/  13
 
DIREITOS HUMANOS OU"PRIVILÉGIOS DE BANDIDOS"?
 
DESVENTURAS DA DEMOCRATIZAÇÃO BRASILEIRA
 
Teresa Pires do Rio Caldeira
 
Apesar de a violência e a criminalidade serem problemas constantes nasgrandes cidades, em cada contexto as experiências da violência são singularese moldam de maneiras distintas o imaginário a respeito do crime e as práticasadotadas em relação a ele. Na última década, em São Paulo, entre os vários as-pectos associados à experiência da violência um chama a atenção por sua im-portância política e por seu caráter absurdo: o apoio que conseguiu junto à po-
 
pulação uma campanha de oposição à defesa de direitos humanos. De reivindi-cação democrática central no processo da chamada abertura política, defendidapor amplos setores da sociedade, os direitos humanos foram transformados, nocontexto de discussões sobre a criminalidade, em "privilégios de bandidos" a se-rem combatidos pelos homens de bem. Ao mesmo tempo, cresceu considera-velmente na cidade o apoio a formas violentas e privadas de combate e preven-ção do crime. Minha intenção é discutir como foi possível essa transformação ecomo o novo sentido se tornou popular entre a maioria dos moradores de SãoPaulo. Fazendo isso talvez se possa começar a imaginar caminhos para quebrara associação que atribui aos direitos humanos uma valoração negativa
1
.
 
Não seria demais afirmar que a noção de
direitos
foi central no deba-te político dos últimos quinze anos e no processo de democratização da so-ciedade brasileira. Ela adquiriu nesse período distintos significados, à medi-da que se associava a diferentes práticas sociais. Muitos desses significados epráticas representaram uma novidade na história política recente e uma am-pliação da abrangência do que é considerado como fazendo parte dos direi-tos dos cidadãos na sociedade brasileira. No entanto, como o caso da campa-nha contra os direitos humanos parece demonstrar, existem significados con-flitantes e limites postos à expansão dos direitos na sociedade brasileira. Am-bos — significados e limites — devem ser considerados se se quiser entendero impasse político a que foram levados os defensores dos direitos humanos.
 
A partir de meados dos anos 70, e sobretudo durante os anos 80, a no-ção de direitos foi substancialmente alargada no Brasil. A expansão iniciou-
 
(1) Este texto apresenta
 
resultados parciais dapesquisa A Experiênciada Violência: Ordem, De-sordem e DiscriminaçãoSocial no Brasil, que vemsendo realizada no Ce-brap sob minha coorde-nação e com financia-mento da Fundação Ford,da Fundação Inter-Ameri-cana e do Social ScienceResearch Council.
 
162
 
NOVOS ESTUDOS Nº 30 - JULHO DE 1991
se pela ênfase dada aos direitos políticos e, junto com eles — dado que a si-
 
tuação incluía a tortura e a prisão política —, aos direitos humanos. Isso acon-teceu num discurso basicamente liberal e em que se defendiam os princípiosda democracia, da participação política, da livre expressão e assim por dian-te. A defesa desses direitos associou-se à campanha de oposição que levouao fim do regime militar, à anistia política, ao fim da censura, ao fim da tortu-ra a presos políticos e à sua subseqüente libertação. Foi ainda nesse diapasãoque articulou-se a eleição de governadores em 1982 e a campanha das dire-tas, e legitimou-se a noção de participação popular, que passou a se dar demodo bastante novo no cenário nacional.
 
Da perspectiva dos grupos dominados, a expansão mais significativae inovadora da noção de direitos foi a que se deu no bojo dos movimentossociais dos anos 70 e 80. Através desses movimentos, as camadas popularese as minorias não só legitimaram a idéia de que tinham direitos a serem rei-vindicados e atendidos, como qualificaram e especificaram uma longa sériedesses direitos. Na maioria das vezes, as reivindicações eram feitas de um mo-do particularizado: reivindicavam-se creches, por exemplo, e não direitos deum modo geral. Foi através da multiplicação dessas reivindicações específi-cas que passaram a ser legitimados, na cidade de São Paulo, os direitos à saú-de, à moradia, ao transporte, à habitação, à iluminação pública, ao uso de cre-ches, ao controle sobre o corpo e a sexualidade, à diferença étnica e assimpor diante, num processo de adjetivação que às vezes parecia ser quase ilimi-
 
tado. Legitimada a idéia de direitos, foram inúmeras as associações que se fi-zeram a ela. No entanto, a maneira pela qual a adjetivação se dava e se legi-
 
timava parece ter sido sempre a mesma: através de processos de organizaçãopopular. Ou seja, a qualificação e legitimação de direitos específicos foi sem-pre um processo de mobilização política.
 
A expansão dos direitos levada a cabo pelos movimentos sociais apartir de meados dos anos 70 tem, assim, três características básicas. Em pri-meiro lugar, os novos direitos eram basicamente direitos coletivos, pois asreivindicações eram feitas por uma comunidade — que no processo políticoafirmava uma identidade comum — e para o conjunto de seus membros. Não
 
se tratava da expansão de direitos individuais. Conseqüentemente, e esta é asegunda característica, a reivindicação de direitos deu-se no interior e foi ins-trumento de uma organização das camadas populares e de grupos minoritá-rios sem precedentes na história brasileira. Não apenas vários direitos foramqualificados e reconhecidos nesse processo, mas as camadas populares e asminorias foram, através de suas organizações, legitimadas como atores polí-ticos. Finalmente, como em geral se tratava de direitos sociais, a instituiçãobásica de referência no processo de expansão dos direitos era o governo (po-der executivo), que passou a responder às novas demandas.
 
Muitas vezes, e em muitos contextos nos últimos anos, as noções dedireitos e de direitos humanos confundiram-se. Direitos à saúde e à moradia,por exemplo, como direitos à vida digna, têm sido considerados como direi-tos humanos. Sobretudo na linguagem da igreja católica, direitos humanossão todos aqueles que afetam as condições de vida dos dominados. Assim
 
163
 
DIREITOS HUMANOS OU "PRIVILÉGIOS DE BANDIDOS"?
sendo, falar em direitos simplesmente ou em direitos humanos em referênciaàs camadas trabalhadoras tem sido mais ou menos equivalente, e ambas asexpressões foram usadas nos movimentos sociais que expandiram e qualifi-caram os direitos. No entanto, parece que essas expressões foram separadasno imaginário popular, pelo menos em São Paulo, a partir do momento emque os direitos humanos foram claramente associados aos prisioneiros co-muns que se amontoavam nas piores condições nos presídios superpovoa-dos e, sabia-se, eram vítimas constantes de torturas e toda sorte de maus-tra-tos
2
. Essa associação de direitos humanos a presos comuns suscitou reaçãoextremamente vigorosa e começou a revelar os limites do processo de expan-são e qualificação dos direitos.
 
Na verdade, esses limites ficaram postos de modo relativo, uma vezque não se questionou a idéia de direitos em geral, mas sim a de direitos hu-manos. Até hoje, a população de São Paulo considera o atendimento médico,a educação, as creches etc. como seus direitos mais caros. A noção de direi-tos humanos, contudo, foi dissociada desses direitos sociais e passou a vin-cular-se de modo cada vez mais forte e exclusivo ao grupo dos prisioneiroscomuns, a ponto de que hoje em dia em São Paulo falar em direitos humanos
 
é remeter aos prisioneiros. Mais do que isso, a reação à defesa dos direitos hu-manos forçou de modo tão negativo e enfático a associação com criminosos,que atualmente a defesa de direitos humanos suscita massiva oposição junto
 
à população de São Paulo. Nas entrevistas que estou realizando com mora-dores de todas as camadas sociais de São Paulo, apesar de a maioria enfatizara necessidade de respeito a vários direitos sociais, são bem poucos aquelesque não declaram ser "contra os direitos humanos". Na verdade, são contra oque eles consideram ser "regalias para bandidos", mas na prática e no discur-so acabam reagindo contra a idéia de direitos humanos de um modo geral.Dado o absurdo da situação, é importante entender como se chegou a isso.
 
Antes de mais nada, deve-se mencionar que a campanha em defesados direitos humanos para prisioneiros comuns, bem como a sua contesta-ção, articularam-se publicamente no momento em que a cidade de São Pau-lo apresentou seus maiores índices de criminalidade violenta das últimasduas décadas, ou seja, durante o período 1983-1985. Esses foram os doisprimeiros anos do governo Montoro e, portanto, da tentativa de humanizaçãodos presídios e de reforma da polícia. Nesse contexto, o medo e a inseguran-ça foram manipulados com facilidade pelos opositores à defesa de direitoshumanos, ao mesmo tempo em que, sutilmente, a criminalidade foi sendo as-sociada a práticas democráticas. O fato de que após 1985 (portanto, metadedo governo Montoro) as taxas de criminalidade violenta tenham decrescidosistematicamente não foi suficiente para desfazer a impressão de perigo cres-cente criada nos anos anteriores e capturada pelo discurso contra os direitoshumanos
3
.
 
Vários atores sociais estiveram envolvidos no debate sobre os direitoshumanos nos anos 80. Basicamente, foram quatro os atores que articularamem público a defesa dos direitos humanos aos prisioneiros comuns em SãoPaulo: a igreja católica (e sobretudo o arcebispo de São Paulo, Dom Paulokkk
 
(2) Casos de violação dedireitos humanos são do-cumentados em: Améri-cas Watch Committee —
Police Abuse in Brazil.
Nova York: AméricasWatch Committee, 1987,e Anistia Internacional —
Tortura e Execuções Ex-tra-judiciais nas Cidades Brasileiras.
Londres:Anistia Internacional,1990.
 
(3) Para uma análise dasestatísticas de crime vio-lento na cidade de SãoPaulo, ver Vinícius Cal-deira Brant, org.
São Pau-lo
Trabalhar e Viver.
São Paulo: Brasiliense,1989, Cap. 8.
 
164

Share & Embed

More from this user

Recent Readcasters

Add a Comment

Characters: ...