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Gênero em debate: Masculinidade - texto 3

Gênero em debate: Masculinidade - texto 3

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Published by: Coletivo Feminista Dandara on Aug 08, 2013
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08/12/2013

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GUEST POST: COMO O MACHISMO LIMITA A VIDA DE UM HOMEM
Eu cresci nos tempos da Guerra Fria, e o que mais ouvia era propaganda anti-comunista. O melhor exemplo que o comunismo era prejudicial à sociedade é que as pessoas não podiam cumprir seus sonhos. Era o estado que determinava sua profissãoe até mesmo seus hobbies. Ou seja, a pessoa não tinha direito algum como indivíduo.Pois é, este email que recebi do Rubens e pedi pra transformar em guest post (e quedialoga bastantecom o post que publiquei no Dia Internacional da Mulher) melembrou muito da propaganda que ouvi durante tantos anos. Será que são apenas osestados totalitários que limitam nossa individualidade? Essa é a única ditadura queconhecemos? Ou há outras que nos impedem de sermos o que queremos ser e deagirmos como queremos agir, em nome de uma suposta masculinidade que não passade uma construção social? O guest post do Rubens é muito ilustrativo.
 Conheci seu blog há um ano. Tenho entrado nele desde então quase todo dia,adoro seus textos, você fala com discernimento sobre assuntos delicados, sempreilustrando seus argumentos de forma clara. Vi neste espaço que há muitas pessoas quecompartilham com alguns pensamentos meus e percebi também que possoreconsiderar outros tantos e melhorá-los.Sou homem, hétero, talvez eu não faça partedo
“seleto” grupo “padrão” por ser filho de negra com nordestino... Ah, se não fosse
isso, eu seria perfeito! (ironia, se me permite).Estou aqui para contar para você como o machismo atrapalha a minha vida.Acho que seria importante um relato vindo de um homem, mostrando algunsexemplos de como esse tipo de mentalidade atrasada não apenas prejudica asmulheres como nós homens também!O machismo começou a afetar a minha vida desde criança. Quando eu erapequeno gostava de brincar com as meninas de pique esconde, lenço atrás, essasbrincadeiras de roda e cantigas e tudo mais. Não ligava muito para futebol ou
“lutinha”, não gostava de brincadeira de “meninos” e era visto como um “bichinha”.Eu não entendia muito bem essa coisa de ser “viadinho”; eu era apenas uma
criança,como teria noção sobre opções sexuais? Nem tinha ao menos idéia de como essestermos eram pejorativos.Apesar de ficar irritado na hora eu deixava para lá, mas umepisódio com a minha mãe me magoou bastante na minha infância.Minha prima passava o final de semana na nossa casa e, como eu gostava debrincar com meninas, fazia companhia para ela numa boa nas suas brincadeiras de
“casinha”. Éramos bem organizados, eu combinava com ela assim: eu limpava a casa e
ela fazia a comida, botávamos a bebê para dormir antes do meio dia, então íamospassear de carro à tarde, já que os dois trabalhando juntos terminaríamos a partechata mais rápido. Um belo dia minha mãe me pega com a boneca no colo.Horrorizada, minha mãe me pergunta o que eu tô fazendo
roubando
a boneca daminha prima. Eu na minha inocência respondi que não tava roubando, tava botandoela para dormir. Minha mãe responde categoricamente que isso não é coisa demenino, que isso era tarefa da minha prima, eu deveria estar brincando de bolinha deg
ude ou de pipa como os outros meninos “normais” faziam.
 Depois disso, passei três meses numa psicóloga. Sim, minha mãe pensou que
eu era doente da cabeça; a médica constatou que eu era “normal”, que não era “gay”,apenas tinha uma mente “afeminada”... Dá p
ara entender um negócio desses? Eu
 
odeio essas classificações de gêneros, menino usa azul, menina usa rosa, menino gostade carro, menina gosta de sapatos e por aí vai, por que não podemos simplesmentegostarmos daquilo que nos dá na telha? Por que tenho que seguir uma cartela depossibilidades limitadas por um gênero? Onde está minha individualidade? Doeu
muito para mim saber que minha mãe achava que eu era “esquisito”.
 Eu entrei na pré-adolescência, deixei as brincadeiras de casinha de lado, passeia jogar videogame e andar de bicicleta, a me relacionar mais com meninos, mas nem
por isso deixei de fazer atividades que as pessoas consideravam coisa de “viado”.
Nessa fase da vida fui estigmatizado porque me interessei a fazer artesanato com jornais velhos e garrafas pet (sempre tive a mania de aproveitar tudo que posso). O fimda picada para os meus parentes foi quando resolvi que faria um curso para aprendera lidar com biscuit, fazer ponto e cruz e aulas de pintura. Eu achava aqueles panos deprato com desenhos e bordados o máximo e queria fazer os meus, já que eu sabia
desenhar... Mas fui impedido, minha “doença” estava atacando novamente, não pude
fazer os cursos que eu gostaria. Simplesmente me negaram porque isso ia contra a
convenção de ser “macho”. Só
agora depois de adulto é que eu obtive autonomia para
essas “atividades de mulher”.Outra vez minha individualidade foi transgredida emnome de uma “preocupação” que tinham comigo. Era frustrante, eu não entendia a
razão disso tudo, eu só queria ser eu mesmo e fazer as coisas que eu gostava, seoutros homens não davam atenção que culpa eu tenho de querer?No segundo ano do ensino médio conheci um cara gay assumido. Nossaspersonalidades bateram muito, rapidamente nos tornamos grandes amigos, nuncaduvidei da minha condição de hetero e ele sempre me respeitou, nunca me cantou, ese eu fosse homossexual, qual seria o problema, né? Mas as pessoas não pensamassim, e logo viramos motivo de chacota... Ouvíamos buchichos, comentáriosmaldosos de todas as partes, alunos, professores, funcionários da escola, enfim
todos
 estavam criando um caso que não existia e nos julgando por isso! Como se gostar dealguém fosse crime, só por que essa pessoa tem a mesma genitália que a sua...Os anos da escola passaram, fui para a faculdade, conheci outras pessoashomossexuais, se tornaram boas amigas e eu aprendi muito com elas. Pelo menos issominha família não critica mais tanto hoje em dia, se faz é de forma velada e para mim éaté melhor que seja assim, pois estou meio cansado de ter que defender uma condutaque não é errada!Mas voltando um pouco, agora vou contar-lhe um caso complicadoque tive na adolescência que me rendeu outras situações absurdas.Eu tinha uma namorada que era muito independente, ela fazia as coisas que elagostava, dizia tudo que pensava na minha cara, até com certa sinceridade exagerada...Sou meio chato com as palavras, mas era justamente por isso que eu a amava, era tãodona de si! Eu realmente a admirava por isso.Em roda de amigos às vezes eu falava uma bobagem e ela me repreendia. Isso
era o fim, todos meus amigos (homens) me desafiavam, “Ih, cala a boca dela, vaideixar barato?”. Eu ria, concordava com ela quando achava que tinha que ser e dizia
para eles que eu não mandava na boca de ninguém. Isso era visto como sinal de
“cornice” ou de “cintura frouxa”, como alguns diziam.
 Outra coisa que incomodava até mesmo a mãe da garota era o fato de ela sairproduzida para a escola ou o estágio. Minha ex-sogra chegou a me cobrar uma atitude
“máscula” e dizer para
a filha dela não sair com roupas muito decotadas ou calças maiscoladas. Quando eu respondi que eu não era o pai da menina, e que ela tinha todo o
 
direito de sair assim quando bem achasse e que ela tinha o direito de se achar bonita egostosa, eu quase le
vei uma peixeira no bucho! Recebi ainda o apelido de “tanga
-
frouxa”... Imagina deixar a mulher decidir por si só para onde vai, quando vai e com
que roupa quiser? Absurdo! Cadê o macho repressor? Digo,
 protetor 
... não é opressão,é proteção, né?Eu ainda tive que argumentar com o pai dela pedindo para ele fazer umexercício de imaginação: as mulheres árabes não andam de burca, aquela vestimentaque cobre quase tudo? Essas mesmas mulheres não deixam de passar por situaçõesdegradantes de intimidação! E por muito menos, se uma delas deixa o tornozelo àmostra ou o pulso, já viu, né? Disse ainda ao pai da menina que para o homem bastaser proibido para ser cobiçado, não importa muito o quê. Sendo assim mostrar umpouco dos seios ou uma parte do antebraço dava na mesma.Também tive problemas por "deixar" ela ir na mesma condução que o ex-namorado dela todo dia de manhã. Ela nunca escondeu que tinha uma quedinha porele sexualmente falando. Eu fiquei tranquilo, disse a ela que eu confiava no nossorelacionamento e que eu estava sempre disposto a satisfazê-la. Caso ela procurasseoutra pessoa para isso, poderia fazê-lo sem problemas, era só me avisar queterminaríamos o namoro numa boa. Eu era fiel à ela, no nosso trato particular issoprescindia que ela também fosse, mas qualquer um dos lados podia quebrar este
vínculo desde que achasse conveniente, se preocupando apenas em não “enrolar” o
outro. Mas fui tachado de corno manso, boné de galho e outras coisitas mais. Foi difícilignorar, te confesso, não posso impedir uma pessoa por sentir tesão por outra, ela estánamorando, é diferente de estar morta! Manter um relacionamento onde a menina
tinha sua liberdade conservada era um “problema”.
 No fim essa garota passou no vestibular para uma federal e foi morar em outracidade. Novamente fui cobrado pela minha ex-
sogra a tomar uma “atitude de homem”e tentar impedir a mocinha de “abandonar” a família e o futuro noivo? Dono? Eu
desejei a ela toda a sorte do mundo e disse também brincando para ela não pensar emnamoro e aproveitar os tempos de república (será que fui idiota? Às vezes penso que
sim... penso às vezes que esse ‘conselho’ foi um tanto machista por uma certa ótica).
Quase fui escalpelado pela família (as duas famílias, a minha e a dela), escapei porpouco.O texto está ficando maior que os seus, Lola. Vou resumir o final então:
Cresci, hoje sou adulto, conservo ainda algumas doses de “troglodismo”, por exemplo:
acho que cantar uma mulher na rua é diferente de flertar ou paquerar, a primeirasituação é uma invasão, uma ofensa; a segunda é uma tentativa de conseguir umanamorada. Mas em balada me dou a permissão de chegar nas garotas e dizer coisas
mais toscas.. Quase ao estilo “pedreiro”. Penso eu: “tá na balada, tá disponível e nãoquer nada sério”! Eu sei que esse p
ensamento está errado e vou apagar ele da minhacabeça, prometo. Também me pego às vezes dando risada de piadinhas machistas.Sei que a omissão é outro fator que ajuda a manutenção dessa forma tão medieval dese viver. Se eu vejo algum amigo comentando algo machista ou agindo de forma ruimcom alguma mulher, eu procuro dizer que ele está praticando uma atitude machista(aprendi no seu blog que a melhor maneira não é acusar a pessoa de ser machista).Claro que eu passo a ser o alvo das pérolas e impropérios, porém não me coloco comovítima, de forma alguma, prefiro ajudar combatendo este mal dia a dia.

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