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Colcha de retalhos
A criatividade brasileira é capaz de movimentar a economia, reduzirdesigualdades e fortalecer a auto-estima da população. Como em outrasreges do planeta, está aberto o debate - e a busca de soluções - em tornoda indústria cultural do país
Por Eliana Simonneti , de São Paulo
A economia criativa é responsável,hoje, por 7% de toda a riquezaproduzida no planeta. Crescerapidamente. A ONU calcula que embreve esse índice será de 10%
As imagens que ilustram a abertura desta reportagem são uma amostra dadiversidade de tipos,traços, coloridos e culturas que existem no planeta - etambém no Brasil.Cinco mil grupos étnicos - a maior parte deles minoritários -vivem em cerca de 200 países. Roupas, enfeites, objetos de decoração,idiomas, ritmos e sons formam uma colcha de retalhos de valor intangível quevem adquirindo importância crescente com o aumento do comércio e dasrelações entre os povos.A questão já está em pauta nos países desenvolvidoshá décadas e começou recentemente a chamar também a atenção dosbrasileiros.Por estar chegando atrasado para a festa, o Brasil tem de seapressar para pegar rapidinho o passo.Mas, como criatividade, alegria, talentoe disposição para empreender não faltam no caldo de cultura dos
3/1/2009 RevistaDesafiosdoDesenvolvimentohttp://desafios2.ipea.gov.br/desafios1/14
 
Fonte: CIA-2003/ Pnud - Relatório de DesenvolvimentoHumano (2004)
brasileiros,não será difícil produzir um molho substancioso.Informões da OrganizaçãoMundial do Comércio (OMC) dãoconta de que o faturamento dasindústrias criativas no mercadointernacional duplicou nosprimeiros três anos do século XXI.Segundo cálculos dosespecialistas da Organização dasNações Unidas (ONU), a economiacriativa,que envolve setores tãodíspares como o teatro, oartesanato, a televisão,o cinema,a publicidade e o desenvolvimentode programas decomputador,entre muitos outros,é responsável,hoje, por 7% dasriquezas produzidas no mundoe,como cresce rapidamente, logochegará aos 10%.Essa, noentanto,é uma médiageral.Esconde disparidadesterríveis.De acordo com a Organização dasNações Unidas paraEducação,Ciência e Cultura(Unesco), apenas três países, oReino Unido, os Estados Unidos ea China, produzem 40% dos bensculturais negociados no planeta -entre eles livros,CDs, filmes,videogames e esculturas. Asvendas da América Latina e da África, somadas,não chegam a 4%.Ao divulgaressas informões, resultantes da análise de 120 economias, em dezembropassado, o diretor-geral da Unesco,Koïchiro Matsuura,afirmou: "Embora aglobalização dê oportunidades para que os países compartilhem suas culturas eseus talentos criativos, é claro que nem todas as nações são capazes deaproveitar as oportunidades que se apresentam". E atenção: cinco sextos dapopulação mundial - uma multidão de cinco bilhões de pessoas - vive empaíses em desenvolvimento ou absolutamente pobres. Estão, portanto, entreos que não conseguem aproveitar as tais oportunidades das quais falou odiretor da Unesco.No Brasil,cálculos mais abrangentes indicam que o PIBCultural contribui com apenas 1% da riqueza nacional o que é surpreendentequando se observa o sucesso que o país faz no exterior desde os tempos deCarmen Miranda.Hoje o cardápio nacional,muito mais variado, vai da moda àculinária, passando pelo software
Experiências internacionais de sucesso
Em todo o planeta, os países estão se movimentando paraproteger sua produção criativa e estimular seucrescimento. No Cazaquistão, o design dos tapetes persas
3/1/2009 RevistaDesafiosdoDesenvolvimentohttp://desafios2.ipea.gov.br/desafios2/14
 
 foi registrado e protegido como propriedade intelectual. NaHungria, 6% das receitas das emissoras de televisão sãodirecionados à prodão de filmes nacionais.O Egitoestimula parcerias público-privadas para financiar a infra-estrutura da indústria cinematográfica.Zurique, na Suíça, foi mais longe. Para ampliar o leque deprodução cultural, a cidade passou a ser apresentada,desde 2003, como um porto liberal para pensadores,empreendedores e criadores. Atraiu muita gente. Hoje, asindústrias criativas são grandes empregadoras na cidade.Algo semelhante ocorreu em Viena, na Áustria, onde foilançado em 2004 um plano para promover e facilitar ocrédito a pequenas e médias indústrias criativas - emáreas diversas, de moda e música a multimídia e
design
.Atualmente, o setor emprega mais de 100 mil pessoas.Na França, 40% das músicas tocadas pelas emissoras derádio têm de ser em idioma francês. O governo subsidia aprodução de filmes nacionais para a televisão e asexpressões culturais do povo gaulês. Desde 1983, oInstituto para o Financiamento do Cinema e das IndústriasCulturais oferece garantias de 50% a 70% do valor dosempréstimos concedidos pelos bancos aosempreendimentos do setor. O escritório dedicado a cuidarda exportação da música francesa foi criado em 1993 eestá presente em Nova York, Londres, Berlim e Paris. Ovolume de vendas saltou de 1,5 milhão de CDs em 1992para mais de 39 milhões em 2000. Um assombro.No Reino Unido, a expressão " creative britain"foi cunhadaem 1997. Os órgãos públicos foram orientados aestabelecer parcerias com o setor privado para impulsionaras indústrias criativas. Os resultados servem de exemplopara outras iniciativas. Em 2002, o setor representou4,2% de todos os produtos e serviços exportados pelopaís - e o crescimento das vendas externas é, em média,de 13% ao ano. Essa turma criou cerca de 8% da riquezaproduzida em 2003. Os dados são do Ministério dasIndústrias Criativas, cujo titular, James Purnell, pretendetransformar a Grã-Bretanha no maior centro criativo doplaneta. Atualmente, 120 mil empresas dessa área estãoregistradas no Inter-Departamental Business Register.Do outro lado do Atlântico, o Canadá começou a daratenção à economia criativa (não apenas empresas, mastambém manifestações culturais, museus e bibliotecas) em1980, quando uma lei permitiu a liberação de verbas paraprogramas de treinamento, de abertura de empresas e decriação de empregos no setor. Em 1993, apenas trezeanos depois, foi feito um estudo sobre os resultadosobtidos. Entre outras coisas, constatou- se que cadadólar aplicado em atividades relacionadas à cultura gera3,2 dólares na atividade econômica como um todo. Hoje,segundo o Conselho da Cidade de Toronto, somente nomunicípio existem 190 mil pessoas (14% da força detrabalho) atuando na área cultural, em empresas quefaturam 9 bilhões de dólares por ano. 
3/1/2009 RevistaDesafiosdoDesenvolvimentohttp://desafios2.ipea.gov.br/desafios3/14
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