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A PROFISSÃO DE FÉ DO VIGÁRIO SABOIANOJean-Jacques Rousseau(Do
 Emile
,
 Emílio, ou da Educação)
Tradução de J. Brito Broca e Wilson LousadaFonte: Clássicos JacksonHá trinta anos que, em uma cidade da Itália, um jovem expatriado se via reduzido àúltima miséria. Nasceu calvinista, mas uma estroinice o levara fugitivo e sem recursos a paísestrangeiro, e teve que mudar de religião para poder comer. Havia na cidade umalbergue para convertidos. Nele foi admitido. À medida em que o iam instruindo nasartes da controvérsia, infundiam-lhe dúvidas que não tinha, ensinavam–llie o mal queignorava. Falaram-lhe de novos dogmas; presenciou costumes mais novos ainda, de queesteve para ser vítima. Quis fugir, encarceraram-no; queixou-se e castigaram-no por suas queixas. À mercê de seus tiranos, foi tratado como um criminoso por não querer ceder ao crime. Só os que sabem como um coração ainda tenro, se exaspera com a primeira prova da violência e da injustiça poderão avaliar o estado do seu. Dos olhos,corriam-lhe lágrimas de raiva, a indignação sufocava-o; implorava ao céu e aos homens,confiava-se a todo o mundo, e ninguém o ouvia. Só via à sua volta fâmulos vissubmetidos ao infame que o ultrajava, ou cúmplices do mesmo crime que zombavam dasua resistência, incitando-o a imitá-los. Se não fosse um eclesiástico que passou peloalbergue, e com quem pôde desabafar em segredo, estaria perdido. O eclesiástico era pobre, necessitava de todo o mundo, mas o oprimido ainda mais necessitava dele; e nãovacilou em favorecer-lhe a fuga, ainda com risco de ganhar um perigoso inimigo.Escapado ao vício para cair na indigência, o moço não cessava, de lutar contra odestino; houve ummomentoem que julgou sobrepor-se-lhe. Aos primeiros lampejos dasorte, esqueceu-se de seus males e do protector. Mas logo sofreu o castigo dessaingratidão; todas as esperanças se lhe desvaneceram. A juventude favorecia-o, mas emvão; suas idéias romanescas deitavam tudo a perder. Não tinha capacidade nem astúciaque lhe abrissem caminho fácil, e, como não era morigerado nem malicioso, tantascoisas pretendeu que não alcançou nenhuma. Caído novamente na miséria, sem pão,sem asilo, quase a morrer de fome, lembrou-se de seu benfeitor.Procurou-o outra vez, encontrou-o, e foi bem recebido. A presença do jovem recordouao eclesiástico uma das boas acções da sua vida; lembranças destas rejubilam sempre aalma. Era um homem naturalmente humano, compassivo, que avaliava, pelas suas, as penas dos outros; o bem-estar não lhe endurecera o coração, e as lições da sabedoria euma virtude esclarecida tinham-lhe fortalecido a boa índole. Acolheu o moço ediligenciou–lhe um abrigo, onde o recomendou, repartindo com ele tudo de quedispunha, que mal chegava para os dois. Fez mais: instruiu-o, consolou-o, ensinou-lhe adifícil arte de suportar pacientemente a adversidade. Homens de preconceitos,esperaríeis, porventura, isto de um padre e na Itália?Este honrado eclesiástico era um pobre vigário saboiano, de mal com seu bispo, devidoa uma aventura de juventude, e que atravessara os montes em busca dos recursos quelhe faltavam em seu país. Não carecia de talento nem de cultura; com uma figurainteressante, encontrou protectores que o colocaram em casa de um ministro, comoeducador de seu filho. Preferia a pobreza à dependência, e não sabia como se conduzir com os grandes. Não ficou muito tempo com este, mas não perdeu sua estima, quando o
 
deixou; e, como levava uma vida sensata e era estimado de toda a gente, alimentava aesperança de reconquistar um dia o apreço do bispo e obter um pequeno curato nasmontanhas, onde passasse o resto da vida. Não tinha mais ambições.Sentia natural inclinação pelo moço fugitivo, e estu-dou-o atentamente. Verificou que amá sorte já lhe tinha secado o coração, que o opróbrio e o desprezo lhe haviam abatido acoragem, e que a sua altivez, transformada em amargo despeito, lhe mostrava apenas, nainjustiça e na soberba dos homens, o vício da suanaturezae a quimera da virtude. Paraele, a religião era apenas a máscara do interesse, e o culto sagrado a salvaguarda dahipocrisia; o paraíso e o inferno eram, na subtileza das vãs disputas, simples jogo de palavras; via a sublime e primitiva ideia da Divindade desfigurada pelas caprichosasimaginações dos homens; e, convencido de que, para crer em Deus, era mister renunciar ao raciocínio que ele nos deu, sentia o mesmo desdém pelas nossas ridículas fantasias e pelo seu objecto. Como não sabia nada sobre o que existe, nem meditava sobre a génesedas coisas, caiu em uma estúpida ignorância e em profundo desprezo pelos que julgavam saber mais do que ele.O olvido de toda a religião leva o homem ao olvido de todos os deveres. Mais demetade deste caminho já tinha sido percorrido no coração do libertino. Não era, noentanto, um moço de maus sentimentos; mas a incredulidade e a miséria iam-lheminando a pouco e pouco a boa índole, e precipitando rapidamente a sua perda, dando-lhe os hábitos do mendigo e a moral do ateu.O mal, quase inevitável, não estava, porém, totalmente consumado. O moço tinhaalguns conhecimentos e havia cultivado a sua educação. Estava nessa idade feliz em queo sangue, fermentando, começa a levar calor à alma, sem a escravizar ao furor dossentidos. A dele ainda estava na posse de toda a sua iniciativa. O constrangimento eranele modéstia inata, seu carácter tímido prolongava-lhe esse período em que o alunotantos cuidados requer. O exemplo odioso da depravação brutal é do vício sem encantosnão lhe estimulavam a imaginação, amorteciam-lha. A repugnância foi. durante muitotempo a virtude que lhe conservou a inocência; esta só devia sucumbir a seduções maisdelicadas.O eclesiástico viu o perigo e o remédio. As dificuldades não o desanimavam.Comprazia-se na sua obra e resolveu levá-la até ao fim, restituindo a virtude à vítimaque havia arrancado à infâmia. Tomou com calma a execução do seu projecto; a belezado tema dava-lhe coragem e inspirava-lhe meios dignos de tanto zelo. Fosse qual fosseo resultado, estava certo do que não perdia, o seu tempo. Quando só se pretende fazer o bem, sempre se triunfa.Começou procurando ganhar a confiança do rapaz, não lhe levando nada pelos seusserviços; não era inoportuno, nem lhe fazia sermões, pondo-se sempre ao seu alcance ediminuindo-se para se colocar ao seu nível. Era um espectáculo impressionante ver como um homem grave se tornava o camarada de um vadio, e como a virtudesintonizava com o vício para deste obter triunfo mais seguro. Quando o estouvado lhefazia suas loucas confidências, expandindo-se com ele, o padre ouvia-o e punha-o àvontade; não aprovava o mal, mas demonstrava interesse por tudo; nunca lhe detinha aloquacidade ou lhe confrangia o coração com uma censura indiscreta. O prazer de sesaber ouvido era ainda maior que o de não ter que calar nada. Fez, assim, uma confissãogeral, sem saber que se estava confessando.
 
Depois de lhe estudar bem os sentimentos e o carácter, viu o padre claramente que,embora não fosse um ignorante para a sua idade, havia esquecido tudo quanto lheinteressava saber, e que o opróbrio, a que a sorte o reduzira, ia apagando nele todo overdadeiro sentimento do bem e do mal. Há um grau de embrutecimento que arranca avida à alma; e a voz interior não chega ao que só pensa em alimentar-se. Para preservar o desventurado moco desta morte moral, de que tão perto se encontrava, começou por lhe despertar o amor próprio e a estima por si mesmo; apontava-lhe um destino maisfeliz, se empregasse melhor as suas capacidades; reanimava em seu coração umgeneroso ardor, contando-lhe as belas acções dos outros, e, provocando-lhe a admiração pelos que as haviam feito, incitava-lhe o desejo de os imitar. Para afastá-loinsensivelmente daquela vida ociosa e vagabunda, mandava-o copiar extractos de livrosescolhidos; e, fingindo que necessitava deles, incutia-lhe o nobre sentimento doreconhecimento. Doutrinava-o indirectamente por esses livros. Fazia-o formar umconceito bastante lisonjeiro de sua própria pessoa para que não se julgasse um ser inútil para o bem, nem se visse desprezível aos seus próprios olhos.Um simples episódio nos dará ideia dos métodos de que este homem benemérito seservia para elevar insensivelmente o coração do aluno acima das baixezas humanas, semque ele pressentisse tal intuito. Era tão patente a probidade do eclesiástico e tão firme oseu bom senso, que muita gente preferia confiar-lhe suas esmolas em vez de aos padresricos das cidades. Certo dia, em que lhe deram algum dinheiro para os pobres, teve omoço a fraqueza de, a título de pobre, pedir-lhe a sua parte. — "Não, disse-lhe o vigário, nós somos irmãos, és coisa minha; e só devo tocar nestedinheiro para o empregar como me foi determinado." A seguir, porém, deu-lhe de suaseconomias a quantia solicitada.Lições como esta raras vezes se perdem no coração dos homens que não estãototalmente corrompidos.Já estou cansado de falar em terceira pessoa; a preocupação é inútil porque você já viu,meu caro concidadão, que esse infeliz fugitivo era eu. Creio-me bastante desviado dosdesatinos da juventude para poder confessá-los, e a mão que se me estendeu bemmerece que eu, sacrificando embora um pouco de vergonha, preste algumashomenagens aos benefícios que dela recebi.O que mais me sensibilizava era ver, na vida particular do meu digno mestre, a virtudesem hipocrisia, a humanidade sem desfalecimentos, juízos sempre rectos e simples, euma conduta constantemente de acordo com esses juízos. Não lhe importava saber se osque recebiam seu auxílio iam ou não à missa, se se confessavam muitas vezes ou jejuavam nos dias de preceito, se faziam abstinência, nem lhes impunha outrascondições semelhantes, sem as quais morreríamos de necessidade se tivéssemos quecontar com a ajuda dos devotos.Suas observações davam-me coragem, e, longe de alardear em sua presença o zelo próprio de um novo prosélito, nunca lhe ocultava meu modo de pensar, sem neleadvertir jamais o menor sinal de reprovação. Pensava às vezes comigo: perdoa-me aindiferença pelo culto que abracei pela que me vê ter também pelo culto em que nasci;sabe que a minha indiferença já não é sectarismo. Mas que pensar, quando o ouvia, devez em quando, aprovar os dogmas contrários aos da Igreja romana, parecendo não ter 
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