www.senado.leg.br/jornal
Ano XIX – Nº 3.96
Brasília, quinta-feira, 4 de julho de 2013
    P   a    b    l   o    V   a    l   a    d   a   r   e   s    /    A   g    ê   n   c    i   a    S   e   n   a    d   o
O INFERNODAS MULHERES
Apsa o igo pvisto na Li Maia a Pna,os spancamntos  assassinatos  basilias cscmano a ano. Uma cém-concluía CPI o Congsso Nacionalaponta as mias qu o po público v toma comugência paa qu as tagéias ixm  s pti
 
LeI MArIA dA PeNhALeI MArIA dA PeNhA
No Brasil,
 já é quase tradição
que a comoção popular diantede uma tragédia se ine tantoa ponto de mexer com as leis.Na virada dos anos 80 para
os 90, os sequestros dos empre-
sários Abilio Diniz e RobertoMedina orçaram a criação da
Lei de Crimes Hediondos, queenumera os crimes que não são
passíveis de fança e que torna
mais diícil a progressão dapena (a maior parte da pena
deve ser cumprida em regimeechado, na prisão). A lei seria
endurecida em resposta aoassassinato da atriz DanielaPerez e, depois, à morte do
menino João Hélio Fernandes,
num roubo de carro.
A Lei da Tortura nasceu
em 1997, na esteira da divulga-
ção de um vídeo que mostrava
policiais espancando inocentes— um deles oi assassinado —
na Favela Naval, em Diadema
(SP). A nova lei transormou atortura em crime, punível com
até 21 anos de prisão.
Aterrorizante, a história da
armacêutica Maria da Penha
Fernandes teve ingredientespara chacoalhar a opiniãopública da mesma maneira.
No fm dos anos 70, ela viviaem Fortaleza, casada com um
proessor universitário. Apósquatro anos de casamento, ocarinho do marido deu lugar
ao ódio. Do dia para a noite,
ela se viu no inerno, vítima de
berros e insultos, humilhada eintimidada diariamente. Pelo
temor de ser espancada, Mariada Penha não conseguia reagir.
À queima-roupa
Numa madrugada de 1983,o marido simulou um assalto
à própria casa e, com umaespingarda, atirou à queima-
-roupa na espinha da mulher
adormecida. O plano alhou.Maria da Penha sobreviveu,
mas fcaria para sempre presaa uma cadeira de rodas.
Ela passou quatro meseshospitalizada e voltou paracasa porque não imaginava
que o disparo havia partido do
marido. Logo viria o segun-do atentado. Dessa vez semazer teatro, ele a derrubouda cadeira de rodas sob um
chuveiro ardilosamente dani-
fcado. Maria da Penha só nãomorreu eletrocutada porque seagarrou, aos gritos, à parede do
boxe e a axineira correu paraacudi-la.
Na época, porém, aquelepesadelo não teve o mesmoapelo da história dos empre-sários sequestrados ou dos
inocentes torturados na Favela
Naval. A armacêutica não
conseguiu provocar uma reação
nacional. Ela teria de esperarquase 25 anos até que a Lei
Maria da Penha — que protege
as mulheres da violência do-
méstica e pune exemplarmenteos agressores — osse aprovada,em 2006. E não em decorrência
do clamor da sociedade, mas
sim de pressões internacionaissobre o governo brasileiro.
O marido de Maria daPenha protagonizou o exem-plo mais acabado da permis-
sividade das leis, da debilidadedo sistema judiciário e da orçado machismo. As tentativas dehomicídio ocorreram em 1983.
A sentença de prisão só saiu em
1991. Em razão de recursos ju-
diciais, nem sequer chegou a ser
preso. A condenação decidida
pelo júri oi anulada por su-
postas alhas no processo. Em1996, ele voltou a ser julgado e
condenado. Uma vez mais, asapelações o mantiveram livre,como se jamais houvesse per-
petrado crime nenhum.
Sentindo-se abandonadapela Justiça, a armacêuticadecidiu narrar seu drama na
autobiografa
Sobrevivi... Posso
Contar 
(editora Armazém da
Cultura). O livro caiu nas mãosde duas entidades de deesa dos
direitos humanos, que em 1998
lhe propuseram denunciar odescaso do Brasil à ComissãoInteramericana de DireitosHumanos, em Washington.
Maria da Penha topou.
Na queixa, argumentaram
que aquele não era um episódio
isolado. Entre os documentos,
enviaram uma pesquisa que
apontava que, das denúncias de
 violência doméstica apresenta-
das aos tribunais do país, pífos2% resultavam em condenação.
Silêncio
O Brasil ignorou os pedidos
de esclarecimento enviados de
 Washington. Ante o silêncio,
a Comissão Interamericana deDireitos Humanos decidiu em
2001 azer uma condenação
pública, para que o mundo ou- visse. Acusou o país de covar-demente echar os olhos à vio-lência contra suas cidadãs. Foi
uma humilhação internacional.
Só então o governo come-
çou a se mexer por uma leicontra a violência doméstica.Organizações eministas aju-
daram na redação do projeto.
A pressão da ComissãoInteramericana de Direitos
Humanos também oi decisivapara que o marido de Maria da
Penha osse posto atrás grades,
em 2002 — 19 anos e meioapós os atentados. Os crimes
caducariam aos 20 anos.
Em 2006, o projeto oi apro-
 vado pela Câmara e pelo Sena-
do e sancionado por Luiz Inácio
Lula da Silva, o presidente na
época. A Lei 11.340 ganhou o
apelido de Lei Maria da Penha— justa homenagem à mulher
que se recusou a aceitar a inérciadas instituições e mudou o des-tino das brasileiras para sempre.
No iNício
de 2006, o Brasilicou estarrecido diante danotícia de que Kadu Moliter-no, o bom moço das novelas,havia dado um soco na cara
da própria mulher. Ela saiu do
hospital com oito pontos no
nariz e um hematoma no olho.
Na época, a lei não via gravida-
de nesse tipo de agressão e elepagou pelo crime trabalhando
alguns dias numa instituição
flantrópica do Rio. Cumprida
a pena, sua fcha criminal estava
novamente limpa.
Se o rompante de úria deKadu Moliterno tivesse ocor-
rido poucos meses mais tarde,
o inal da história teria sidodierente. Em agosto daquele
mesmo ano, seria criada a Lei
Maria da Penha. A nova lei
acabou com a possibilidade de o
agressor de uma mulher livrar-
-se da condenação prestando
serviços comunitários, pagandomulta ou doando cestas básicas.Aquele soco poderia ter custado
ao ator três anos de prisão.No campo dos direitos hu-manos, a criação da Lei Maria
da Penha oi um dos avançosmais extraordinários do Bra-sil nos últimos tempos. A leicastiga com rigor os homensque atacam as companheiras
ou ex-companheiras. Para isso,obriga o poder público a montar
um extenso aparato de segu-rança e justiça especializado
em violência doméstica — de-
legacias, deensorias públicas,
promotorias e tribunais, todoscom uncionários que tenham
sensibilidade suiciente para
compreender a dor de uma mu-
lher violentada e humilhada.
Consciente de que a mulher
que ousa romper o silêncio
corre sério risco de vida, a Lei
Maria da Penha estabelece uma
série de medidas de proteção.
Uma vez denunciado, o algoz 
pode perder o porte de arma,
ter de sair de casa, ser obrigado
a manter-se a certa distância
da companheira ou até mesmo
ser preso preventivamente.
Enquanto isso, corre o processo
 judicial que poderá levá-lo à
condenação fnal. Se a mulher
é pobre, ela tem a possibilidadede sair de casa e reugiar-se com
os flhos pequenos numa casa--abrigo pública.— Pense numa mulher que
teve o braço quebrado pelo
namorado e em outra que teveo braço quebrado pelo vizinho.
A situação da primeira é muito,
muito mais grave. Muitas ve-
zes, ela e o agressor vivem sobo mesmo teto. E eles têm uma
ligação emocional, aetiva. Atendência é que as agressões
se repitam e, com o passar do
tempo, fquem mais brutais. Se
a mulher não procurar ajuda, asituação se transormará numaespiral da qual ela não conse-
guirá escapar ou da qual só sairá
morta — explica Ana Teresa
Iamarino, uma das diretoras da
Secretaria de Políticas para asMulheres, ligada à Presidênciada República.
Iguais e desiguais
A lei ederal que protege amulher da violência domésticasegue a mesma lógica das nor-
mas que preveem cotas para ne-gros nas universidades públicas,que reservam vagas para pesso-
as com defciência no mercado
de trabalho e que garantema idosos transporte públicogratuito, por exemplo. Leisdesse tipo se amparam num
princípio clássico — e por vezes
incompreendido — do direito,o que diz que justiça signifca
tratar igualmente os iguais edesigualmenteos desiguais.Como estãonuma históri-ca e lagrantedesvantagem,mulheres, ne-gros, defcien-tes e idososprecisam re-ceber um am-paro maior dopoder público.
O raciocínio se
aplica aos menores de idade,
que são protegidos pelo Estatu-to da Criança e do Adolescente.A Lei Maria da Penha esta-
belece que também são crimeso ataque sexual, o patrimonial,o psicológico e o moral — quecostumam ser os passos ante-
riores ao espancamento e ao
assassinato.
De tempos em tempos,casos de violência contra amulher ganham notoriedade
nacional. Em 2000, o jornalista
Pimenta Neves matou a tiros aex-namorada Sandra Gomide,
também jornalista. Em 2005, o
cantor e apresentador Netinho
de Paula agrediu a companheira
— ela afrmou que oi socada
no rosto; ele disse que a esbo-eteou. Em 2008, já com a Lei
Maria da Penha em vigência,
o ator Dado Dolabella atacou
a atriz Luana Piovani, entãosua namorada. Ele voltou àspáginas policiais dois anosdepois, por avançar sobre a
publicitária com quem acabarade se casar. Também em 2010,o goleiro Bruno Fernandes oi
acusado de encomendar a mor-te da ex-amante Eliza Samudio
— em março passado, ele oi
condenado.
Embora choquem a opinião
pública, esses casos isolados
não conseguem dar a dimensão
do problema. Trata-se de uma
tragédia nacional. A cada 15 se-gundos, uma mulher é agredida
no Brasil. A cada duas horas,
uma é assassinada. Nas últimas
três décadas, 92 mil brasileirasperderam a vida de orma vio-
lenta — é como se toda a popu-lação eminina de Ubatuba, SãoSebastião e Ilhabela, cidades do
litoral de SãoPaulo, tivesse
sido dizimada.
A taxa dehomicídio demulheres doBrasil (4,4assassinatos a
cada grupo de
100 mil mu-lheres) é bas-tante superioràs da Áricado Sul (2,8),dos Estados Unidos (2,1), do
México (2), da Argentina (1,2),
do Chile (1) e da Espanha (0,3).
Ao criar um crime chama-
do violência doméstica, a Lei
Maria da Penha busca mudar
comportamentos. Diante da
certeza da punição, os homens
 violentos pensarão duas vezesantes de agir. As mulheres
atacadas, por sua vez, não he-sitarão em denunciar. A ONU
considera a Lei Maria da Penha
exemplo para o mundo.
Poucas delegacias
As estatísticas, porém, jo-
gam um balde de água ria em
quem contava com resultados
substanciosos. Os assassinatoscontinuam aumentando ano aano. A única exceção oi 2007,logo após a lei entrar em vigor.O número de mulheres mortas
naquele ano oi ligeiramente
menor do que no ano anterior.
Em 2008, porém, a chacinaeminina recobrou o ritmo de
antes. E assim permanece.
Os 46 artigos da lei sãoeicientes. A alha está, ba-sicamente, na execução. Já
az quase sete anos que a Lei
Maria da Penha oi instituída,
mas ainda existem pouquís-simos tribunais e delegacias
especializados, os policiais das
delegacias comuns continuam
ignorando as denúncias das
mulheres, juízes machistas dão
razão ao homem agressor, as
medidas de proteção (como a
ordem para que o companheiro
se mantenha a certa distância)
demoram a ser expedidas — e,
uma vez expedidas, nem sem-pre são cumpridas —, altam
campanhas educativas que
incentivem a mulher a quebrar
o silêncio etc. Tantas alhas motivaram o
Senado e a Câmara dos De-
putados a criar no ano passadouma comissão parlamentar de
inquérito (CPI) dedicada a
investigar a rouxidão do poderpúblico no cumprimento da Lei
Maria da Penha.
Afrma a antropóloga Ce-
cilia Sardenberg, coordenadora
nacional do Observatório deMonitoramento da Aplicação
da Lei Maria da Penha:
— Entre o que a lei diz e
o que vemos na prática, existe
uma distância grande. Aindatemos muito por azer para
que a Lei Maria da Penha saia
integralmente do papel e de ato
proteja as mulheres.
Faz três décadas que
Maria da Penha Fernandes vive em busca de justiça. No
início, justiça era colocar o
marido atrás das grades.Depois, justiça signifcou
criar uma lei nacional queprotegesse as mulheres da violência doméstica. Ago-ra, justiça é não deixar queessa lei — a Lei Maria daPenha — vire letra morta.Aos 67 anos e paraplé-
gica, Maria da Penha é
 vigiada o tempo todo. Sua
casa, em Fortaleza, é reple-
ta de câmeras. Quando sai
à rua ou viaja, é seguida por
seguranças à paisana. Ela
alou ao
 Jornal do Senado
:
Seu ex-marido já cum-
priu a pena e está livre. Édele que a sra. tem medo?
Não é dele. Por causada Lei Maria da Penha,mulheres se livraram da
dominação de seus maridos
e muitos deles oram pre-
sos. Há homens por aí que
sentem muito ódio de mim.
É deles que tenho medo.
Como a sra. se sente
por dar nome à lei?
Sinto uma ponta de or-gulho. Mas, mais que isso,
sinto que tenho a obrigação
de azer a lei ser cumprida.
Viajo o Brasil inteiro divul-
gando a lei, explicando às
mulheres que precisam de-
nunciar os homens que as
agridem, que o poder pú-
blico está obrigado a azer
 justiça. Mas adianta existir
uma lei e eu me desdobrarpara torná-la conhecida se
a mulher, quando busca
socorro, encontra delegado
que não prende o agressore juiz que não o condena?
Por que ainda há dele-
gado que não prende e juiz 
que não condena?
Porque ainda somosuma sociedade machista,o homem crê queé dono da mulher.O policial e o juiz entendem que, sea mulher levou um
murro do marido, oi
porque ez algumacoisa para merecer.
Ou então que o casal
logo voltará às boas.
Se não izermosnada agora, quem
continuará apanhan-
do e morrendo hoje
somos nós. Amanhã,
serão nossas flhas.
...Não se Bate Nem com uma florvergoNha iNterNacioNal
Vidas perdidas
em  anos,tiplicou o númo mulsassassinaaspoano no Basil
Fonte:
Mapa da Violência 2012
 , doInstitutoSangari 
Ranking mundial
Compaaocompaíssmomicíiomuls,oBasilstánumospiospostos
(assassinatosacada100milmulheres)
Fonte:
Mapa da Violência 2012
 , doInstitutoSangari 
 
el Salvao
,
2TiniaTobago
7,
3Guatmala
7,
4rússia
7,
Colômbia
,
6Bliz
,
7BRASIL
,
8Cazaquistão
,
9Guiana
,
0Molávia
,
Em três décadas, ao menos 9 mil mulheres foram mortas dentro de seus lares.A Lei Maria da Penha busca frear a escalada da violência domésticaA lei contra a violência doméstica só foi criada após a Comissão Interamericana de Direitos Humanoscondenar o Brasil por ignorar o drama da farmacêutica Maria da Penha por quase 0 anos
 
`
a ê m Pn: qb B  pn p  pç 
“SOU UMASOBREVIVENTE”
 
`
m     nç n -b Bí:pçp n lm  Pn
Ricardo WestinRicardo Westin
Lei Maria da Penha, um divisor de águas
Fonte: SecretariadePolíticasparaasMulheres
COMO ERA ANTESCOMO É AGORA
 
Não xistia uma lisoba violênciaoméstica conta a mul 
A violência oméstica éum cimspcíco.A violência posísica,sxual,patimonial,psicológica moal 
A pna paa casoslsãocopoal m violência omésticaia 6 mssa ano pisão 
A pna paa lsão copoal mcasosviolência oméstica vai3 mssa 3 anospisão 
O juizpoia connao agssoa pagamulta,azsviçoscomunitáiosoacstasbásicas 
Pnassstipo são poibias 
Oscasosviolência omésticaiam paa osjuizaosspciaisciminais,qutatam cimscom mnogavia(pnaaté2 anospisão) 
Osjuizaosspciaisciminaispam a comptência paa julgacimsviolência oméstica 
Osjuizaosspciaisciminaistatavam só o cim.Asqustõsamília (spaação,pnsão,guaa los)cavam acago uma vaa amília 
Foam ciaososjuizaosspciaisviolência omésticaamiliaconta a mul,paatatatanto o aspcto ciminalquanto o aspcto amilia 
A mulpoia sistianúncia na lgacia 
A mulsó posistianúncia panto juiz 
ea a mulqumuitasvzsntgava ao agssoa intimaçãopaa qucompacssà auiência 
Époibia a ntga a intimaçãoao agssopla mul 
Não avia pisão mfaganto agsso 
A polícia poazapisão m fagant 
Não xistia pisão pvntivao agssopaa oscimsviolência oméstica 
O juizpoctaa pisãopvntiva noscasosm qua mulcoiscos 
O agssonão pcisavacompaca pogamascupação ucação 
O juizpotminaocompacimnto obigatóio oagssoa pogamassstipo
1980 1985 1990 1995 2000 2010
1.3531.7662.5853.3253.7434.2973.884
2005
    E    l   z   a    F    i    ú   z   a    /    A    B   r    E    l   z   a    F    i    ú   z   a    /    A    B   r
 
LeI MArIA dA PeNhALeI MArIA dA PeNhA
 Jorge amado
abre o clássi-co
Gabriela, Cravo e Canela 
narrando o aitivo momento
em que o azendeiro JesuínoMendonça agra a mulher,dona Sinhazinha, na cama
com o dentista Osmundo Pi-mentel e, sem hesitar, executa
os dois a tiros. Para a Ilhéus
dos anos 20, o marido traídoestava coberto de razão:
“E toda aquela gente ter-
minava no bar de Nacib, en-
chendo as mesas, comentando
e discutindo. Não se elevava
 voz — nem mesmo de mulher
em átrio de igreja — paradeender a pobre e ormosa
Sinhazinha. Mais uma vez o
coronel Jesuíno demonstrara
ser homem de fbra, decidido,corajoso, íntegro”.
Embora seja fccional,
Ga-
briela 
se baseia em elementos
da realidade daquela época.O Brasil evoluiu, mas certos
comportamentos arcaicos não
acompanharam. Em pleno
século 21, a violência contra a
mulher, das surras aos assassi-natos, atinge índices chocantes
(veja quadro ao lado)
. Trata-se
de uma “arraigadíssima tra-dição patriarcal”, segundo a
historiadora Mary del Priore,autora de
Histórias Íntimas — sexualidade e erotismo na histó-ria do Brasil 
(editora Planeta):
— Na Colônia, no Império
e até nos primórdios da Re-pública, a unção jurídica da
mulher era ser subserviente aomarido. Da mesma orma que
era dono da azenda e dos es-cravos, o homem era dono da
mulher. Se ela não o obedecia,
soria as sanções.
As sanções eram pesa-díssimas. Os arquivos paro-
quiais dos séculos 18 e 19 estão
repletos de relatos de senhorasque apanhavam com varas cra- vejadas de espinhos, que eramobrigadas a dormir ao relento,
que fcavam proibidas de co-mer por vários dias e até que
eram amarradas ao pé da camaenquanto o marido, no mesmo
aposento, deitava-se com a
amante. As esposas eram tão
brutalizadas que os bispos, em
certos casos, atendiam-lhes as
súplicas e concediam a separa-
ção de corpos.
Homicdio autorizado
A vida do Brasil colonialera regida pelas OrdenaçõesFilipinas, um código legalque se aplicava a Portugal eseus territórios ultramarinos.
Com todas as letras, as Orde-nações Filipinas asseguravamao marido o direito de matar
a mulher caso a apanhasse
em adultério. Também podia
matá-la por meramente sus-
peitar de traição — bastava umboato. Previa-se um único caso
de punição. Sendo o marido
traído um “peão” e o amantede sua mulher uma “pessoa demaior qualidade”, o assassino
poderia ser condenado a três
anos de desterro na Árica.
No Brasil República, as leis
continuaram reproduzindoa ideia de que o homem era
superior à mulher. O Código
Civil de 1916 dava às mulheres
casadas o status de “incapa-zes”. Elas só podiam assinar
contratos ou trabalhar ora decasa se tivessem a autorizaçãoexpressa do marido.
— O Brasil de hoje nãoé o Brasil do passado, mas ocontrole do homem sobre amulher persiste na memóriasocial — explica Lia Za-notta, do Departamento de
Antropologia da Universidade
de Brasília (UnB).
Assim, não se devem en- xergar os índices epidêmicosde violência contra a mulher
como resultado de transtornospsicológicos ou amílias deses-
truturadas. Não há nada mais
alacioso do que se creditarem
espancamentos e assassinatosao alcoolismo puro e simples,
por exemplo. O homem que
abusa da bebida normalmente
não ataca o amigo de bar nem
agride o vizinho. O alvo é,
premeditadamente, a mulher.
Mais do que individual,a violência doméstica é umenômeno histórico e social.O conceito de que o homemé superior, deve subjugar a
mulher e não permitir que eladecida sobre a própria vida oi
construído e solidifcado ao
longo dos séculos e se mantématé hoje, permeando toda a so-ciedade. Fatores como bebida,
droga, ciúme e desemprego
são meros estopins.
— O homem é criado para
não ter medo, não levar desa-oro para casa, ser o provedor
da amília e não demonstrarsentimento nenhum, com
exceção da raiva. Que meninonunca oi repreendido pelo paicom a ordem “seja homem”? A
mulher é criada ao contrário.
Segundo essa criação, elemanda e ela obedece. Ainda
somos uma sociedade machis-
ta — afrma Carlos Eduardo
Zuma, diretor do Instituto
Noos, uma ONG de direitoshumanos localizada no Rio.
Com a maior naturalida-de, o machismo é ensinado
diariamente dentro dos lares.Acabado o jantar, os meninos
estão liberados para ver TV,
mas as meninas precisam lavar
a louça. No fm de semana, os
adolescentes podem fcar narua até altas horas, enquantoas jovens têm horário para
estar em casa. O pai se enche
de orgulho quando ouve que oflho está namorando, mas fca
proundamente contrariado
quando quem está de namoroé a flha. Para não mencionar
as situações em que a mulher émaltratada pelo marido diantedos flhos — exemplo que eles
reproduzirão nos próprios
relacionamentos no uturo.
Legado dos vikings
A Islândia é apontada por
diversos estudos internacio-nais como o melhor país domundo para as mulheres —
em todos os aspectos. A taxa
de homicídios emininos,por exemplo, é zero. Não hádierença signifcativa entre
o salário dos homens e o dasmulheres. Na ilha, o machis-mo é abominado.
O invejável patamar de
civilidade serve para confrmarque a violência contra a mulher
é, sim, uma questão histórica
e social. Na era dos vikings,mil anos atrás, enquanto os
homens se lançavam ao mar,eram as mulheres que tinham
a responsabilidade de manter a
ilha uncionando. Elas jamaisoram vistas como ineriores.Não por acaso, a Islândia oi,
em 1980, o primeiro país do
mundo a eleger uma presiden-
te mulher, Vigdís Finnboga-dóttir — que, além de tudo,
era mãe solteira.Em 2010, num baile unk 
no Rio, o jogador de utebolAdriano e a namorada pro-
tagonizaram uma briga espe-
tacular, com pedradas e em-
purrões. Poucos dias depois, o
goleiro Bruno Fernandes saía
em deesa do colega de equipe:— Qual de vocês [jornalis-
tas] que é casado e nunca bri-
gou com a mulher? Que nunca
saiu na mão com a mulher? Éum problema pessoal do cara.
Em briga de marido e mulher,
ninguém mete a colher.A ala de Bruno oi revela-dora e desastrosa. Reveladora
por escancarar um compor-tamento que é generalizado(a violência doméstica), masraramente conessado. E de-sastrosa por apresentar essecomportamento como natu-
ral. O tom quase inocente dadeclaração oi um sinal clarode o quanto o machismo está
enraizado na sociedade. Meses
depois, o goleiro se veria en-
redado no assassinato de Eliza
Samudio, sua ex-amante.
Mansão e avela
A superioridade ísica dos
homens vem desde os pri-mórdios da espécie humana.Segundo investigações cien-tífcas, o vigor masculino se justifca — ironicamente —
pela necessidade de conquistaras mulheres. Levava vantagem
no cortejo da êmea o macho
que se mostrava orte o suf-
ciente para, primeiro, derrotar
os demais pretendentes e, de-pois, garantir a sobrevivênciada amília. Pela lei da seleção
natural, só os mais robustos
se perpetuaram. O problemaé que, desde então, muitos se
aproveitam da orça herdadados ancestrais para dominar
as mulheres.De acordo com as delega-
cias especializadas na violência
doméstica, as partes do corpo
que os homens mais atacam
são o rosto e os seios. Há casos
de homens que erem a testa
da companheira usando mar-cador incandescente de gado.
Com esses alvos, o objetivosubjacente é destroçar-lhes aautoestima e impedi-las deserem desejadas por outro
homem — assim, fcam presas
ao agressor para sempre.
No ano passado, rodaram omundo otos em que a cantora
pop Rihanna aparecia com aace deormada pelos murrosdo namorado, o cantor de rapChris Brown. É um exemplo
que derruba os estereótipos.
Ambos são amosos, ricos, es-clarecidos e vivem nos Estados
Unidos, país particularmenteintolerante à violação das leis.Não existe um perfl clás-sico do homem agressor nem
da mulher agredida. A violên-
cia doméstica não tem classe
social. Ocorre nos bairros
nobres e nas avelas. Não tem
escolaridade. Humilha tanto
as mulheres pós-graduadas
quanto as que mal sabem as-sinar o nome. Não tem raça.
Indistintamente, ere brancas,negras, orientais e índias. Não
tem país. Homens avançam
sobre suas companheiras das
regiões mais miseráveis da
Árica às mais desenvolvidasda Europa.
Há tempos, o direito de
matar a mulher, previsto pelas
Ordenações Filipinas, deixou
de valer. O machismo, porém,
sobreviveu nos tribunais. O
Código Penal de 1890 livrava
da condenação quem matava“em estado de completa pri- vação de sentidos”. O atual
Código Penal, de 1940, abre-
 via a pena dos criminosos
que agem “sob o domínio de violenta emoção”. Os “crimes
passionais” — euemismo para
a covardia — encaixam-se à
pereição nessas situações.
Doca Street
Em outra bem-sucedidatentativa de aliviar a respon-
sabilidade do homem, os ad- vogados inventaram o direitoda “legítima deesa da honra”.O caso mais emblemático oi
o do playboy Doca Street,que em 1976 matou a tiros a jovem e bela Ângela Diniz,em Búzios (RJ). O primeiro julgamento oi em 1979. A
deesa a acusou de traição e a
classifcou de “mulher atal”.
A estratégia deu certo. DocaStreet saiu livre do tribunal e
chegou a ser aplaudido na rua.Anos mais tarde, ele admitiria
ter se sentido constrangidocom a absolvição. Em 1981,por pressão dos movimentos
eministas, voltou a ser julgado
e só então oi para a prisão.
Advogados até hoje in- vocam a “legítima deesa dahonra”. Se vivesse hoje, Je-suíno Mendonça, o coronel
assassino de
Gabriela, Cravo e Canela 
, teria chance de livrar--se da prisão.O machismo é uma praga
histórica. Não se elimina danoite para o dia. A criaçãoda Lei Maria da Penha, em
2006, prevendo punição para
quem agride e mata mulheres,
oi um primeiro e audacioso
passo. Antes, muitas brasilei-
ras não denunciavam porque
sabiam que seriam ignoradas
pelas autoridades. E muitos
brasileiros agiam com absolutatranquilidade porque davam a
impunidade como certa.— Em 2013, tivemos dois
 julgamentos históricos. O go-leiro Bruno oi condenado peloassassinato de Eliza Samudio.
E o policial Mizael Bispo deSouza, pela morte de Mércia
Nakashima. Até pouquíssimo
tempo atrás, isso seria incon-cebível no Brasil — diz Jacira
Melo, diretora-executiva do
Instituto Patrícia Galvão.O segundo passo contra omachismo é a educação. PeloBrasil aora, no mesmo estilodos Alcoólicos Anônimos, há
grupos de ajuda para mulheres
que não conseguem se des- vencilhar dos companheiros
 violentos e outros para homensque não sabem rerear o ímpe-to de agredir as companheiras.
Mas o tipo de educação que
mais dá rutos é a que se ensina
na escola. Afrma Maria daPenha Fernandes, a mulher
que dá nome à lei:
— O que muda o com-portamento da sociedade é a
educação. Temos que ensinar a
nossos flhos desde pequenos,
na escola, que a mulher merecerespeito. Antes, ninguém usa- va o cinto de segurança. Hoje,
a primeira coisa que a criançaaz ao entrar no carro é avisar
ao pai que ele precisa pôr o
cinto. Quando ela crescer, nem
sequer passará por sua cabeçanão usar o cinto. Na violência
contra a mulher, a lógica é amesma. Tenho é que lá na
rente os homens aceitarão asmulheres como iguais. Nessemomento, a Lei Maria da Pe-nha se tornará desnecessária.
 
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dormiNdo com o iNimigo
No Brasil, o machismo de hoje é herança dos tempos coloniais. Ainda que de forma inconsciente, os homens se consideram donos das mulheres e não aceitam que elas sejam livres para decidir sobre a própria vida
ROBERTA RIBEIRO,40anos,ajudantedecozinhaem Jacare(SP):“Nocomeço,elemelevavaparapassear,davaores.Eutinhaanosquan-donoscasamos.Asagressõeslogocomeçaram.Eramchutesesocosnacabeça,norosto,nosbraços.Qualquerproblemaquetivesse,comoaltadedinheiro,diziaqueeueraaculpada.Parameatingir,eleatacavanossasquatroflhas.Apsseteanos,decidiiràdelegacia.Fuiváriasvezes.Apolcianuncaagiu.Quandopediasepara-ção,eleameaçoumematar.Chegouameatacarquandoeuiaparaotrabalho.Elepassousetemesespreso—masporespancarasflhas.Atéhojemepersegue.Minhavidaéumpesadelo”.REJANEDEJESUS,5anos,axineiraemBraslia:“Quan-docomeçamosonamoro,eleeramuitogentileamoroso.Engravideieomosmorar juntos.Quandonossaflhatinhaano,eudescobriqueelemetraa.Eunãoaceitei,claro,maselenãogostoudaminhareação.Passouamexingarehumilhar.Agotad’águaoiquandoelemedeuumsocononarizetentoumeestrangular.Tivequememudarparaacasadaminhamãeeasagressõespassaramaacontecercadavezqueelevisitavaaflha.Elequeriaqueeuvoltasseamorarcomele.Soriduranteumanoatétercoragemdedenunciá-loàpolcia.Hojeeleestáproibidodeseaproximardemim,masaindatenhomuitomedo”. J.R.S.,5anos,carpinteiroemBeloHorizonte:“Vivemos juntospor0anosetivemosseisflhos.Eladecidiumedeixarporquenãoaguentavamaisomeuproblemacomabebida.Emvezdemeajudarabuscartratamento,elamehumilhouemeabandonou.Issonãoseaz.Houveagres-sõesdasduaspartes,empur-rões,nadaquemachucasse.Elametiravadosério.Umavezfqueicomtantaraivaaoencontrá-laporacasonaruaquepegueiummontedeterraejogueinacaradela.Outravez,deiumabicudanoportãodecasa.Elasemprechamavaapolcia.Fuipresováriasvezes.Hojesouobri-gadoafcaramaisde00metrosdela.Sechegarperto,voupresodenovo”.V.S.,22anos,metalúrgicoemBeloHorizonte:“Gostomuitodela[daex-namorada],massempretivemosdiscussões.Euadmito:nãosouosanti-nhodahistria.Comeceiafcarignorantedepoisqueperdioempregoetiveumadepressão.Umanoite,emvezdedormircomigo,elaquisfcarnacasadairmã.Oqueéquecustava?Griteicomela,xinguei,aperteiobraço,machuquei.Foramváriasidasevindas.Outravez,fngiqueestavaarmadoparaobrigá-laaconversarcomigo.Depois,dissequematariaospaisdelasenãovoltassecomigo.Pormaisquegostedela,jureiquenãovouprocurá-la.Passei13diaspreso.Nãoqueroviveressetraumadenovo”.
Ricardo Westin e Cintia Sasse
    E    l   z   a    F    i    ú   z   a    /    A    B   r
 
Fonte: PesquisaAvon/Ipson e
Mapa da Violência 2012
 A caa 
1 segunos
 ,uma mulher é agred id anoBrasil
 6 9 %
  d a s  ag r e s s õ e s  c o n t r a  m u l h e r e s  o c o r r e m  d e n t r o  d e  c a s a
 6 5 %
  d o s  a t a q  u e s  a  m u lh e r e s  s ã o  c o m e ti d o s  p o r  s e u s  c o m p a n h ei r o s  o u  ex - c o m p a n h ei r o s
2
 a mhee a gea e pocam aenmeno no  S  S   já oam aacaa ane
 5 3 %
  d a s  m u l h e r e s  a s s a s si n a d a s  t ê m  e n t r e  2 0  e  3 9  a n o s
 o baeo conhecem a gma mhe e oe oê nca oméca
 A cada
duas horas
 , umabrasileira é assassinada
    R   e   p   r   o    d   u   ç    ã   o    /    J   e   a   n  -    B   a   p    t    i   s    t    D   e    b   r   e    t    A   r    t    h   u   r    M   o   n    t   e    i   r   o    /    A   g    ê   n   c    i   a    S   e   n   a    d   o

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