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A RELEVÂNCIA DA BÍBLIA NA CULTURA PORTUGUÊSAE UMA PROPOSIÇÃO FINAL SOBRE 3 ESCRITORES
 
Poeta
 
 João Tomaz Parreira
Palestra a ser realizada na Igreja Baptista de Moscavide, em 23/5/2009Em Outubro de 1835 a Sociedade Bíblica de Londres envia a Lisboa GeorgeBorrow –
o dom Jorgito de las Bíblias
como ficaria conhecido de Madrid aSevilha - com o propósito de difundir a Bíblia em Portugal. Sabe-se poucosobre esta estadia, conhece-se no entanto a finalidade da mesma, adivulgação da Bíblia desde a perspectiva cristã evangélica.
Infelizmente muito pouco as autoridades de então deixaram fazer,razão pela qual o enviado da Sociedade Bíblica Britânica e autor daobra The Bible in Spain, de 1842, rumou para a dita Espanha a fim dedistribuir as Sagradas Escrituras. Este inglês que apreciava a arte dacatedral de Sevilha, Jorgito Borrow, quis encontrar antes a sociedadeespanhola da época, ciganos, toureiros, foragidos da justa,contrabandistas, flibusteiros, policias, camponêses, para edificar nelesa Cultura protestante.Em relação a Portugal, a primeira ideia que nos ocorre é a de que arelevância da Bíblia na história e na cultura portuguesas, se prima poralguma coisa é pela ausência. Apesar de um século e meio pelomenos de esforços evangélicos e de Sociedades Bíblicas. Tomandomesmo em linha de conta iniciativas extraordinárias, de grandíssimoalcance social e religioso, como a não muito distante mas até hojeúnica Bíblia Manuscrita que transversalmente passou por todo o paíse que o Ministério da Cultura considerou de «superior interessecultural».
Contudo, a investigação das Escrituras Sagradas, de uma forma definitivadesignadas por Bíblia Sagrada, Velho e Novo Testamento, foi, é e continuaráa ser a melhor influência para tradições artísticas, filosóficas, históricas e daprópria narrativa literária de qualquer nação.É usual afirmar-se que as duas grandes fontes do conhecimento modernodo mundo e da humanidade se encontram nos velhos campos da Grécia ede Roma, apesar de Fernando Pessoa afirmar sempre que a transiçãocultural da Grécia para Roma se tenha exercido por meio da decadência.Seja como for, acrescenta-se normalmente que o mundo judaico-cristão,que as desafiou e absorveu, também bebeu dessas fontes.
 
E a provar esse entendimento, é costume falar-se em figuras fundadoras ecom obra fundacional como Homero, Sófocles, Dante e o póprio apóstoloPaulo, entre outras., pom, um Livro que contém Civilização, que aborda as CiênciasNaturais, as Geografias, a Zoologia, a Biologia, que fala do Ritual religioso,do Heroísmo, das Epicidades, da Poética, que aborda até a Filologia, queesclarece sobre Humanidades e que revela a Divindade, afinal as origens dafundação de tudo. É incontestável o nome desse Livro, Bíblia Sagrada, quena diversidade unívoca dos seus 66 livros é a Palavra de Deus, traduzidapara as nossas línguas modernas e vivas por Lutero na Alemanha ou porWycliffe e William Tyndale e autorizada pelo Rei Jaime, na Inglaterra, outraduzida por J.N.Darby ou Louis Segond, na França, Casiodoro de Reina eCipriano de Valera, em Espanha, ou por João Ferreira de Almeida emPortugal.Um exemplo como simples indicador, embora a sua importância sejaincontornável, está no facto da Bíblia constar no currículo do Departamentode Literatura do conceituado MIT (Massachusets Institute of Technology),havendo também indicações de que constou como cátedra importante nanossa Universidade de Coimbra.Com efeito, a blia integra o estudo dos denominados Peodos daLiteratura do Mundo, embora com um todo discutível a seguir àLiteratura Clássica e antes da Literatura Medieval. De qualquer forma, noconsagradíssimo MIT a ênfase concedida à Bíblia reconhece-lhe lugar dedestaque, ainda que só cultural e pedagogicamente, como Texto fundador ecentral do pensamento religioso, ético, político e cultural, e, sem dúvida,antropológico, para além obviamente do Divino.Na nossa Academia, a importância da Sagrada Escritura manifestou-se numprimeiro século que terá começado em 1537 até 1640, depois deste últimoano até 1910, havendo registo actual no acervo da UC de teses dedoutoramento sobre essa magnífica cátedra. Para além de outras presençasinfluenciadoras, como foi, por exemplo, o caso da exegese judaica medievalnos comentários bíblicos portugueses do Séc. XVI, designadamente ocomentário ao Cântico dos Cânticos, em 1599.Há autores na nossa história literária que são muito centrais, conducentes àinfluência marcante e explícita da Bíblia Sagrada, embora tal nem sempreseja reconhecido. Mesmo tendo em consideração aqueles que, como JoséSaramago ou Verlio Ferreira, a tenham usado no sentido da suadesconstrução do divino.Começaria, sem dúvidas, por Camões, valorizando aqui o texto poéticodesignado por redondilhas, o célebre
Sôbolos rios
, e o belíssimo
soneto
Sete anos de pastor Jacob servia \ Labão, pai de Raquel, serrana bela \ Masnão servia ao pai, servia a ela.
No que concerne ao primeiro, a pluralidade dos meios usados paraexpressar aquela que é a dor do exilado, ou talvez a dolorosa experiênciapor que passou na foz do Mekong - o naufrágio, a visão global que a sua
 
leitura permite - de acordo com um estudo já com mais de vinte anos daprofª catedrática da FLUL Maria Vitalina Leal Matos, publicado in Colóquio-Letras - remete-nos para variados elementos da composição, sendo o demaior importância, a nosso ver, o Salmo bíblico 137 quase integral, queCamões transpõe ora em paráfrase, ora em aproximação da letra, ora quaseipsis verbis do texto da Vulgata Latina, de S. Jerónimo, do Século IV d.C.Mas Luís de Camões não recorre apenas aos salmos, também a inclusão dametomia da Pedra, como mbolo cristogico e eclesial, faz umareferência ao texto do Evangelho Segundo Mateus, proveniente com certezada leitura do Novo Testamento ainda segundo a Vulgata: «Tu és Petrus etsuper hanc petram aedificabo ecclesiam meam.»A rapsódia que acaba por ser Babel e Sião (mais conhecido no vernáculoactual por Sobre os rios) contém um conjunto de fragmentos em que pordetrás dos mesmos os temas bíblicos assumem preponderância, tornando-se evidentes numa leitura conhecedora.O conhecido camonista Vasco Graça Moura precisa mesmo que se detectamem Camões vestígios vocabulares e temáticos dos salmos penitenciais e deoutros textos bíblicos.Por fim, nessas mesmas redondilhas renascentistas, alguém considerou comacerto que Caes quis «exprimir em bolos Rios a ntese do seupercurso interior por uma mudança de canto que era a metonímia do seureencontro com Sião, depois do caos da Babilónia.»Quanto ao célebre soneto atrás referido, Sete anos de pastor Jacob servia,o vestígio bíblico do Livro do Génesis é notório. É público para aqueles queconhecem bem o trajecto atribulado do filho menor de Isaque, aimportância de Jacob na história profética da promessa do nascimento deuma grande nação e da história profética da Redenção. Todavia a estruturado soneto, sendo respeitadora da história, não deixa de apresentar na suaarquitectura o hino ao amor, na brevidade do tempo, que Camões quissobretudo entoar:«Começa de servir outros sete anos, / Dizendo: - Mais servira, se não fora /Pêra tão longo amor tão curta a vida!»Esta paráfrase não se encontra, como é sabido, no texto bíblico, trata-seapenas da conclusão camoniana, interpretando afinal o grande amor deJacob por Raquel.Repassando a tempos mais modernos, ao século XX e ao crescimento dasigrejas evangélicas desde o início desse Século, por exemplo, no ambientelusófono, vamos encontrar em um poema do brasileiro João Cabral de MeloNeto, uma periférica referência à Palavra de Deus, enquanto geradora denovos carácteres, de novas pessoas, pelo poder do Evangelho. O poemaClaros Varones, que diz assim:O administrador José Ferreira
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