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Fernard Cornwell
Filha da Tempestade
CAPÍTULO UMO MAR chorava. Era um mar cinzento a que um vento súbito deravida; um mar agitado desencontradamente, salpicado de branco. Nestascondições, os pescadores diziam que o mar chorava e garantiam que era um prenúncio de catástrofe.- Isto não vai durar - disse a minha mulher, Joanna, falando da irasúbita do mar.Estávamos os dois no cais do nosso estaleiro olhando para asnuvens negras que subiam o canal da Mancha. Era Sexta-Feira Santa, aofim da tarde, mas, pela temperatura do ar, mais parecia Novembro, e o mar cinzento e agitado parecia o de Janeiro. O vento atraira os praticantes dewindsurf, claro, e as suas velas de cores vivas deslizavam no mar sombrio,ressaltando perigosamente na rebentação da barra do estuário.- Não vai durar - insistiu Joanna, como se pudesse atrair o bomtempo da Páscoa com a força da sua convicção.- O pior ainda está para vir - comentei eu com pessimismo.- Está bem, não podemos largar hoje, mas de certeza que podemossair amanhã de madrugada - concluiu ela mais realisticamente.Fora nossa intenção fazer uma passagem nocturna até à ilha deGuernsey, onde morava a irmã de Joanna e onde a familia dela costumavareunir-se, depois da missa, para o almoço pascal de cabrito assado e batatinhas novas. Esta reunião de familia na Páscoa era já uma tradição, eJoanna e eu encarávamo-la com um prazer muito especial, agora quetínhamos recuperado das tragédias da morte do nosso filho e dodesaparecimento da nossa filha. O tempo talvez o tivesse saradocompletamente essas duas feridas gémeas, mas pelo menos tinha-as coberto
 
de várias camadas de tecido cicatricial. Em suma, a vida voltava ao normal,e com a normalidade voltavam todos os pequenos problemas quotidianos.Para já, o nosso maior problema era um yawl de quatro toneladas emeia que estava pronto para ser lançado à água quando o condutor da gruao abalroou com a lança da máquina. Os estragos eram superficiais, mas o proprietário vinha ao estaleiro no dia seguinte, à hora do almoço, e contavaencontrar o seu barco na água, aparelhado e pronto para largar. Billy, onosso capataz, recém-casado, oferecera-se para ficar e reparar os estragos,mas ele já me ia substituir no fim-de-semana da Páscoa, por isso mandei-o para casa, para junto da mulher, e reboquei eu próprio o grande yawl até ao barracão. Enquanto raspava a zona danificada à luz dos holofotes, eu ia planeando a viagem do dia seguinte. Se as previes meteorogicasestivessem certas e este temporal súbito acalmasse, podíamos sair do rio aoromper do dia e chegar a Guernsey à hora do jantar.Pelo cair da noite, parecia improvável que o tempo melhorasse atéde madrugada. O vento uivava com tanta força que alguns dos sócios doClube Naval nos pediram a lancha emprestada para irem buscar uma fila de barcos à vela do clube às amarrações, situadas a meio rio, e os trazerem para o abrigo dos nossos pontões. Joanna ajudou-os, depois passou duashoras a pôr em dia a contabilidade do estaleiro antes de se aventurar a sair àrua para comprar duas doses de bacalhau com batatas fritas na rua principalda terra. Enquanto ela estava fora, telefonou Harry Carstairs.Carstairs era um vendedor de iates que trabalhava num gabinetecom ar condicionado em Londres, no bairro chique de Mayfair. Os clientesdele não eram os velejadores modestos que me davam a ganhar o pão decada dia, mas sim os super-ricos, que podiam dar-se ao luxo de manter umlugar permanente na marina de Monte Carlo. O movimento do nossoestaleiro não estava à altura dos negócios de alto coturno de Carstairs, masnesse ano Joanna e eu, por acaso, tínhamos à venda um grande sloop decasco de aço. O Stornchild, cotado em 150000 libras, estava no topo dagama do nosso stock, mas mal atingia a gama inferior dos barcos que Harryvendia.-Tenho um cliente em perspectiva para o "monstro" -disse-me ele com a sua pronúncia de champanhe e caviar. - Amanhã dá-lhe jeito?
 
Hesitei antes de responder. Ultimamente, Joanna e eu tínhamosfalado em ficar com o Stormchild para nós. Sonhávamos em vender a nossacasa, arranjar um gerente para tomar conta do estaleiro e depois zarpar para paragens exóticas. O problema é que era só um sonho, e eu sabia que nãoestávamos prontos para essa mudança, como sabia que não podia ignorar uma boa proposta de compra do grande barco de aço.-O Stormchild ainda cá está - respondi relutantemente aCarstairs. - E o estaleiro está aberto das nove às seis, por isso pode vir àvontade. Peça a chave do Stormchild ao meu capataz.-O cliente está aí ao meio-dia - disse Harrrrv. - Vai tentafazer baixar o preço para as cento e dez mil libras, mas eu já lhe disse quevocê não descia abaixo das cento e trinta mil.-Espere lá! - protestei indignadamente. Não era o preçosugerido que me irritava, mas sim a certeza da parte de Harrv de que euestaria dispovel para mostrar o Stormchild ao cliente dele. - Por essaaltura, vou eu a meio caminho de Guernsey. Porque é que não lhe mostravocê o barco?-Porque vou estar em Maiorca a impingir um palácioflutuante a um xeque das Arábias - disse Harry. Depois de uma pausa,acrescentou: - Está bem, Tim, se não quer vender o seu barco, diga-me sóse sabe o que é feito daquele yawl alemão que estava no cais do Cobb?Ainda continua à venda?-Vá para o diabo - resmunguei, provocando umagargalhadinha cínica de Harry, que sabia que Joanna e eu nunca devíamoster aceitado o Stormchild na nossa lista de vendas.O grande iate estava para além das nossas possibilidades, mas ia ser vendido por morte do proprietário; a viúva era uma velha amiga da família enão nhamos tido coragem de recusar o pedido dela para que nosencarregássemos da venda. Por sentimentalismo, nhamos, inclusive,renunciado à nossa comiso de intermediários, mas nem assimconseguíramos vender o velho barco, e portanto o casco de quinze metrosdo Stormchild ocupava há um ano um espaço precioso no nosso estaleiro.Harry Carstairs sabia que eu estava desesperado e era por isso que tinhatanta certeza de que eu ia alterar os meus planos para a Páscoa.
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