/  18
 
1
Rumo a 2010 – Uma proposta para a economia brasileira
1. Introdução 
Em 15 de Setembro 2008 uma era acabou.As economias emergentes até aquele momento pareciam estar podendo superara crise econômica que tomou os paises desenvolvidos. Mas a quebra do banco
Lehman Brothers 
gerou uma “parada súbita” nos fluxos de câmbio e crédito parao Brasil, acelerando o processo de desarticulação do modelo econômico seguidopelo governo Lula.A instalação da crise no Brasil gera duas questões conjugadas. Primeiro, comoreagir a crise? Segundo, qual o modelo de desenvolvimento possível em mundopós-bolha? Acreditamos que é útil dizer que a primeira questão é
conjuntural 
,enquanto a segunda é
estrutural 
.Nessas paginas vamos expor um conjunto de idéias que, ao nosso ver,oferecem um
diagnóstico 
preciso tanto da crise atual, em sua dimensão global,como do modelo econômico seguido durante o governo Lula e que hoje sedesarticula. Desse diagnóstico acreditamos surgirão as possíveis respostastanto para as questões conjunturais como estruturais que enfrenta a economiabrasileira.Não há, infelizmente, uma “grande proposta” nessas paginas, como foi a URVno caso do Plano Real. Há, porem, uma
idéia 
central. Acreditamos que essacrise oferece uma oportunidade única para resolver um dos grandes problemasseculares da economia brasileira:
a absurdamente alta taxa de juro real 
. Comoconstataremos, essa idéia de que há uma oportunidade na crise, é o centrológico de tudo que vamos discutir.
Todas 
as nossa propostas tem essa questãocomo pano de fundo.Nosso roteiro: Primeiro, vamos fazer um diagnóstico sobre a crise internacional.Apesar de todas as incertezas sobre o rumo da economia global, podemos comum certo grau de certeza determinar porque chegamos aqui, o que vai ter queser feito internacionalmente para sair da crise e como isso deve afetar o Brasilnos próximos anos. Depois vamos oferecer um diagnóstico sobre a economiabrasileira na era Lula e em função disso como se tem reagido a criseinternacional.Com base nisso vamos descrever porque acreditamos que essa crise naverdade oferece uma
oportunidade 
única para ajustar, de forma consistente esustentável, a questão dos juros no Brasil
sem 
quebrar contratos oucompromissos do Estado brasileiro. Discutiremos aqui, também, a questãopolítica e como articular essa questão com a eleição de 2010. Acreditamos quea situação atual de fato tem alguns determinantes em comum com a situação
 
2
que antecedeu o lançamento do Plano Real e, como iremos fundamentar, nossaproposta guarda paralelos estritos com o Plano Real.Finalmente vamos discutir o que, ao nosso ver, tem que ser feito para aexecução dessa proposta do ponto de vista das políticas monetária, cambial efiscal.
2. A Crise Internacional 
Crises com essa dimensão, fato histórico inédito que será exaustivamenteanalisado por muitas gerações, não têm um conjunto de causas único ou de fácildeterminação. Pensamos que têm muito em comum com o que acontece namaioria dos acidentes aéreos: uma série de pequenos erros que levam àcatástrofe.Mas entre muito dos fatores que contribuíram para essa crise, há um quequeremos apontar porque sua solução será necessária para a superação finalda situação atual.Acreditamos que o nexo da crise atual é a relação entre um conjunto de paisesdesenvolvidos com alta propensão a
consumir 
(o maior sendo os EstadosUnidos, mas incluindo a Inglaterra, a Espanha entre outros) e um outro conjuntode paises com alta propensão para
produzir e exportar 
(todos paises asiáticos,liderados pela China).A simetria entre esses paises é quase perfeita. Os países consumidores têmmercados de credito e capitais altamente desenvolvidos. Os paises produtores,não. Os países consumidores têm baixíssimas taxas de poupança; osprodutores altíssimas. Entre esses se estabeleceu um circuito de produto,tecnologia e divisas que define a
globalização financeira 
pelo qual o mundopassou nesses ultimo anos. Os paises desenvolvidos fornecem seu
know how 
 tecnológico e de distribuição, montando e utilizando nos paises produtores vastaredes de produção. Os paises produtores, com seus mercados financeirospouco desenvolvidos e com forte propensão para poupar
1
, aplicam a receita desuas exportações nos mercados financeiros dos próprios paises consumidores,financiando o consumo deles. E assim foi por muitos anos.Sabemos que a acumulação de déficits de conta corrente, como os de paísesconsumidores, implica em algum momento na reversão do déficit comercial parafazer frente ao passivo acumulado, que, na contrapartida, são ativos financeirosdos paises produtores. Tal reversão pode ocorrer via uma combinação de quedado consumo (e também das importações) com desvalorização cambial.
1
Propensão apontada por muitos analistas devido a certas qualidades da cultura asiática; osfortes abalos políticos (guerras, revoluções) por quais muitos desses paises passaram, gerandoum certo conservadorismo; e a falta, especialmente na China, de um sistema de bem estarsocial. O contraste com paises da América latina deve ser feito.
 
3
O problema é que para ambos os países no centro desse nexo mundial, os EUAe a China, não foi interessante deixar esse mecanismo econômico funcionar.Apesar desse processo anteceder o governo Bush, a resposta ao estouro dabolha da internet e os efeitos do ataque de 11/9 foi perseguir uma política deforte expansão fiscal, via aumento de gastos e de corte de impostos, somada aforte expansão monetária, com o então chefe do Fed, Alan Greenspan, baixandoa taxa de juros para 1% ao ano.Essa política gerou, como prevê a teoria econômica, crescentes pressões sobreo balanço de pagamentos e a desvalorização do dólar americano. Mas a China,como a maioria dos paises asiáticos, perseguiu uma política cambial paraimpedir a apreciação de sua moeda contra o dólar, o que implicou na compramassiça de ativos financeiros americanos.Tal oferta de crédito encontrou demanda no mercado imobiliário americano
2
.Assim nasceu a bolha imobiliária. Essa bolha teve duas peculiaridades. Primeiro,os títulos lançados, por estarem lastreados por imóveis, ofereciam a ilusão deserem de baixo risco, por terem por trás um ”ativo real”, em um mercado quenunca viu quedas nominais de preço no período pós-guerra, razões citadas pormuitos dentro do mercado e do governo para argumentar que não havianenhum problema apesar da escalada meteórica dos preços. Segundo, a altano preço dos imóveis ofereceu um ganho ilusório de riqueza, que possibilitou aoconsumidor médio americano, que não viu nenhuma alta nos sua renda realdurante os anos Bush, usar sua casa como colateral para aumentar oendividamento pessoal. E esse endividamento crescente também não era vistocom preocupação, porque “lastreado” em um ativo, o imóvel, cujo valor estavacrescendo.É assim que uma bolha inicialmente imobiliária se transformou
em uma bolha de crédito 
. Tal processo aconteceu, em menor grau, em vários outros paisesconsumidores, assumindo um caráter global.Por que os governos deixaram esse processo insustentável continuar ate suaeventual exaustão e final catastrófico? A razão é simples e política: suasrespectivas populações lucraram com o processo. Nos paises consumidores, ailusão de riqueza permitiu níveis de consumo bem maiores do que seria possíveltendo em vista a renda real. Nos paises produtores, a forte expansão daprodução e exportações permitiu milhares de camponeses, subempregados oudesempregados acharem trabalho nos centros urbanos. Qual governo,
2
O fato das empresas “quase-publicas” Fannie Mae e Freddie Mac serem emissoras de grandeparte dos créditos imobiliários e de gozarem, até a crise, de
ratings 
AAA possibilitou que grandefluxo soberano asiático fosse direcionado diretamente ao financiamento imobiliário eindiretamente, para a compra de títulos do tesouro americano.

Share & Embed

More from this user

Add a Comment

Characters: ...