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Gravando o Povo Brasileiro

Gravando o Povo Brasileiro

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Diário da gravação da série "O Povo Brasileiro", baseada na Obra de Darcy Ribeiro. Direção geral Iza Ferraz, Produção Superfilmes. Tive como companheiros na direção de fotografia José Guerra e Adrian Cooper
Diário da gravação da série "O Povo Brasileiro", baseada na Obra de Darcy Ribeiro. Direção geral Iza Ferraz, Produção Superfilmes. Tive como companheiros na direção de fotografia José Guerra e Adrian Cooper

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05/16/2010

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Gravando “O Povo Brasileiro”
Promessa é dívida. Quando da publicação do artigo “Filmando o Povo Brasileiro”, assumi o compromissode contar aqui a outra metade da história. Então, lá vai:Dinheiro. Sempre o dinheiro! E chato ficar falando: - Eu avisei, eu avisei! Mas quando tomei conhecimentodo orçamento de que dispúnhamos para captar toda a série , ficou claro para mim que não conseguiríamosfazer tudo em Super 16. A opção que me pareceu mais interessante era captar num dos formatos digitais:ou DVPro, ou DVCam.. Analisando prós e contras, conclui que o pequeno diferencial de qualidade doDVPro (4:2:2) não era suficiente para superar a universalidade e as facilidades de operação e manutençãooferecidas pelo DVCam (4:1:1). Nesses tempos de consumismo globalizado se podem formar times. Por exemplo: De um lado os PC, Volks,Sony . Do outro os Mac, Fiat, Panasonic . E eu pertenço ao primeiro time, mas estou sempre aberto àdiscussão (só que não agora, por favor!). Confesso que chegamos a cogitar o beta analógico, mas preços e principalmente, volume e peso, deram ganho de causa ao digital.Uma escolha sempre leva à outra: Alugar ou comprar? Eu que já tinha prometido a Santa Clara nunca mais possuir nenhum tipo de equipamento de camera, fosse de cinema ou de vídeo, quebrei a promessa e meassociei à Superfilmes na compra de uma Sony DSR-300 com os acessórios básicos.Porém até que decidíssemos isso, a série seguia seu cronograma e fomos viajar para Minas para captar o“Brasil Caipira” com uma DSR-200, minha velha conhecida, pois tinha sido eu que especificara a suacompra no ano passado, quando fiz com o dono dela, Marcelo Machado, um documentário nos USA. Naquela ocasião a camereta mostrou seu valor. Gravamos com ela desde geleiras no Alaska a menos 10 C ,até o Vale da Morte, no deserto de Mojave onde fazia 46 C . Nenhum pau, e ótima operação. A qualidade?Bem, é uma camera com 500 linhas de definição horizontal , mas se você comprou consciente disso, elanão vai lhe decepcionar. Limitações: Não tem regulagem de pedestal! Você pode até ajustar o hue daimagem, mas o pedestal não. Porque? Perguntem a Sony. Ela provávelmente vai responder: -O que vocêesperava de uma camera que custa U$ x.xxx,xx? Tem lógica...Minas Geraes. Já dá vontade de ir citando Guimarães Rosa. Me contenho em nome da objetividade.Morei no interior de Minas por cinco anos. Foram anos de exílio profissional. Mesmo assim, nuncaconsegui olhar para aquele “mar de montanhas” sem imaginar como seria fotografa-lo. De manhãzinha eao entardecer forma-se um degradê de azuis que é um deslumbre. Uma paleta generosa, com mais de umadezena de tons. Um desafio para a latitude da camera e também para o conceito de exposição do fotógrafo.O resultado está lá e é para ser visto, não descrito.
 
Tentei sempre compensar a amostragem menor da crominancia do formato (4:1:1), saturando mais ascores através da utilização de filtros polarizadores e enhancer. Funcionou bastante bem. A portabilidade doequipamento foi sempre um ponto alto.Documentário para mim significa camera de prontidão o tempo todo. Tudo pode acontecer a qualquer momento e em qualquer lugar. Portanto, olho vivo e dedo no botão. Em outros tempos ( que já parecem a pré-história...) fiz muito documentário em 35mm com as Arris 2B. Resultava numa forma branda dehalterofilismo, que me deixou com dois antebraços parecidos com os do Popeye. Deformações profissionais. Ao pé da letra... Com a camereta os problemas são de outra natureza. Uma fita que gravaduas horas pode te transformar num perdulário, se você não impor uma rígida disciplina ao olhar. Emalguns momentos é bom pensar que v. esta filmando em 65mm só para conter a gastança e a língua doeditor depois... No quesito sensibilidade, a criança brilhou. Interior de Minas é só 110 volts, e com aqueles fios fininhos.Para ligar um HMI de 1.2 KW tem que pedir pra desligar a geladeira e deixar o pessoal da casa sem banhoquente até segunda ordem. Problemas de produção que a Fernanda Senatori tirava de letra.Pela topografia do local, quase sempre as janelas davam para um arvoredo, o que diminuía bastante oestouro da luz exterior. Como sempre, eu andava com um rebatedor de espelho para mandar o sol paradentro da casa. Uma chapa de isopor articulada se encarregava de difundir a luz na direção desejada.Tínhamos assim sempre a mesma temperatura de cor que no exterior. Se quiséssemos falsear um pouco, para simular um skylight, era só botar um ½ blue em frente do espelho. Funciona!Gosto muito de misturar fontes de luz artificial nestes interiores dia. Assim ando sempre com lâmpadas de60 e 100 W e com a ajuda de uma “girafa”, coloco-as em campo onde quero. Acho que acrescenta umaconchego à imagem, além de ser exatamente como as casas são iluminadas por lá. Nos esbaldamos naquelas varandas generosas que circundam as casas. Só um fillzinho de rebatedor aolonge, ajudava a destacar os personagens do fundo.Senti falta de distancias focais mais longas na objetiva. A zoom, não intercambiável, tem um range pequeno, e tínhamos apenas o elemento que converte para grande angular.Para não dizer que tudo foram rosas, quando chegamos em Cristina, no alto da serra, o play-back pifou e passei a trabalhar às cegas, como se fosse cinema (sem vídeo-assist!!!). Ajudado pelo João Godoy e suamalinha mágica, fiz algumas tentativas de limpar a cabeça de reprodução, mas nunca logrei faze-lointeiramente. Mas, como via alguns flashes de imagens gravadas, sabia que era só um problema dereprodução. Meu diretor de cena, Mauro Faria, que vem do cinema, não estressou. E foi assim quefizemos cinema..... em vídeo!Quando voltamos para São Paulo encontramos a DSR-300 nos esperando. Brinquedo novo. Leva para casae testa daqui, experimenta dalí, grava carta de cor, tabela de cinzas, chart de resolução. É como se v. nãoacreditasse numa vírgula do que está no manual e quisesse , qual São Tomé eletrônico, checar item por item as especificações do produto. Haja!!!
 
Uma descoberta: Mesmo as cameras que se destinam ao mercado norte-americano vem com o ajuste do pedestal em 0 IRE (NTSC japonês), ao invés dos 7.5 do NTSC americano. Porque? Pergunte ao Morita...Assim, aqueles que como eu já vão colocando de cara - 5 de pedestal e - 20 de gamma, CUIDADO!!!Você pode estar esmagando os pretos... ( para os não iniciados é uma tradução prá lá de livre da expressão“Crush the blacks” usada para explicar o que acontece quando se enterra demais o pedestal de uma camerade vídeo.)On the road again. Brasil Sulino. A verba cortou os açorianos de Santa Catarina, de modo que fomos direto para o Rio Grande do Sul. Abro um parênteses: Sou um indivíduo de formação laica, materialista, mas nãode todo ateu. Com tudo isso, toda vez que vou para o sul do continente americano me bate uma sensação deque já andei por lá em outras épocas. Um “dejá-vù” recorrente, que certamente tem algo a ver com o prazer que tive na adolescência ao ler a trilogia “O Tempo e o Vento” do Érico Verissímo.Confesso que a convivência com esse “alter-ego” gaúcho é muito prazerosa. A paisagem, a culinária e osmodos são sintonizados por mim sem nenhum esforço. E é claro que isso se reflete nas imagens. Assim nãotenho porque esconder que de todos os episódios da série em que fiz a fotografia principal (1) o que maisgosto fotográficamente é o Brasil Sulino. Uma parte do crédito vai com justiça para o meu diretor de cena,Flávio “Cariri” Frederico. Bom de olho, com pique de documentarista e ótimo companheiro. Estivemos em Porto Alegre, nas lagoas ao sul, na Serra Gaúcha e na fronteira com o Uruguay (se nãogostamos que escrevam Brazil com z, eles também não gostam de Uruguai com i...) . POA é uma dascapitais que mais filmei ao longo da carreira. Todos aqueles pontos de vista manjados, como aquele morroonde estão as emissoras de TV, são velhos conhecidos. Mas ao invés de evita-los tento sempre que osrevisito, faze-lo com um novo olhar. Se consegui desta vez, vocês é que vão dizer.Uma coisa interessantíssima que gravamos, foram os Guaranis no centro da cidade vendendo artesanato eesmolando. Um contraste que de certa forma, antecipou as imagens das comemorações dos 500 anos emPorto Seguro, que eu veria na tv semanas depois.Outra situação insólita foi um festival umbandista nas margens do rio Guaíba. Pais e Mães de Santo loiros,alguns de celular. Despachos com quindim e vinho tinto. Fez um entardecer maravilhoso com sol dourado enuvens negras do lado oposto ao poente onde se formava uma tempestade. Por sorte, só resultou numchuvisco irritante, de encomenda para respingar a objetiva a cada dois minutos.Fomos numa favela que dava de dez em muito bairro popular de São Paulo e Rio. O produtor local,Fernando Tielzmann, insistia em que era um local perigoso, mas o máximo que conseguiu de nós foi aobservação de que seu umbral para a violência urbana era quase europeu se comparado ao nosso. Num esforço para conseguir algum material sobre a colonização açoriana e também para captar algo danatureza da região lacustre , fomos passar um dia na Lagoa do Peixe. Chegamos em Mostardas, uma pequena cidade de colonização açoriana, onde nos juntamos aos guias do Parque Nacional da Lagoa do

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